(Ler ao som de Calle 13 – Latinoamerica)

É do escritor um gosto abrasivo de colocar pra fora tudo o que se remexe, incomoda e suspira. Colocar pra fora, assim, como quem rompe o casulo, é a forma mais simples de libertar a letra, a prosa e a conversa. Sobre conversar, Themis Lima sabe muito bem. A jornalista e escritora lança nesta quinta-feira, 27, às 19h, no Mahalila Café e Livros, seu primeiro livro intitulado Bandeira de Trapos, pela Editora Tribo.

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Themis Lima e seu “Bandeira de Trapos”

Sua obra é o resultado de um conjunto de relatos, entrevistas e bate-papos durante suas explorações por quatro países sul-americanos: Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Abordando aspectos políticos, sociais e culturais nos contos, Bandeira de Trapos é um livro que apresenta uma realidade pungente e muitas vezes deixada à margem pela sociedade.

Desenvolvendo sua escrita de forma introspectiva, Themis dá à sua voz uma autoridade de quem viveu muitas experiências, dando vazão aos seus sentimentos íntimos, mas ao mesmo tempo sua obra é extrospectiva, procurando penetrar nos relatos e nos sentimentos dos outros a fim de observar o que neles se passa.

Confira a entrevista que fizemos com a autora para o blog (com direito a muito café) sobre escolhas, viagens, inspirações e literatura:

CAPA BANDEIRA DE TRAPOS

Capa do livro “Bandeira de Trapos”, de Themis Lima

O CHAPLIN: Por que motivo você escolheu o jornalismo como profissão?

Themis – Eu sempre fui muito curiosa, gosto muito de contar e de ouvir histórias. Por que eu fui pro jornalismo, mesmo? Apesar de ser curiosa, eu não relacionava essa curiosidade à profissão. Fiz comunicação por achar interessante aquilo ali, mas foi bem aleatório. Mas o porquê deu continuar no jornalismo? Acho que é da capacidade que ele te dá de humanizar o relato, tratar as histórias a partir das pessoas daquela história. Sempre me chamou atenção! Eu acho que foi por isso que eu continuei.

O CHAPLIN: Como surgiu a ideia do livro?

Themis – A ideia do livro foi um amigo que me deu. Já estava viajando, assim, há algum tempo e eu sabia que teria que fazer um trabalho de conclusão de curso, mas não tinha nada em mente. Bem separado disso, nessa época (no ano de 2012) eu morava em albergues, onde tinha muita gente “louca”, pessoas diferentes e estranhas.  A gente (eu e meu amigo) estava conversando sobre elas e ele me disse “por que você não escreve um livro falando sobre as histórias das pessoas, ‘loucas’ ou não, que você vem conhecendo durante as viagens?”. É aí que eu comecei a levar isso mais a sério e a pensar realmente num livro. Então foi a partir dessa ideia que eu comecei a elaborar a vontade de escrevê-lo.

O CHAPLIN: Como se deu o processo de criação do livro?

Themis – Muitas histórias caíram no meu colo de presente e o processo foi muito longo por causa de três etapas: primeiro foi a etapa de entrevistas, ir atrás das pessoas ao mesmo tempo em que conhecia algumas por acaso, nisso foram feitas quase 30 entrevistas; gravação e anotações, que me ajudavam a organizar as ideias, pois anotava tudo o que me lembrava, de detalhes que me ajudavam a escrever e pregava na parede; e depois que cheguei ao Brasil começou o processo de estudar mais profundamente a história da América Latina em muitos livros escolares, de (Eduardo) Galeano, tudo pra me sentir habilitada a falar.  Todo o processo de elaboração e conclusão do livro levou cerca de sete meses.

O CHAPLIN: Na escolha das histórias você pensou no que o leitor gostaria de ler ou no que você achava mais interessante?

Themis – Eu deveria ter pensado no que o leitor gostaria de ler, mas não, nunca foi um critério. Eu queria seguir um ritmo. Assim como uma pessoa tem começo, meio e fim, o livro por si só tem que ter começo, meio e fim. A sequência das histórias tem de dar a entender isso.

O CHAPLIN: Que histórias te marcaram durante as viagens?

Themis – Tiveram duas que me marcaram muito, mas acabaram não entrando no livro. Numa eu passei duas semanas indo todos os dias a uma favela de Buenos Aires, a favela 21-24, que é só de paraguaios. Eu passei esse tempo acompanhando os preparativos para a murga, que é uma coisa meio folclórica e ligada à paróquia, onde o padre organiza. O meu personagem gostaria que fosse o padre, porque era ele que estava ali acompanhando tudo, mas ele não quis. Acabei perdendo a história. A segunda é que eu também fui voluntária numa revista, a Hecho En Bsas, em Bueno Aires, uma revista feita para pessoas que moram na rua. A revista é vendida para essas pessoas a três pesos na sede e eles revendem a dez pesos, por exemplo. A sede tem banheiros, biblioteca, camisinhas que são entregues, tudo para que eles possam usar. Mas eu não trabalhei como repórter, sim como assistente social. A minha função era a melhor de todas: sentar pra conversar com eles. Porém nesta época as coisas estavam um pouco complicadas e fato é que eu também perdi essa história da Revista. Mas como parte da construção das minhas ideias sobre a América Latina, essa experiência foi muito importante.

O CHAPLIN: Essa experiência na Revista te enriqueceu tanto assim?

Themis – Cada dia que eu passei ali foi muito importante. Eu vi uma pobreza que eu não conhecia, eu vi uma realidade forte. O grande aprendizado que tive ali foi que toda pessoa de perto é um mundo, toda pessoa tem uma história pra contar. Ninguém é monótono. E grande parte disso foi na Revista.

O CHAPLIN: Por que você escolheu a América Latina como foco de produção da sua escrita?

Themis – Inicialmente foi por causa do meu namorado, ele é argentino e eu viajei para encontrá-lo. Mas o motivo real é que eu queria relatar uma realidade completamente diferente da que eu já tinha conhecido, pois eu tinha visitado a Europa. A surpresa foi que a Europa, pra mim, não significava ser bom. Era legal, super desenvolvido, uma calçada não fica quebrada por mais de 10 horas, entendeu? Tudo muito organizado. Mas eu sentia que queria vivenciar e escrever sobre outras coisas.

O CHAPLIN: Por que o título “Bandeira de Trapos”?

P25-02-14_10Themis – Eu sou, sempre fui e para sempre serei fã de Humberto Gessinger, ex-vocalista dos Engenheiros do Hawaii. É uma pessoa que me inspirou muito, tanto na forma de ver o mundo como nas referências que eu tenho hoje, como: Jean-Paul Sartre, Albet Camus, Pink Floyd. E existe uma música que se chama Concreto e Asfalto, e essa música, entre outras coisas, fala sobre viajar, de estar com o pé na estrada. Tem um trecho que ele fala assim: “fiz bandeira desses trapos, devorei concreto e asfalto”. Sempre foi algo que ficou na minha cabeça e quando eu pensei no livro já tinha o título antes de ter os perfis, entendeu? Pra mim fazia todo o sentido, porque a América Latina não é uma colcha de retalhos, é uma bandeira de trapos. Pra mim sempre teve toda a lógica e a referência veio a calhar muito bem.

O CHAPLIN: A sua obra segue uma linha bem descritiva, relatando fatos, assim como a essência do jornalismo. O jornalismo sempre faz parte da sua escrita ou são duas coisas separadas pra você?

Themis – Eu não sei fazer de outra maneira. Não saberia escrever se não houvesse jornalismo literário, é uma falha minha. Pra mim o jornalismo não é só um complemento.

O CHAPLIN: Podemos ver algumas referências a Eduardo Galeano na sua obra. O quanto ele lhe influencia?

Themis – Há bem mais referências a Gessinger. (risos) Galeano tem mais influência no sentido ideológico. Ele é muito cru, áspero. Ele não é o tipo de escritor que ameniza a situação de onde vive, pois ele não culpa a América Latina, mas ele fala a realidade dela. E ele fala isso com propriedade de cientista político e de jornalista, com fatos, dados, coisas concretas. E ele consegue, com fatos reais, dizer “a gente foi fodido pelos colonizadores, roubaram tudo da gente, massacraram a nossa população, mas ainda estamos aqui”.  Pra mim isso é Galeano.

(Confira nossa matéria sobre Eduardo Galeano aqui.)

O CHAPLIN: Que outros autores latino-americanos te inspiram?

Themis – Tem vários. Mais enquanto literatura, na maneira de narrar, Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa foram as maiores inspirações.

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Então, caro leitor, se puder desbravar fronteiras – sejam elas sociais, ideológicas ou físicas –, desbrave. Nunca perca a chance de caminhar com suas próprias pernas, de pensar com sua própria cabeça. Ver o que está além é pra quem não tem medo de enxergar, e acredite, a muitas coisas difíceis no meio do caminho.  O livro de Themis Lima é pra quem não tem medo. E aqui me despeço de malas feitas e com um novo olhar sobre essa América sobrevivente que caminha, apesar de tudo.

Confira a resenha de Bandeira de Trapos aqui.

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