As salas de cinema vivenciam um limbo há praticamente um ano. À exceção de curtos espaços de tempo em que a tímida reabertura ocorreu (com pouquíssimo público), os espaços responsáveis por nos mover para inesquecíveis experiências narrativas e sensoriais têm-se metamorfoseado em lembranças quentinhas quase distantes. Queremos voltar? Claro! Mas estamos dispostos?

Redes como Cinemark e Cinépolis, por exemplo, penam com engajamentos pífios nas mídias sociais. A Disney, uma das maiores produtoras de entretenimento do mundo, e cujas ações despencaram durante a pandemia, hoje vale menos que a Netflix, grande pioneira em serviços VOD.

Infelizmente não é só a pandemia que ameaça o futuro das salas comerciais de cinema. O principal vilão torna-se o hábito. Ao longo do isolamento social provocado pela crise sanitária do coronavírus, novos hábitos foram consolidados pelos cinéfilos. O ritual semanal de ir ao cinema encontrou, talvez, um substituto com a incrementação das experiências domésticas de consumo audiovisual: um upgrade no contrato da Netflix para um plano com melhoria de resolução; contratação de novos serviços de streaming; sofá novo; TV maior e com melhor imagem; quem sabe uma poltrona que permita ainda mais conforto à experiência?

Some-se a isso os valores cada vez maiores que se paga para ir ao cinema, tornando a experiência cada vez mais elitizada. Um filme na telona custa, no mínimo R$ 15 (considerando um estudante em horários menos concorridos) e pode chegar a até R$ 60 se a sala escolhida forem as almejadas VIP. O primeiro valor é superior a um plano mensal de serviços como Amazon Prime e Apple+. O segundo valor comporta facilmente dois serviços de streaming como Netflix e Disney+. Todos esses serviços permitem ver centenas e até milhares de filmes ou séries em alta resolução, com direito a pausa para o xixi ou para tomar um gole d’água sem limitação de quantidade de produtos consumidos.

Aos poucos, no distópico cenário pós-pandemia, o cinema passa de companheiro de rotina para a possibilidade de um item festivo, excepcional, um investimento atípico para dias pontuais. Talvez o primeiro encontro dos amantes ou o passeio comemorativo de aniversário seguido de um jantar especial (o que em muito me recorda o que se tornou o teatro de shopping nos dias de hoje).

Parece uma realidade complicada para as salas de cinema, mas quais as novas perspectivas para essa tecnologia secular e que, apesar de todas as atuais dificuldades, é responsável por emocionar e provocar um sentimento de imersão em meio aos excessos de distrações do mundo?

1. O cinema como espaço de coletividade, interatividade e debate

Nas últimas décadas, as salas de cinema, sobretudo após as suas transições para os shoppings centers, tornaram-se, em geral, espaços de mais entretenimento e menos debate e apreciação artística. A esse papel ocuparam-se os cineclubes, que funcionam como resistência para a apreciação do cinema em seu formato de crítica social e política e até mesmo para a mera apreciação artística de formatos e experimentações. Ora, com a massificação das experiências de entretenimento solitárias (ou em poucas companhias) por meio dos serviços de streaming e equipação dos cômodos domésticos, é possível que os cinemas tornem a ocupar o espaço de reunião de cinéfilos ou para aqueles que desejam consumir a sétima arte em grupos maiores e cultivar o hábito de trocar ideias sobre o filme após a experiência.

2. Seletividade e papel de curadoria

Da mesma forma, é possível que os cinemas passem a se tornar espaços de privilégio. Os melhores filmes, os mais aguardados, os mais prestigiados pela crítica. Frequentará o cinema aqueles que se identificam com a arte, para além do mainstream. Outro viés da supracitada seletividade não é tão poético e pode ir por um caminho que agrada mais ao capitalismo: o da segmentação por classe social. O cinema pode se transformar por completo em um espaço VIP, ao qual poucos terão acesso e que privilegiará uma classe social que “pode”. Quem não consegue custear o alto valor da experiência em salas de cinema, se arrumará com os serviços de streaming e reservará os espaços de cinemas para momentos pontuais (quase inexistentes) de ostentação.

3. Serviço de assinatura e acesso on demand 

Essa é uma perspectiva mais ousada do futuro das salas de cinema, mas que muito me anima, caso possa se concretizar. Segue aquele velho ditado: Se não podes lutar contra eles, junte-se a eles. Um modelo de negócio interessante de ser analisado seria o dos cinemas on demand por meio de serviços de assinatura, como hoje funcionam, por exemplo, as redes de academia ou os planos de saúde e imitando os próprios serviços de streaming. Um valor mensal seria pago e daria acesso a um número tabelado de horas de tela ao mês, ou ainda funcionaria como amortizador de uma contrapartida mais barata para cada filme a ser consumido. Em vez de R$ 30, o indivíduo pagaria R$ 5 mediante vínculo fixo de, vou chutar aqui, R$ 39,90 mensais. Ainda teria acesso a privilégios como, por exemplo, desconto no combo da pipoca, um convite de estreia a cada trimestre, e acesso à toda a rede de cinema em qualquer lugar do Brasil. Parece animador? Para mim, sim. Um proposta inovadora e que levaria uma nova perspectiva aos espaços de cinema. Obviamente, sonhar é fácil, mas há todo um modelo de negócio já vigorando há décadas a ser analisado e reformulado para tornar viável essa proposta.

Só nos resta aguardar e torcer por um futuro com vida e saúde às salas de cinema e ao seu papel social!

Sobre o(a) autor(a)

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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