Cinema Novo e Cinema Marginal, conheça filmes do cinema nacional

Nós não conhecemos o nosso próprio cinema. Isso é um fato. É necessário desbravar os nossos grandes cineastas, e aqui vou recomendar dois clássicos do cinema nacional, que representam muito bem os nossos dois movimentos cinematográficos mais importantes, o Cinema Novo e o Cinema Marginal.

Os Cafajestes (1962) – Ruy Guerra

O Cinema Novo é um dos movimentos cinematográficos mais importantes do mundo. Começou por meados dos anos 50 e finalizou pelo início dos anos 70. Diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e Ruy Guerra estão entre os mais importantes do movimento. Aqui queremos falar deste último, Ruy Guerra, diretor nascido em Moçambique, mas que fez carreira no Brasil. Os Cafajestes (1962) e Os Fuzis (1964) são os seus principais filmes dentro do Cinema Novo, e aqui quero comentar o primeiro, que também é a estreia na direção em longas do Ruy. 

O filme acompanha dois malandros, interpretados  por Jece Valadão e Daniel Filho,  que vão enganar Leda, interpretada pela eterna Norma Bengell,  para tirar fotos dela nua na praia.  A cena onde isso ocorre é uma das mais icônicas do cinema nacional e o primeiro nu frontal brasileiro. Guerra conta que precisava de algo para atrair o público para o cinema, ela queria chamar atenção, escolheu o erotismo para isso, mas a cena só o usa como ponto de partida, se transformando em outra coisa no seu decorrer.

Em um plano-sequência longuíssimo, a câmera gira e gira ao redor da Norma nua, com as fotos sendo tiradas e as gargalhadas ao fundo. O tempo da ação é quase interminável, o possível erotismo se transforma numa tortura, é exaustivo. Será que a ação durou tudo aquilo mesmo ou estamos dentro da cabeça da personagem da Norma? Inclusive esse é o momento de virada do filme, de ruptura, a partir de agora tudo será mais reflexivo. Uma curiosidade é que o plano  foi filmado uma única vez, e foi feito em plano sequência para evitar censura, conta o diretor, pois evitaria que os censuradores tirassem alguma parte, não havia como remontar o filme sem aquele plano. Habilmente Guerra enganou aquela censura burra, que nada entende de cinema, nas palavras dele.

É bem marcante a maneira como o filme se transforma no decorrer da sua projeção. A questão das fotos, algo que poderia se direcionar a alguma trama bem mais amarradinha, começa a se diluir e perder importância, a narrativa vai se tornando cada vez mais reflexiva e espiritual, culminando na sequência da praia a noite ao final do filme, que é simplesmente fantástica. 

Enxergo duas influências bem fortes: a Nouvelle Vague e os filmes de Antonioni. Cada uma contribuindo para cada parte do filme, que ao meu ver são demarcadas: antes das fotos e depois das fotos. Outro filme da década em que vejo isso e tem semelhanças com o filme do Ruy é o japonês A Mulher do Lago (1964), que recomendo fortemente. 

Aprecio o aspecto hangout do filme. É um passeio pela cidade, uma interação com as pessoas e os lugares que vão surgindo. Nessa narrativa que transcorre em apenas um dia, Guerra sabe usar muito bem o tempo de cada espaço. A dinâmica mais rápida do começo vai dando lugar a tempos mais dilatados, expressando o estado emocional dos personagens no momento. É uma articulação do tempo e do espaço com intenção bem expressiva, como é o caso da cena das fotos na praia.

Para continuar a explorar o Cinema Novo eu recomendo além de Os Fuzis, do próprio Ruy, O Padre e a Moça (1965, Joaquim Pedro de Andrade), Terra em Transe (1967, Glauber Rocha) e São Paulo, Sociedade Anônima (1965, Luis Sérgio Person).

Sem essa, aranha (1970) – Rogério Sganzerla

Saímos do Cinema Novo e entramos no Cinema Marginal, que por sua vez teve início no fim dos anos 60 e decorreu pela década de 70. E para representar o movimento nada melhor do que falar de Rogério Sganzerla, o diretor mais importante dele, sendo também um dos melhores do Brasil.  O filme que iremos comentar é Sem essa, Aranha,  o quarto filme do diretor, e para mim o seu melhor.

A primeira coisa que chama atenção no filme são os planos sequência. Primeiro, porque nos dois primeiros filmes do Sganzerla, Bandido da Luz Vermelha (1968) e A Mulher de Todos (1969), uma inventiva montagem foi empregada. Já aqui todas as cenas se resolvem em apenas um plano. E segundo, a própria qualidade de tais planos que evocam um estado de transe.

Transe é uma ótima palavra para articular uma ideia sobre esse filmaço do Sganzerla. Não há aqui uma lógica de causa e efeito clara, não há uma história sendo construída, o efeito dos planos é em si mesmo, pelas performances que apresenta. Performance é outra palavra chave aqui. O filme tem uma pegada performática, vai de Zé Bonitinho a Luiz Gonzaga, tem dançarinas, tem circo, tem uma mulher que sempre grita que tá com dor de barriga o tempo todo, e tem, é claro, a maravilhosa Helena Ignez, musa do diretor. E tudo se combina perfeitamente, tais performances nesses planos longuíssimos criam esse estado de transe. Transe dos personagens, transe da câmera, transe do filme. 

É um filme que desafia a linguagem cinematográfica e os padrões de qualidade. É como se ele transformasse o amadorismo, a precariedade de sua produção nas suas principais armas. Hora não escutamos nada, hora tá muito escuro, mas tudo indo está imerso no estilo do filme, tudo isso vira expressividade. Cada falha se torna um acerto, a mise-en-scène elaborada por Sganzerla abre as suas portas para tudo e todos, as pessoas curiosas nas ruas se tornam personagem e parte dessa estética caótica, mas controlada. 

Há momentos no filme que se tem a impressão de uma câmera completamente aleatória, mas logo surgem elementos no plano que parecem que foram minimamente calculados para estarem exatamente naquele lugar e naquele momento, é uma direção do caos perfeita.

Se tornou um dos meus filmes favoritos, não só do Brasil, mas do mundo. Recomendo também do Sganzerla, os seus dois primeiros filmes que já foram citados e Copacabana, Mon Amour (1970). Ainda dentro do cinema Marginal, Júlio Bressane é outro diretor para ser desbravado. Matou a família e foi ao cinema (1969) e O Anjo Nasceu (1969) devem ser vistos.