Podemos dividir os estudos fílmicos em três práticas: histórica, teórica e crítica. Hoje irei me focar nos dois últimos, que inclusive tenho um texto sobre cada aqui no site, Como histórias são contadas no cinema? (teoria sobre narrativa) e Como analisar a fotografia de um filme? (método crítico). 

Importante ressaltar que as três práticas andam juntas, mas uma sempre é o objetivo, se utilizando das demais como auxílio. Isso se evidencia no primeiro ponto que trarei sobre a relação e diferença da atividade crítica e teórica. O crítico se utiliza de preceitos teóricos para analisar filmes específicos, já o teórico parte de perguntas geradas por filmes específicos para gerar respostas gerais, que valem para diversos filmes. Teoria do cinema não se faz de um filme ou poucos, mas a partir de dezenas  ou centenas deles. As teorias narrativas que comentei no texto citado têm valor para diversos filmes, e o crítico pode as utilizar para analisar um determinado filme. 

 A teoria está preocupada com o geral e o não específico. Ela está preocupada com o fenômeno geral do cinema. Como o som afeta o espectador? É algo que a teoria pode gerar uma resposta. A teoria não está preocupada com como o som de Kill Bill afeta o espectador, este já seria um trabalho para o crítico. Uma análise do uso do som por Quentin Tarantino em todos os seus filmes, ou como ele faz seus enquadramentos, não formam uma teoria. Claro que o conhecimento gerado por essa análise pode ser usada por um teórico (ou historiador) para chegar a uma resposta mais geral.

A famosa Teoria do Auteur não é de fato uma teoria, mas sim um método crítico. Pois ela não visa a compreensão do fenômeno geral do cinema, e sim a avaliação de exemplos particulares de fenômenos, um filme ou um diretor específico, por exemplo. A “Teoria” do Auteur é uma apreciação do valor de trabalhos individuais, o que é grande parte do trabalho dos críticos, é algo para guiar, mas nunca deve ser usado como cartilha na análise de um determinado filme. A não-presença de uma assinatura aparente não significa que o cineasta não se relacionou com a forma fílmica de uma maneira própria. 

Perceba que não estou diminuindo o trabalho do crítico. Tanto a crítica como a teoria são essenciais nessa relação com o Cinema. Entrando no trabalho do crítico, que tento ser, o conhecimento das teorias (sua função e elaboração) é fundamental, assim como entendimento de sua própria função diante do fenômeno fílmico. Como o crítico deve se relacionar com a obra? Em textos futuros irei trazer tanto teorias do cinema como métodos críticos para a discussão. 

Focando agora no processo de elaboração da Teoria do Cinema.

Uma teoria deve fazer uma pergunta sobre algum aspecto importante do cinema, então trazer uma resposta, resposta essa que levará a outras perguntas. O teórico do cinema Dudley Andrew, cujo pensamento está nesse texto, divide os tipos de perguntas que podem ser feitas sobre cinema nos seguintes pontos: matéria-prima, métodos e técnicas, formas e modelos, objetivo ou valor. Podemos relacionar com o que David Bordwell coloca em sua Poética do Cinema: particularidades,  padrões, princípios, práticas e processos. 

Não irei detalhar cada perspectiva colocada por Andrew, mas partindo do que o autor coloca, o importante é entender como elas se relacionam em termos de perguntas e respostas. Uma pergunta em uma categoria pode se relacionar implicitamente com as outras e um único fenômeno pode ser estudado de qualquer perspectiva ou pode ser transposto e questionado por todas as  perspectivas. Exemplo: como usar a cor no cinema para aumentar a sensação de realismo? Essa é uma pergunta que poderia entrar em métodos e técnicas, estando associado ao ponto de vista do cineasta. A pergunta pode ser reformulada para uma perspectiva do espectador (objetivo ou valor), como o espectador responde a cor em um filme? A importância dessa transposição de perguntas é que mesmo que dois teóricos comecem de perspectivas diferentes, podemos relacionar seus pontos de vista transpondo as perguntas. 

Outro ponto importante sobre a teoria do cinema é que a resposta dada por um teórico a alguma pergunta pode ser extrapolada e servir a diversas perguntas. Dudley coloca que podemos generalizar a partir da menor observação feita por um teórico sobre som até sua opinião sobre a questão mais ampla, mais genérica, da tecnologia. 

As duas proposições sobre a relação entre perguntas e respostas dentro do fazer teórico que coloquei se chama Transposição e Interdependência de perguntas e são essenciais para se fazer entender as teorias.

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