A vitória no Oscar de “Green Book – O Guia” é mesmo tão preocupante?

Desde que chegou aos cinemas, Green Book – O Guia (Green Book, 2018) vem dividindo opiniões pelas suas qualidades técnicas e, principalmente, pela maneira como escolhe abordar – ou não – seus temas. Uma parcela relevante de críticos e espectadores viram na produção uma forma bastante inadequada de tratar o racismo, visão de que discordo e que, respeitosamente, me disponho aqui a apresentar uma leitura alternativa.

A trama passada na década de 1960 acompanha Tony Lip (Viggo Mortensen), um ítalo-americano branco, bronco e boca suja que é contratado para ser motorista temporário do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um musico negro altamente capacitado que fará turnê de apresentação para brancos ricos do lado mais racista dos Estados Unidos.

Por ser a cerimônia cinematográfica de maior popularidade, o Oscar carrega a áurea de maior evento do ramo. Na verdade, não passa de uma festa bacana – com fins comerciais – onde Hollywood congratula a si mesma. É importante ter em mente que os prêmios entregues na festa não representam a verdade absoluta e tão pouco precisam ser encarados com mais importância do que merecem. Lembrem-se: o Oscar é uma confraternização estadunidense para os filmes que se destacaram no circuito comercial, nem sempre obras densas e mais artísticas são contempladas.

Mesmo tendo adorado assistir Green Book, era impensável para mim vê-lo levar a estatueta de Melhor Filme, já que se trata de uma produção corriqueira, formulaica e mais preocupada em agradar do que em fazer um grande cinema. Não que essa intenção mereça ser desprezada, mas existia, ao menos, três candidatos consideravelmente superiores: Roma, Infiltrado na Klan e A Favorita.

Esse tipo de coisa acontece corriqueiramente na Academia, uma vez que seu sistema de votação costuma premiar a trabalhos medianos, mas deixarei pra falar melhor disso mais para frente…

De qualquer forma, o filme mediano desse ano está sendo massacrado por não trazer uma abordagem contundente para um tema relevante. Mas será mesmo que todo tema importante precisa ser conduzido com tamanha seriedade?

O cinema é uma ferramenta de revolução, reflexão, educação e reivindicação. Obras que levantam alguma bandeira social, como a luta contra o racismo, sempre serão reconhecidas: Adivinhe Quem vem para Jantar (1967), A Cor Púrpura (1985), Mississippi em Chamas (1988), 12 Anos de Escravidão (2013), Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016), Corra! (2017) ou quase toda a obra de Spike Lee, por exemplo.

Mas cinema também é escape, lazer e entretenimento. Tem que se levar em conta o alcance e a acessibilidade da obra, tanto por questões financeiras quanto por uma maior inclusão do público. Nem todo espectador tem um grau de instrução elevado, que o permita absorver o conteúdo de obras complexas e suas diversas camadas; está disposto a ser confrontado; é afeito à ideia de ir ver um filme, depois de um dia desgastante de trabalho, e ser “obrigado” a destrinchar uma obra intelectualmente densa ou receber uma mensagem de forma “agressiva”.

Para esses casos, produções mais amenas e acessíveis têm seu valor por conseguirem incutir alguma mensagem positiva entre doses generosas de risadas e lágrimas, mesmo que isso venha com alguma superficialidade. Não valorizar isso é querer diminuir o impacto de obras como A Vida é Bela (1997), que toma a liberdade artística de transformar a guerra numa mentira lúdica para que uma criança não sofra com os horrores vivenciados; O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), que aborda a ditadura militar brasileira sob a ótica ingênua de um garoto; ou Django Livre (2012), que alça um negro livre, durante o período de escravidão, ao posto de “super herói” e o transforma num símbolo de empoderamento, força e luta por direitos.

Mahershala Ali como Dr. Donald Shirley e Viggo Mortensen como Tony Vallelonga em “Green Book,” dirigido por Peter Farrelly.

 

Eu não vejo Green Book como um filme SOBRE RACISMO, mas um que fala TAMBÉM DELE. Cada história pode ser contada sob diversas óticas e a escolhida aqui foi a de um olhar ameno sobre a improvável relação de amizade entre duas pessoas completamente diferentes, em tempos sombrios para negros. Tony é um ítalo-americano branco, racista, pouco instruído, acostumado à agressividade e pobre; Dr. Shirley é um afro-americano altamente intelectual, acostumado a diplomacia e argumentação e dono de um alto padrão de vida.

Uma das acusações ao roteiro também escrito por Nick Vallelonga – filho do verdadeiro Tony – é que sofre do mesmo racismo estrutural que aponta na sociedade, isso porque a obra, aparentemente, relativiza o preconceito por transformar Lip num “racista boa gente”. A cena em que Tony se diz ser mais negro que Don, só por vir de um bairro pobre e conhecer mais artistas negros que o músico, é costumeiramente citado como exemplo do preconceito da obra.

Essa frase dita pelo protagonista é, sim, preconceituosa, mas porque precisa ser, por coerência narrativa. Desde o início sabemos que Tony é racista e vive num meio racista. Ao conviver com um negro, sem a presença de seus familiares, não encontra respaldo para manter sua postura normal. Aos poucos, começa a compreender que sua forma de pensar é errada e começa a evoluir. Mas essa evolução não é feita de imediato, como ilustra a cena em que ele teme deixar a carteira perto de Don. Essa cena se torna engraçada não pelo preconceito, mas pela estupidez do protagonista ao achar que aquele homem muito rico iria roubá-lo só por ser negro. TONY É IDIOTA.

A cena em que ele diz ser mais negro não significa que a produção acredite que conhecer a cultura negra seja suficiente para se sentir um, mas que o processo de evolução não foi concluído e que ainda existe racismo em Tony, por isso ele profere tamanha barbaridade. É preciso considerar também que o protagonista é filho de imigrantes e que, provavelmente, foi menosprezado por isso. Não por acaso, ele faz bicos como segurança de boate e motorista. Tony é racista, vive em um ambiente preconceituoso e deve ter sido vítima em algum momento. Logo, sua evolução tende a ser lenta e deslizes fazem parte do processo.

Uma das características mais legais de uma boa história é a sua capacidade de nos fazer ter empatia por personagens moralmente ambíguos ou, em alguns casos, completamente errados. No cinema, podemos tomar por exemplos Erik Killmonger e seu caminho torto por justiça em Pantera Negra (2018); Thanos e sua lógica enviesada de equilíbrio em Vingadores – Guerra Infinita (2018); o autodestrutivo Jackson Maine, por vezes abusivo com a parceira em Nasce Uma Estrela (2018); ou Hannibal Lecter e sua psicopatia em O Silêncio dos Inocentes (1991). Na tv, a cativante sociopatia gradativa de Walter White em Breaking Bad (2008 – 2013) ou o Serial Killer Dexter (2006 – 2013).

Entretanto, a capacidade de Green Book nos fazer ter empatia por Tony não é vista com a mesma flexibilidade. Enquanto alguns apontam isso como um problema, eu enxergo como um acerto do roteiro, que consegue dar camadas ao personagem. As pessoas são muito mais complexas que o simples conceito de certo e errado. Nem todo mundo é totalmente bom ou totalmente mau, e é assim que enxergo Lip.

E a obra não se limita a mostrar apenas o “preconceituoso legal” em evolução. Vemos broncos ignorantes e suas agressões físicas na cena do bar, o responsável pelo restaurante que impede o Dr. Shirley de comer junto aos brancos e o polido homem de classe alta que impede o músico de usar o banheiro da casa. Por mais que não seja um estudo minucioso de causa, não deixa de ser uma maneira de mostrar o preconceito em diferentes situações.

Taxar Green Book como um filme feito para branco não precisa ser, necessariamente, algo ruim. Os negros são vítimas da estupidez dos brancos. Logo, não são as vítimas que precisam compreender como o racismo funciona. E aqui eu remeto ao que já foi dito sobre a acessibilidade da mensagem.

Claro, não posso negar a intenção lucrativa de se fazer um filme agradável, mas se uma parte da plateia não se dispõe às obras mais densas, um trabalho assim pode atingir aqueles mais flexíveis à reflexão. Até porque, os preconceituosos mais convictos dificilmente assistiriam conscientemente obras pungentes como Infiltrado na Klan. Obras que buscam jogar a informação da forma necessária são mais relevantes, mas respeito as que tomam atalhos para atingir mais pessoas.

O fato de ser produzida maioritariamente por brancos também é levantado quando se questiona o desserviço que a obra apresenta. E aí eu me indago: se o filme é realmente tão problemático, porque importantes atores negros como Mahershala Ali e Octavia Spencer aceitaram se envolver? Ambos hoje ocupam posições de destaque e têm carreiras consolidadas, condicionando-os a selecionar trabalhos com mais cautela.

Ali está presente em séries respeitadas como House of Cards (2013 – 2018) e True Detective (2014 – 2019), além de já ter vencido um Oscar. Ele teria condições de recusar o papel de Don Shirley caso visse a obra como equivocada. O mesmo vale para Spencer (também vencedora de um Oscar), que assumiu papel de Produtora Executiva, função que – a grosso modo – ajuda a viabilizar a produção de um filme. Será que eles não compreenderam que estavam se juntando a um erro ou enxergaram algo de positivo?

O Lugar de Fala dos líderes do projeto também foi posto em Xeque. Questiona-se o fato de uma produção que envolve preconceito racial tenha sido escrita e dirigida por brancos. Não é novidade que cineastas brancos encabecem filmes com temáticas raciais, como os já citados A Cor Púrpura, Mississipi em Chamas e Django Livre – dirigidos, respectivamente, por Steven Spielberg, Alan Parker e Quentin Tarantino. Esse é um ponto delicado já que a questão do Lugar de Fala nunca foi bem definida – ou respeitada – em Hollywood. Se Green Book é tão apontado por ser liderado por brancos, porque esses outros filmes também não são? Ao menos o de Tarantino, que é mais recente, poderia ser questionado. A impressão que fica é que obras superiores acabam isentas dessa crítica por suas qualidades ou por atenderem alguns requisitos em suas abordagens.

O Oscar é uma cerimônia cinematográfica pertencente a uma Academia. Como tal, deveria avaliar o filme pelo que apresenta e, principalmente, como utiliza a linguagem cinematográfica. Exigir dessa cerimônia que priorize obras com mensagens socialmente relevantes é minar a possibilidade de ótimas obras menos políticas levantarem a estatueta. É dizer que Ben-Hur (1959), Amor, Sublime Amor (1961), Titanic (1997), Chicago (2002) e O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), por exemplo, jamais teriam condições de se sagrarem vencedores. É retirar o valor de produção da equação e respeitar a mensagem acima de tudo.

A vitória de Green Book não é uma mensagem. Não representa a academia querendo se mostrar política, mas sem ter coragem de dar o prêmio ao filme mais político. É o reflexo de sua fórmula falha de votação. Para quem não sabe, cada votante preenche uma ficha elencando os candidatos em ordem de preferência. Se o primeiro colocado não atingir a quantidade necessária de votos para se eleger, uma nova contagem é reaberta. Dessa vez, o último colocado é descartado e os votos destinados a ele serão redistribuídos, respeitando a sequência de preferência assinalada nas fichas. Assim, obras medianas que não polarizam opiniões, que são agradáveis e pouco arrojadas, acabam se tornando a segunda, terceira ou quarta preferência de muitos votantes e levam vantagem no processo de recontagem.

Não precisa voltar muito na história da cerimônia para compreender que esse processo: em 2015, Spotlight – Segredos Revelados desbancou A Grande Aposta e Mad Max – Estrada da Fúria; em 2012,  Argo desbancou Amor, As Aventuras de Pi e Django Livre; em 2011, O Artista venceu Meia-Noite em Paris; e em 2010, ano particularmente doloroso para mim, O Discurso do Rei derrubou 127 Horas, A Origem, Cisne Negro e Toy Stroy 3.

Esses vencedores não representaram mensagem alguma da Academia, apenas se beneficiaram do sistema que premia o filme mais querido pela maioria. Caso contrário, teríamos que admitir que Moonlight – Sob a Luz do Luar só foi capaz de derrotar o franco favorito La La Land – Cantando Estações porque a Academia quis posar de socialmente consciente. E que, pelo mesmo motivo, 12 Anos de Escravidão foi capaz de derrotar O Lobo de Wall Street, Nebraska e Ela. Acreditar nisso é desacreditar a competência desses vencedores.

Enfim. Peço desculpas pelo texto gigante. Essa minha opinião não vem para desvalorizar quem não se sente representado por Green Book e nem para fazer ninguém mudar de opinião. Apenas foi a apresentação de outro ponto de vista, um convite ao debate. Aproveito a oportunidade para linkar dois ótimos textos que trazem visões contrárias à minha: o de Sihan Felix para o portal Canaltech e o de Gianfranco Marchi para o Cineclube Natal. E aí, o que vocês acharam do filme?