Os tempos têm sido bons para Daniel Galera. Gaúcho nascido apenas por acidente em São Paulo, ganhou recentemente um dos prêmios literários mais importantes do país (Prêmio São Paulo de Literatura) pelo romance Barba Ensopada de Sangue (2012), que foi traduzido para o inglês, alemão, holandês, espanhol, e outros idiomas. E ainda vê outros de seus livros ganharem vida no cinema; além de Cão sem Dono, filme de 2007, adaptado do romance Até o dia em que o cão morreu, já Mãos de Cavalo, de 2006, encontra-se em plena fase de filmagem. E Cordilheira e o “Barba” engatinham no mesmo projeto.

Barba man...

Tive uma conversa com o escritor – que não raro tem seus livros indicados aqui nesta coluna – sobre o momento atual de sua carreira, da literatura brasileira, crítica, redes sociais, e um monte de coisas. Apesar de ser frequentemente apontado como a principal voz da literatura contemporânea no país, Galera prefere não se embebedar com elogios:

A boa recepção me estimula a seguir escrevendo. Mas é crucial saber manter uma distância segura do oba-oba, isso pode aniquilar um escritor. Eu, por exemplo, não me sinto à vontade com televisão, saí de várias redes sociais, e tento dosar minha participação em eventos literários para não perder o foco na minha vida particular e meu trabalho“, diz.

EscritorDos eventos literários que Galera cita, um deles, que participou ministrando a oficina de contos foi o Ação Leitura Sesc 2013, estive presente (e posso dizer que o aprendizado facilitou no processo de publicação de meu primeiro livro, no mesmo ano). Quando lhe perguntei se ele observava uma evolução no cenário literário atual após rodar o país em festivais e bienais, me disse que não conseguia ver a literatura como um “gráfico de finanças”.

É difícil dizer se há aumento qualitativo. A literatura não está sujeita a uma evolução como a de um gráfico de finanças. Ela é um reflexo da sociedade e da cultura de um tempo. A meu ver, a nossa literatura contemporânea reflete, em seus triunfos e fracassos, aspectos importantes da vida humana no nosso tempo, e nesse sentido é uma literatura de qualidade, sim. O aumento quantitativo é parte disso – ele reflete um mundo em que as vozes individuais têm mais espaço, independentemente da qualidade de expressão. O universo das redes sociais faz parte disso também.

Mesmo tendo de se afastar para se preservar no trabalho e vida pessoal, Galera acompanha de perto a adaptação de Mãos de Cavalo – uma produção que conta com Mariana Ximenes e Armando Babaioff, com direção e roteiro de Roberto Gervitz, atualmente sendo filmado no Rio Grande do Sul – porém, sem interferência:

Meu envolvimento com adaptações cinematográficas de histórias minhas se resume essencialmente a conversar com diretor ou roteiristas e leituras de tratamentos do roteiro, para dar minhas opiniões, que eles podem aproveitar ou não. Acho importante que os cineastas possam trabalhar com liberdade, o filme é deles, eles também são autores que se inspiram na minha obra.

Edição inglesa de "Barba Ensopada de Sangue"

Edição inglesa de “Barba Ensopada de Sangue”

Mãos de Cavalo é um excelente romance de formação masculina. O ponto de vista masculino costuma ser bastante explorado na obra de Daniel Galera, também em Até o dia em que o cão morreu e Barba Ensopada de Sangue, por exemplo, e aqui talvez seja onde o escritor, por alguns, seja mal-compreendido. Provavelmente como seus personagens. Quando levantei a questão, fiz uma comparação com uma declaração recente que o americano Philip Roth havia dado a um jornal sueco, diante de acusações tolas de misoginia em sua obra. Roth diz que nunca teve a intenção de escrever sobre o poder masculino feroz e triunfante, mas sim sobre o poder masculino devastado. Galera, de certa forma, se identificou com a declaração.

Me identifiquei um pouco com o que Roth diz. Sempre entendi as figuras masculinas dos romances dele exatamente nos termos em que ele as defende, como emblemas de uma fragilização do poder masculino, e não exaltações de uma masculinidade machista e misógina. Já tive acusações de misoginia por causa dos meus livros, e nunca as compreendi. A meu ver, meus personagens masculinos estão em grande parte perdidos, isolados e confusos. Quando encarnam estereótipos do poder masculino, não é com glória alguma. O mundo contemporâneo não os comporta mais, e isso lhes traz sofrimento e, em alguns casos, aprendizado. O que eu me recuso a fazer é idealizar a condição feminina para criticar o masculino. Os dois gêneros são igualmente problemáticos, e a literatura que me interessa ler e escrever é a que ilumina esses problemas, em vez de propor um mundo falso em que as coisas são como gostaríamos que fossem.

galera2

Com uma identidade já solidificada em sua obra, que além de romances, abrange contos e uma ambiciosa HQ, Cachalote (em parceria com Rafael Coutinho), Daniel Galera constrói seu valor a passos largos, deixa sua marca em nosso tempo – sem negar a realidade do mundo em que se insere – e afirma-se como um escritor maduro e talvez o primeiro com potencial de ter sua literatura reverberada fora do país.

One Response

Deixe um comentário

Your email address will not be published.