De Pedro Bandeira, para Renato, aquele abraço!

Ver um ídolo de infância é coisa que mexe com a gente. Não que eu tenha chegado lá, mas imagino que até mesmo um velhinho se torne um meninote ao lado daquele que um dia quis imitar ou que sonhou em poder dar um ‘oi’. Eu era um misto de ansiedade e euforia quando saí de casa com minha antiga edição de “O anjo da morte”, um bloquinho e uma caneta, em direção à escola de música da UFRN.

Quando estava na quarta série esbarrei pela primeira vez com palestrante daquela terça-feira. É verdade que ele não usava o bigode cheio com que se apresentou ontem e nem parecia tão simpático. Encontrar com Pedro Bandeira em forma de livro, na capa de “O anjo da morte”, indicava, na verdade, o oposto. O cão raivoso, salivando enquanto latia, é o contrário do homem que encontrei.

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Pedro Bandeira, em palestra na Cientec | Foto: Maria Aparecida Borges/Agência FOTEC

Na abertura da 20ª Cientec, feira que vai até à sexta, parei no estacionamento da Escola de Música, ainda vazio. Encontrei um velho amigo na entrada (também chamado Pedro). Enquanto conversava com o meu amigo Pedro, o outro Pedro passou, com passadas mansas, em direção ao auditório. Me perdi do primeiro Pedro e segui o segundo com os olhos. Consegui soltar um “olá”. Ele me respondeu com “olá, bom dia”.

Me despedi mal do primeiro Pedro (e agora percebo como fui descortês com um amigo que não via há tanto tempo), mas foi involuntário. Segui seu homônimo na ânsia de finalmente promover aquele encontro entre criador e criatura que já aguardava 10 anos. No meu andar atordoado, não notei que o auditório que Pedro adentrara ainda estava fechado para o público. Fui avisado na porta.

Não deu tempo de maquinar se a chance teria passado. Quase de imediato ele saiu. Foi minha chance.

– Com licença, Pedro.
– Oi, bom dia. Vi que você trouxe um livro aí. É pra assinar?
– Sim, sim.
– Então vamos até ali.

10728757_781739758560502_1344803737_nNaquela breve conversa me apresentei (ele deve ter achado meu nome engraçado, porque falou Renato algumas vezes), e falei de minha priminha Juliana (a leitora mais voraz de minha família atualmente, que há pouco se apaixonou em sua estreia com ele).

Quando a caneta permanente escreveu o Pedro dentro da Bandeira, a obra que era autor, virou o fã, que foi marcado permanentemente pelo autor em sua primeira página (aquela das honrarias).

Bati uma foto e me preparei para a palestra. Perdi o começo, é verdade. Um infeliz contratempo com uma flor-de-liz me fez perder o começo da palestra, mas graças à pontualidade latina, foi possível voltar a tempo de ouvi-lo falar (e graças ao jeitinho brasileiro foi possível entrar no auditório).

O encontro terminou como deveria: acima das expectativas. O que poderia ter sido um show de vaidades (conjugado sempre na primeira pessoa do singular), tornou-se um espetáculo democrático, de opiniões na primeira pessoa do plural. Democracia, leitura, formação da América, educação, literatura…

E o fã volveu à casa, com um livro alguns nano-gramas mais pesados, um bloquinho e uma caneta. E minhocas mil na cabeça.

Por Renato Vasconcelos, especial para o blog O CHAPLIN