‘Dunkirk’: Frieza técnica se sobrepõe ao calor humano

Um soldado chega numa praia e se vê cercado junto a outros milhares. À sua frente, o oceano gélido e mortal que os impede de fugir a nado; à direita, quilômetros de areia monitoradas de longe por tropas inimigas; à esquerda, um sem número de homens apinhados num cais estreito à espera de alguma embarcação; e acima, aviões bombardeiam qualquer tentativa de sobrevivência. É nesse quadro desesperador que o cinema quase presencia sua nova obra-prima. Quase…

Baseado na impressionante passagem da Segunda Guerra Mundial, o resgate de mais de 300 mil soldados cercados pelo exército nazista, Christopher Nolan escreve e dirige Dunkirk (2017). Em declaração polêmica recente, que sobrou até para a Netflix, o cineasta britânico afirmou que seu objetivo é criar experiências a serem vividas apenas no cinema. Apesar de antipático, é possível compreender tal posicionamento após assistir ao seu novo trabalho. Dunkirk não se trata de um filme padrão, mas de uma imersão complexa que precisa de total entrega por parte do público.

A construção dessa experiência acontece desde a concepção do roteiro, que esquece a estrutura clássica de três atos em detrimento do ato final. Um clímax de tensão exaustiva que dura pouco mais de uma hora e meia. Não existe desenvolvimento de trama ou personagem, mas a recriação do caos para onde somos jogados.

A limpidez do som é assustadora. É possível distinguir cada camada ouvida numa cena. Tiros, explosões, metal, água, hélices, motor e uma infinidade de outros elementos em harmonia inundam nossos ouvidos.

Os efeitos práticos arrebatadores e verossímeis permitem à espetacular fotografia de Hoyte Van Hoytema recorrer aos planos abertos sem medo, mostrando a grandiosidade das sequências. A escolha também justifica o uso do IMAX através distribuições dos elementos em tela. Hoytema usa travellings, planos longos, steadicam e até enquadramentos de câmeras acopladas às fuselagens dos aviões em batalhas lindamente coreografadas. Algo parecido é feito em um dos barcos que afunda: a câmera presa permite a impressão de uma imponente parede de água consumindo os soldados.

A trilha sonora de Hans Zimmer é impecável. Presente em quase todo o filme, praticamente como ator principal, a música rege o ritmo claustrofóbico e cresce de acordo com o desespero do enredo. A marcação de relógio consegue provocar uma aflição interminável, além de dialogar diretamente com o sentido de urgência da obra.

Colaborador de Nolan desde Batman Begins (2005), Lee Smith entrega uma montagem que auxilia no ritmo frenético da produção e tem participação direta no roteiro. A trama oferece três pontos de vista: os acontecimentos em terra sob a ótica de Tommy (Fionn Whitehead), passados em uma semana; a tentativa do senhor Dawson (Mark Rylance) em ajudar os soldados pelo mar, que dura um dia; e o suporte aéreo do piloto Farrier (Tom Hardy), correspondendo a uma hora.

Os três arcos são contados simultaneamente. A história é construída como quebra-cabeça e a montagem excepcional nos possibilita compreender tudo. Alguns fatos estão presentes em pontos de vista diferentes, situando acontecimentos importantes em cada linha temporal.

Apesar das inúmeras qualidades apontadas até agora, uma escolha ecoa com tanta força que impede a produção de se tornar plena. Ignorar o desenvolvimento de personagem é coerente aqui. Afinal, na guerra não existe passado que humanize os adversários, apenas o desejo de sobrevivência.

Entretanto, por mais eficiente que seja essa jornada, estamos falando de cinema. A ligação emocional ainda é relevante. Como nos importar com desconhecidos que entram e saem de cena com tanta velocidade que nem distinguimos uns dos outros?

Em prol do sensorial, Nolan nos afasta de seus protagonistas pela frieza de sua direção. As mortes chocam, mas não nos afeta por muito tempo. A única ligação emocional que temos com aqueles personagens vem do fator humano, que finda sendo pouco para nos tocar, principalmente por se tratar de um fato histórico repleto de altruísmo. É como ligar a TV no noticiário local e ser informado de atrocidades rotineiras. A gente se comove, mas retorna à nossa realidade assim que desliga a TV ou muda de canal. Não nos falta empatia, mas um vínculo para nos afetar.

Quanto ao elenco, resta dizer que não há destaques positivos ou negativos. Cada personagem funciona como engrenagens que servem à história e somente a ela.

Dunkirk é um bom exemplo de que, nem sempre, o melhor trabalho entrega o melhor resultado. Tecnicamente irrepreensível, te amarra à cadeira e te exaure. Porém, a falta do calor emocional interfere na sensação final e diminui a experiência no pós-filme. Uma pena para os espectadores que apreciaram uma obra quase perfeita. Quase…