“E Natal Ganhou a Guerra”, deixando marcas e pegadas

Exposição na Pinacoteca do Estado está em seus últimos dias de visitação e é oportunidade para vivenciar uma Natal histórica além dos livros

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Fotos: Lara Paiva

A Segunda Guerra Mundial durou de 1939 e 1945. A capital potiguar teve uma importância histórica neste período, pois foi usada para auxiliar os Estados Unidos durante o combate. Os soldados americanos trouxeram aos natalenses daquela época o consumo de novos alimentos, além da adoção de vestimentas e expressões que nunca antes haviam sido usadas.

Algumas moças natalenses chegaram a se apaixonar pelos yankies e resolveram casar. A vinda dos estrangeiros também ajudou a estimular o desenvolvimento da cidade. Natal era a sede das estruturas militares dos norte-americanos devido à localização ser próxima do continente africano e europeu. Uma dos principais pontos de apoio foi a Rampa, prédio construído em meados da década de 1930 que antes servia como local para pousos e decolagens de voos comerciais da Pan American, Pan Air do Brasil e Lufthansa.

Porém, na Segunda Guerra o local serviu de Base Naval dos hidroaviões. Outra estrutura usada pelos yankies foi a Parnamirim Field, o maior campo de aviação e operações militares que os Estados Unidos viriam a ter fora do seu território. Vale lembrar que esta base aérea foi uma das causas do surgimento de Parnamirim, município localizado na região metropolitana de Natal.

Em janeiro de 1942, o então presidente Getúlio Vargas decidiu romper as relações diplomáticas com o Eixo, composto pela Alemanha, Itália e Japão, e o país decidiu entrar na guerra após a alguns meses desta separação. Um ano depois veio a Conferência de Potengi, uma reunião ocorrida em 28 de janeiro de 1943 com Vargas e o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt. Neste encontro foram definidos os acordos que deram origem à Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Isto é apenas um resumo de uma enorme história. Uma parte dela pode ser vista na Pinacoteca Potiguar, no bairro de Cidade Alta. A exposição “E Natal Ganhou a Guerra” foi montada pela Fundação José Augusto (FJA) a partir dos objetos do acervo pessoal do empresário Augusto Maranhão. A curadoria das peças ficou por conta do historiador Fred Nicolau.

Nicolau conta que o interesse em estudar a participação de Natal veio por intermédio do soldado reformado da marinha norte-americana, David Goodell, que narrava diversos acontecimentos e exibia fotos daquela estadia. O historiador manteve contato com Goodell até a sua morte, em 2009.

A sala mostra a partir da Rampa pré-guerra, de como funcionava a Parnamirim Field e o cotidiano dessa época em que a cidade foi “dominada” pelos rapazes da terra do Tio Sam. Tudo isso em fotos, acessórios, revistas e vestimentas.

De acordo com Fred, muitos arquivos vieram dos Estados Unidos, através de lojas de artigos históricos. Ele e Augusto Maranhão (dono da coleção em exposição) descobriram estes materiais a partir de contatos com amigos que moravam no país. Também foram coletados por meio dos veteranos de guerra ou descendentes dos mesmos. “Muita gente de lá guarda coisas de algum parente que participou”, admite.

Sobre as fotografias, estas retratam os hábitos dos estadunidenses na cidade, como a ida a festas, planejamento para as táticas de guerra, passeios a praias locais, aeronaves usadas na época, e os oficiais caminhando por algum ponto da cidade, como a Rua Doutor Barata (que fica no bairro da Ribeira, onde funcionava o comércio da cidade) e o Grande Hotel.

“Eu recebi um e-mail de um americano que tirou essas duas fotos aqui (aponta). Uma é de um soldado em frente a Casa Rio (hoje funciona a loja Rio Center)”, comenta o historiador. Como falado anteriormente, eles mudaram os hábitos daquela pacata região. Para elaborar a pesquisa, Fred conta que entrevistou muitos natalenses que viveram este momento e achava interessante os detalhes lembrados pela população. “Pessoas com 80, 85 e 90 anos contam tudo o que viveram e lembram com muita alegria e amor, porque era uma grande novidade”.

A exposição também exibe a foto de uma cerimônia matrimonial entre uma natalense e um americano, além de imagens de atores de Hollywood que visitaram a cidade. “A gente encontrou um envelope vindo dos EUA, que um rapaz, identificado como Tenente Martin, guardou. Ele foi ao estúdio Namorado e mandou revelar os negativos que tinha. Então, nós tivemos acesso e revelamos as fotografias. Elas mostram artistas no Grande Hotel”, comenta Fred.

As raridades não ficam só por conta das imagens, mas também nos acessórios. São exibidos o uniforme de gala do Exército norte-americano, medalhas e fardas da FEB, binóculo alemão encontrado no município de Macau, além de capas da revista Life.

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A publicação saiu de circulação nos anos 2000 e foi considerada um dos mais importantes jornais impressos, era dedicada apenas ao fotojornalismo. Uma outra curiosidade é uma carta escrita com o envelope de um oficial dedicada para a mãe e a esposa.

Também possui pedaços do Ventura, avião construído para patrulha e bombardeiro utilizados pela Força Aérea Americana. As peças foram encontradas submersas no rio Potengi. De acordo com relatos, a aeronave decolou de Parnamirim e teve que fazer um pouso forçado na Fortaleza dos Reis Magos. Junto com o material é apresentado uma cópia do relatório sobre o acidente aéreo.

A exposição vai ser encerrada esta semana, entretanto parte desse acervo será utilizado no Museu da Rampa, que está sendo construído no bairro das Rocas, onde ficou a Base Naval americana. Segundo Fred, o museu será montado, antes, em uma estrutura provisória até ser mudado para o local definitivo. “Com certeza vai ter mais coisas do que foi apresentada nesta exposição”, garantiu.

Visitas à exposição

A vinda dos norte-americanos à cidade devido ao jogo da Copa do Mundo que aconteceu no dia 16 de junho estimulou a lembrança desta relação entre EUA e Natal que não é tão lembrada como deveria tanto pelos potiguares quanto os yankies.

“Isto é uma coisa interessante, a Copa trouxe, por coincidência, um jogo dos Estados Unidos em Natal e fez com que um monte de gente quisesse conhecer sobre o passado da cidade e eles descobriram esta história que nem eles e tampouco os brasileiros sabiam”, disse Nicolau.

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Antes de assistir à partida, a embaixadora dos Estados Unidos, Liliana Ayalde, visitou a exposição. Quando a equipe d’O CHAPLIN visitou a exibição, um jornalista de uma revista católica norte-americana realizou uma matéria sobre o assunto. “Além dos visitantes, teve gente da Fox News que nos entrevistou”.

A Pinacoteca funciona de terça a sábado, nos horários das 08 às 18 horas. Para mais informações é só telefonar para (84) 3231-3498 ou 3211-7056.