Por décadas, a África do Sul esteve mergulhada em um sistema social onde os direitos e deveres dos cidadãos eram delimitados em razão de sua condição racial: de um lado, a minoria branca detentora da hegemonia política e financeira; e do outro, a maioria negra e pobre, inegavelmente o lado vitimizado pelas chagas sociais decorridas de anos de políticas preconceituosas.

Foi um pouco dessa conjuntura que o diretor sul-africano Neill Blomkamp abordou no seu ótimo “Distrito 9”, onde apresentou um belo desenho narrativo, em que metáforas e analogias dialogavam para tecerem não apenas uma crítica ao apartheid ou à classe racial que o conservou, mas aos seres humanos de forma genérica, que na mensagem do filme, carregam em si a semente do preconceito.

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Essa corajosa abordagem rompeu com a teia maniqueísta com que Hollywood tece suas críticas sociais: nesse ideal, o mundo é uma síntese dicotômica entre vítimas e algozes, e a representação crítica de uma estrutura social no cinema tende a obedecer esse critério de opostos. Infelizmente, é nesse padrão que resvala Elysium, o novo filme de Blomkamp.

A trama, situada em 2154, apresenta dois espectros sociais. No primeiro, temos o planeta Terra, que se tornou uma monumental favela habitada por uma espécie de proletariado miserável, que espreme-se em um ambiente de recursos naturais cada vez mais escassos. Nesse espaço, está o ex-ladrão de carros Max da Costa (Matt Damon), que depois de um acidente radioativo na fábrica onde trabalha, decide fazer um último serviço para Spider (Wagner Moura) – uma mistura de *coyote e hacker – com o intuito de ganhar sua passagem para Elysium, a fim de conseguir sua cura. A ele, juntam-se seu amigo Julio (Diego Luna) e a mãe solteira Frey (Alice Braga ).

 

Em uma realidade diametralmente oposta, temos o satélite artificial Elysium, onde toda a classe abastada da Terra se refugiou após o colapso do planeta. Essa espécie de “condomínio de luxo” é gerida por Delacourt, que se vale de meios escusos para garantir o seu poder e a segurança do habitat frente às tentativas de imigração por parte da ralé terrestre.

O longa abre com um flashback, onde conhecemos um pouco da infância de Max, e uma suposta “predestinação” que carrega em si, e que certamente um dia o levará a Elysium, como de fato é o seu desejo. Variações dessa passagem são apresentadas em outros momentos da trama, como forma de reforçar no público quais são as motivações do personagem principal, o que denota certa insegurança de seu diretor em crer que o espectador terá empatia com a verdade interna de Max.

O resto do elenco mostra-se artificial, quando não caricato, como no caso de Jodie Foster e seu ridículo sotaque francês, que em nada acrescenta ao papel; sem falar nas interpretações histriônicas de Wagner Moura e Sharlto Copley (como o deixaram compor uma inflexão de voz tão burlesca?). Por fim, resta a exposição contida de Alice Braga e a apatia completa de Diego Luna.

E quanto ao substrato crítico da obra? Bem, as motivações de Blomkamp podem ter sido louváveis, mas o problema reside na caracterização dessas críticas em sua ficção. A despeito da grande leva de imigrantes que atualmente adentra no território americano, mesmo para uma obra de ficção, é incoerente (e até desrespeitoso) por demais retratar um futuro onde a classe menos favorecida se resumirá a uma massa de latinos oprimidos, quando sabemos que na realidade, a pobreza nos EUA está bastante pulverizada etnicamente: brancos, negros e latinos são vítimas das mazelas sociais.

Esse determinismo social em relação aos latinos na obra não encontra equivalência na realidade, porém, serve como uma amostra indireta da ótica com que determinados setores da sociedade estadunidense veem os hispânicos: uma massa que se não for contida inflará a esfera populacional americana, em especial, os seus idílicos subúrbios. É irônico também que Blomkamp dê ao personagem principal um nome latino, mas que escale um ator com típicos traços americanos para representar o personagem (“o Salvador”) que dará a redenção a alguns flagelados da Terra.

Como vem acontecendo há anos, quando um blockbuster é alardeado como uma obra que despertará reflexão crítica no espectador, é bom estar preparado para puxar o freio, pois, por vezes, o máximo que ele proporcionará é a reflexão do quanto dinheiro se desperdiçou em algo tão superficial, como é o caso deste Elysium.

Nota: *coyote é uma espécie de atravessador, que guia ilegalmente imigrantes mexicanos ao território dos EUA.

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