Quando comecei a escrever este texto, me senti um pouco como Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) em “8 ½”, com crise de criatividade. Na falta de águas termais para me tratar e sem sonhos inspiradores para me arrebatar, eis que enfim me vi num beco sem saída, afinal meu prazo para publicação já tinha expirado. Porém, antes da minha prematura demissão d’O Chaplin, eis que me agarrei madrugada a dentro com algumas das obras do cineasta italiano Federico Fellini e por fim o texto começou a fluir. Nesta quinta-feira, 31, completam vinte anos da morte desse que foi um dos maiores e para alguns, o maior gênio da sétima arte. Pensando nisso, o jornalista, escritor e enorme admirador da obra de Fellini, Sandro Fortunato, teve a ideia de realizar uma mostra dedicada ao autor, intitulada “Encontros com Fellini”, iniciada no dia 18 deste mês em Natal. Foram exibidos dois filmes, até agora: “A Estrada da Vida” (1954) e “8 e ½” (1963) e amanhã, na Livraria Nobel, às 18h30, será exibido o documentário “Fellini, a História de um Mito” (2000), dirigido por Paquito Del Bosco, fechando a mostra.

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Federico Fellini foi mais do que um simples diretor, foi um daqueles realizadores que pensava o filme, escrevia o roteiro e guiava seus atores em seu mundo. Seus filmes tinham um quê autobiográfico, fantasia e uma boa dose de lembranças por vezes inventadas. Ao lado de sua esposa, a atriz, Giulietta Masina, em “A Estrada da Vida”, levou o primeiro Oscar de Filme Estrangeiro em 1957, quando a categoria foi criada e posteriormente por “As Noites de Cabíria” (1957), e o terceiro por “Oito e Meio” (1963). Quando se fala em Fellini, lembra-se de Marcello (Mastroianni), o ator que o mesmo chamava de “meu alter ego”, além das belíssimas e por vezes exóticas atrizes que preenchiam as telas em seus filmes. As tais belas musas do diretor renderam um livro de autoria do jornalista Sandro Fortunato: “Mulheres de Fellini”, lançado em junho deste ano. No mês da morte do estimado diretor, nós não poderíamos deixar de falar com um dos maiores estudiosos do assunto e fomos entrevistá-lo.

Sandro Fortunato ao lado do seu livro "As Mulheres de Fellini" | Foto: Leila de Melo

Sandro Fortunato ao lado do seu livro “Mulheres de Fellini” | Foto: Leila de Melo

Sandro Fortunato foi um dos colaboradores da finada revista especializada em cinema, “Set”. Além de jornalista, também é escritor e um fomentador de conhecimento na grande rede. Mantém no ar o site Memória Viva, vencedor do Prêmio Ibest. Sandro é um cara de riso engraçado e de opinião forte. Nos recebeu para um bate-papo sobre o seu diretor favorito, aliás, favorito não, acima de todos, afinal, como o mesmo diz: “Fellini é incomparável”.

Iniciei a entrevista com a pergunta mais básica de todas: de onde surgiu esse fascínio e interesse pela obra do diretor, e a resposta foi um “não sei!”. Depois de umas risadas, ele me responde com mais precisão: “Eu gosto mesmo é de cinema” e seguiu falando sobre seu primeiro contato com o diretor, disse que foi no finalzinho dos anos oitenta, e que assistiu ao longa em questão, “Ginger & Fred” (1986), em VHS. O carioca tinha no cinema sua maior diversão, estava presente nas salas do cinema e nos cineclubes, lugar este onde assistiu àquele que ele considera o maior filme de todos os tempos, “Amarcord” (1973). A ascendência italiana também contribuiu para aumentar o interesse.

A imersão na obra do autor veio em 2005, quando a exposição “Circo Fellini” passou por Brasília, cidade onde Sandro residia na época. Foram duas semanas assistindo a todos os filmes, cercado pelos desenhos, figurinos dos filmes, cartazes dos filmes, fotos de gravações e objetos pessoais. O programa cultural do jornalista foi assistir a todos os longas do diretor, durante essas duas semanas, com um olhar mais maduro e treinado, era como se fosse um curso intensivo sobre o cineasta. Sendo avesso ao cinema hollywoodiano, eu o questiono sobre os diretores atuantes que mais bebem da fonte do Federico. “Woody Allen, (Pedro) Almodóvar, são dois que são realizadores, não só diretores, que não estão no ‘esquemão’ de Hollywood, que eu não gosto. Eles são realizadores, de pensar, de escrever, de produzir, de idealizar, sabe? De deixar os filmes como eles querem, que é uma coisa rara”. Ele também inclui um outro diretor à lista, Roberto Benigni, o qual ele considera como, de certa forma, um herdeiro de Fellini.

A dominação norte-americana do cinema vem deixando pouco espaço, pra não dizer quase nenhum, para as outras formas de se fazer, pensar e produzir cinema. A formatação das obras hollywoodianas está tão enraizada na forma como apreciamos um filme que é quando assistimos a algo que foge da montagem convencional e das tramas e conflitos que estamos acostumados a ver que nos deparamos com o quanto nossa percepção de cinema está formatada. Desde os anos oitenta, quando houve a massificação intensa do cinema dos EUA no mundo todo, assistir a filmes em que os espectadores têm de deduzir, se atentar a detalhes e acompanhar uma história sem explosões, carros voando e tensões contínuas, pode ser cansativo para o espectador médio de cinema. Mas e aí, quem irá apreciar as obras de Fellini? Como fica o legado desse mestre da sétima arte se os jovens não se interessarem por sua obra? Certamente, será esquecida ou restrito a um público pequeno. Por mais lamentável que seja, infelizmente é a realidade. Iniciativas de se debater, de se discutir e relembrar a obra do cineasta italiano, como a mostra “Encontros com Fellini” devem ser louvadas.

As cores, os personagens exagerados, as trilhas de Nino Rota e o circo, talvez essas sejam as primeiras coisas que me vêm a cabeça quando se fala em Fellini. Pensar em filmes “fellinianos” é pensar em uma obra de vinte quatro filmes que são diferentes entre si e possuem uma assinatura originalidade inconfundível. Questionado sobre a ideia de qual seria o melhor filme para se conhecer Fellini, Sandro diz: “Eu acho que não tem um filme para começar, acho que tem filmes que são arrebatadores… ‘Amarcord’, acho que qualquer viagem que você faça com ‘Amarcord’, vai ser ótima, é sempre gostoso, comigo aconteceu assim. Eu vi aquele filme e falei: “Caramba, o que é isso?”. Mas eu acho que o ideal seria começar do início e ver os filmes pela ordem cronológica, assim você vai vendo a evolução dele (Fellini)”. Para ajudar aos marinheiros de primeira viagem, após assistir aos filmes, vale a leitura do livro “Mulheres de Fellini nos anos de 1950 – de Liliana a Cabíria”. Recheado de anotações e curiosidades, o livro contextualiza as obras do diretor para um melhor entendimento do espectador.

Cena de "Amarcord", de Federico Fellini

Cena de “Amarcord”, de Federico Fellini

Logo que eu ouvi falar em “Mulheres de Fellini”, imediatamente me lembrei das musas de outro diretor de meu agrado, Pedro Almodóvar, e suas várias mulheres, e na entrevista, não pude evitar de perguntar qual a opinião de Sandro sobre. Também um admirador do trabalho almodoviano, Sandro respondeu minha pergunta, um tanto quanto ingênua. “As mulheres de Fellini são mulheres fartas, belas, coisa que italiano gosta. Por outro lado, as mulheres do Almodóvar são a extensão do feminino que ele gostaria de ser, são neuróticas, às vezes nem são tão mulheres”, disse, gesticulando, como bom descendente de italiano.

Sandro sendo um biógrafo, não pude deixar de questioná-lo sobre a polêmica a respeito da proibição das biografias não autorizadas e o projeto “Procure Saber”, do qual grandes nomes da música brasileira fazem parte, como Djavan, Caetano Veloso, Roberto Carlos e Chico Buarque. O propósito é impedir o lançamento de contra biografias que denigram a imagem do biografado, ou invadam sua privacidade. “Quando você faz uma biografia, você se torna especialista na vida de alguém, porque as pessoas que conviviam tinham visões limitadas do biografado e você, como biógrafo, vai ouvindo as diferentes visões e tem uma visão geral, completa. Uma coisa é você contar as coisas que faziam parte da vida da pessoa, a exemplo do uso de drogas, e outra é fazer disso o fato principal pra chamar atenção e vender. Isso é idiota!”, comenta. Ele acredita que para se falar sobre o artista é preciso falar da pessoa e de suas experiências, para se compreender como essas escolhas marcaram a obra de determinado artista.

Após uma hora de conversa, resolvo fazer um breve ping pong com Sandro, para encerrar a entrevista:

Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Federico Fellini

Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Federico Fellini

Leila de Melo: Quais cineastas italianos mais influenciaram Fellini?

Sandro Fortunato: Provavelmente (Roberto) Rosselini.

Leila: Além de Fellini, quais outros cineastas italianos você gosta?

Sandro: Eu gosto de Rosselini, Ettore Scolla, Luchino Visconti, Pasolini e Benigni.

Leila: Você acha que o cinema italiano ainda irá ressurgir como outros cinemas conseguiram, a exemplo do cinema francês e alemão?

Sandro: Eu acho difícil, porque Hollywood matou todos os cinemas do mundo. Acabou com toda a cultura do mundo. Você pode perceber que qualquer coisa que saia aqui do Brasil e que seja um grande sucesso, não só aqui mais em outros países, segue essa escola, esse padrão americano, um exemplo disso é que o último filme de sucesso aqui foi “Tropa de Elite” e é um filme de montagem e formato totalmente americanos. Qualquer coisa fora disso (padrões e montagens hollywoodianas) vira circuito alternativo.

Leila: Dos atores que trabalharam com Fellini, qual deles representa mais a sua essência?

Sandro: Não tem como não dizer Marcello Mastroianni.

Mastroianni com Federico Fellini e Sophia Loren

Federico Fellini com Marcello Mastroianni e Sophia Loren

Leila: Se Fellini fosse um tema de Nino Rota, qual seria?

Sandro: Ah, tem os principais, os temas de “Amarcord”, “La Dolce Vita” e “A Estrada da Vida”, mas acho que o tema de Fellini é uma música de circo.

Leila: Qual seu filme favorito de Fellini?

Sandro: Eu gosto de todos, talvez o que mais me tocou foi esse primeiro, na realidade o segundo, que eu vi, “Amarcord”, mas ainda hoje é o que mais me toca e talvez nem seja meu filme preferido de Fellini, seja meu filme preferido de todos os tempos, a melhor coisa já feita.

Momentos divertidos da entrevista | Foto: Andressa Vieira

Momentos divertidos da entrevista | Foto: Andressa Vieira

One Response

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    Sandro Fortunato

    Vou dizer publicamente: um dos papos mais bacanas que tive este ano. Vai para a clipagem coladinho com a matéria que fizeram comigo na edição de junho da “Brasileiros”. Baci a tutti!

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