Festival Varilux e a representatividade no cinema francês

Em junho deste ano as principais capitais do país, entre elas Natal, receberam mais uma edição do Festival Varilux de Cinema Francês. O evento é sempre marcado por reunir uma amostra do que seria a produção cinematográfica francesa atual. Este ano, foram 18 os filmes contemporâneos exibidos no festival, excetuando-se à lista “Duas Garotas Românticas”, de Jacques Demy, uma comédia musical de 1967 protagonizada pelas belas atrizes e irmâs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac, também exibido em versão remasterizada.

Chamou-me atenção, particularmente, nessa edição a natural variedade tanto de gêneros quanto temáticas, e no que concerne a comparações sócio-culturais de gênero, mostrando que o cinema francês está um passo a frente da maioria do mundo, que continua tratando representatividade no cinema como exceção, utilizando-se de um sistema que se aproxima às cotas para garantir que mulheres e minorias sociais (e quando me refiro a minorias, falo no sentido político, de poder e voz social, não no sentido numérico do termo) estejam incluídas devidamente em produções.

Sem me demorar muito em uma análise subjetiva carregada de juízo de valor, apresento números e características de alguns filmes do Varilux que comprovam matematicamente a teoria de que, no que concerne à representatividade nas telonas, o cinema francês está indo muito bem, obrigada. A começar pelos gêneros cinematográficos: nesta edição, ultrapassando o estigma de edições anteriores que se caracterizaram por uma maioria do que seria o ápice do “blockbuster” da indústria cinematográfica francesa, fomos presenteados com uma seleção para quase todos os gostos. Tivemos documentário, comédias clichês, pastelões, comédias românticas, dramas, filmes históricos e de época, cinebiografias, produções autorais e poéticas e até filmes experimentais que brincam com formatos, frutos da mente criativa e inovadora do diretor, caso do divertido Rock’n Roll – Por trás da fama, de Guillaume Canet, o qual interpreta no filme uma versão caricada e complexificada de si mesmo.

“Rock’n Roll – Por Trás da Fama” traz um cinema experimental que passeia entre o autobiográfico e a ficção caricata

No que concerne aos filmes dirigidos por mulheres – uma raridade mesmo em pleno 2017, basta conferir a porcentagem de mulheres que figuram as listas de festivais e premiações nas categorias de melhor diretor – o Festival Varilux surpreendeu esta cinéfila terrivelmente acostumada com a hegemonia masculina na posição: sete dos dezoito filmes tiveram mulheres na direção, uma margem de quase 40%. Surpreende ainda que a maior parte delas tenha menos de 40 anos, o que demonstra uma clara inserção da nova geração de mulheres no ativismo na Sétima Arte.

Já os filmes que têm mulheres como protagonistas ou co-protagonistas contabilizam doze. Melhor ainda é verificar que a lista não é limitada a atores e atrizes de peso, jovens, e no auge do seu sex appeal. No que concerne à idade, temos o protagonismo nos dois extremos: crianças, como a jovem de doze anos Gloria Colston, interpretando Gloria, em “Uma Família de Dois”, ou Léonie Souchaud, responsável por protagonizar o emocionante “A Viagem de Fanny” aos treze anos; e temos também as versões claramente marcadas pela idade (e sem a preocupação de disfarçá-la) de Pierre Richard, aos 82 anos, em Um perfil para dois, Gérard Depardieu, aos 68 anos, em Tour de France, a sempre bela Catherine Deneuve, 73 anos, em O Reencontro, e a recentemente falecida Emmanuelle Riva, que aos 90 anos entregou-se em seu último papel a uma personagem divertida e encantadora, a tia Marta da comédia Perdidos em Paris.

“Um instante de amor” é dirigido pela cineasta Nicole Garcia

As temáticas abordadas pelas obras selecionadas para o Festival também são inclusivas: fronteiras geográficas, complexas relações familiares, a guerra da sociedade movida a aparências, distúrbios psicológicos, famílias pouco convencionais, conflitos de gênero e hierarquias, entre outras questões cuja necessidade de discussão urge na sociedade atual. São extremamente pertinentes, por exemplo, as visões que temos de Victoria Spick, uma advogada consumida por sua rotina, obrigações e a complexidade de sentimentos em “Na Cama com Victoria”, ou de Gabrielle, uma jovem incompreendida e ansiosa que busca a autonomia para a sua vida emocional em plenos anos 40, no filme “Um Instante de Amor”.

“Tal Mãe, Tal Filha”, de Noémie Saglio, traz a relação complexa entre mãe e filha nem um pouco parecidas

Trata-se de uma rica e honesta amostragem que nos faz refletir sobre o quanto o cinema brasileiro e americano, os mais consumidos pelos lados de cá, ainda precisam evoluir no quesito representatividade. Que as lições francesas continuem, com a qualidade de sempre e a pluralidade perseguida – e, aparentemente, alcançada.