Hoje eu quero voltar sozinho: do curta ao longa, um percurso de descobertas

(Ler ao som de “There’s Too Much Love”, de Belle & Sebastian)

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“Hoje eu quero voltar sozinho” chega aos cinemas brasileiros após sucesso no Festival de Berlin

Em 2010 o meu professor de literatura me apresentou um curta, segundo ele, “à flor da pele”, que eu não poderia deixar de assistir. “Eu Não Quero Voltar Sozinho” era o nome dele, destaque em diversos festivais pelo mundo e com um percurso online que já ultrapassou mais de 3 milhões de visualizações no Youtube. Com tamanho sucesso sobre a história de amor de dois garotos, 4 anos depois é chegada a vez de produzir um longa para abordar novos e velhos questionamentos, além de tirar da nossa boca esse gosto abrasivo que sentíamos de quero mais. Combatendo super heróis, bichos animados e personagens bíblicos nas salas de cinema, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, é uma luz de farol no penhasco imprevisível da indústria cultural.

Lançado na última quinta-feira (10) em 33 salas de 17 cidades brasileiras, a obra é uma revolução contra o atual estado das produções independentes no Brasil, que infelizmente ainda permanecem marginalizadas e sobrepujadas por grandes produtoras (como Warner, Fox, Disney e, no campo dos nacionais, a Globo Filmes). O fato é que filmes desse gênero só são realmente valorizados aqui quando fazem sucesso no exterior. Tiramos como exemplo Glauber Rocha e o seu “Deus e o Diabo na Terra do Sol” ao ganhar o Festival de Cannes em 1964, e agora com a obra de Ribeiro ao ser premiada e elogiada no Festival de Berlim. Me entristece esse culto ao exteriorizado que temos.

A trama acompanha Leonardo (Guilherme Lobo), um garoto cego e sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim). Ambos, ao fim do verão, afirmam que nunca acontece nada, como um grande amor. Desejam mudanças agora que as aulas vão começar, mas o que não imaginavam é que seriam tantas. O começo dessas mudanças vem com a chegada de Gabriel (Fabio Audi) na turma da escola. A presença do menino de cabelos encaracolados questionará não apenas a relação entre Leo e Giovana, mas despertará no garoto um sentimento que vai muito além do que (não) se pode enxergar e muito mais do se pode sentir. Descobertas estas que na adolescência se afloram, objetivando fatos que deveriam ser naturais e simples, mas que, numa sociedade atada a paradigmas, se tornam difíceis e complexas.

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Giovana, Leonardo e Gabriel

Eventualmente, Gabriel e Leonardo reconhecem que gostam um do outro, mas isso depois de mal-entendidos, ciúmes e um beijo repentino dado por Gabriel em Leo, que realmente ninguém esperava naquele momento. A reação de quem estava assistindo naquela sala não poderia ter sido melhor. Entre sorrisos e salvas de palma, ouviu-se ao fundo um menino gritar “Lacrou!!!!”, trazendo uma gargalhada profunda de todos ali. Repleta de olhares tímidos e deslizes ditos por Gabriel, os diálogos entre os garotos são construídos de maneira muito sincera e autêntica. Momentos tão delicados, cheios de cumplicidade e bem construídos, que o espectador consegue observar a evolução desta relação.

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A história de “Hoje eu não quero voltar sozinho” aborda a descoberta do amor a partir dos outros sentidos

O retorno dos três personagens do curta é a chave que desencadeia novas abordagens do diretor no longa, como por exemplo a relação de superproteção dos pais de Leo sobre a sua deficiência, o bullying que sofre na escola por parte de colegas e a íntima convivência com a avó. Mas é bom destacar que em nenhum momento o diretor apieda o personagem. Pelo contrário, ele o torna um garoto como qualquer outro, cujas limitações tenta sempre superar, além dessa necessidade juvenil de se aventurar e conhecer o mundo.

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Leonardo buscar a sua independência ao mesmo tempo que tenta lidar com a família superprotetora.

Cenas como os banhos de sol na piscina da casa de Giovana, a prática do selinho no boxe do banheiro, as penumbras no quarto de Leo e os cenários do acampamento mostram a tamanha influência que a luz, a textura, a cor e a delicadeza dos movimentos podem contribuir para a caracterização numa obra cinematográfica. Tudo isso ficou por conta de Pierre de Kerchove, diretor de fotografia, que na minha humilde opinião exerceu uma genialidade ímpar no filme.

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Cena do banho de sol na piscina da casa de Giovana

Em 4 anos de diferença dos dois filmes podemos ver uma clara maturidade dos atores. As atuações estão concisas, dando espaços para trocas de olhares e um silêncio que toma o compasso em certas cenas, tornando-as tão belas. Tais momentos podem ser ressaltados no diálogo confessional no chão do banheiro entre Giovana e Gabriel e o silêncio epifânico que reside no quarto de Leo, ambiente de segurança do personagem, dando-o liberdade para se tocar e se descobrir em meio às cobertas e frechas de luz.

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A fotografia é um dos méritos do filme

A grande problematização aqui é a descoberta do amor, na sua forma mais pura, cheia das mais diversas nuances: dúvidas, inseguranças, desejos. Ao mesmo tempo em que esse sentimento une, também causa atrito e pode separar. E entre idas e vindas numa relação, tal sentimento nunca será tão bem expressado ou compreendido. Daniel Ribeiro nos presenteia com um filme tão instigante que ao final da sessão, enquanto as luzes se acendem e as pessoas se levantam e seguem suas vidas, uma frase ressoa ainda na minha mente: nem todo amor acontece à primeira vista.

Texto de GUSTAVO NOGUEIRA e VITÓRIA DE SANTI, especial para O CHAPLIN