Não é de hoje que alguns diretores têm os culhões para satirizar, analisar, e por vezes, bater de frente com o star system hollywoodiano em suas obras, numa espécie de metalinguagem que não visa a promoção, mas um viés crítico do sistema de astros e estrelas do cinema. Apenas para introduzir, cito aqui um dos meus filmes noir favoritos, Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950), que estrela a fantástica Gloria Swanson no papel de Norma Desmond, uma atriz que teve sua ascensão na era do cinema mudo e agora vê-se vítima do esquecimento e da sua cobiça por fama. A personagem deixara sua persona cinematográfica se apossar tanto de sua vida que não conseguira seguir adiante, não se desvinculara da pose e dos hábitos de estrela e sonha, constantemente, com um retorno triunfal às telas, afinal, é disso que se trata: holofotes e fama.

Muitos outros filmes com proposta semelhante chegaram ao público. A maioria deles, é verdade, preferiu adotar tom jocoso, de entretenimento (a exemplo de “Quando Paris Alucina”, estrelado por Audrey Hepburn, ou “O Artista”, vencedor do Oscar de 2012), e alguns outros obraram reais críticas a esse sistema, como se pudéssemos ver os bastidores do que acontece no meio das estrelas de cinema, uma espécie de Hollywood virada às avessas. Uma metalinguagem bastante interessante, se considerarmos que ela é produzida pelos mesmos nomes que desfilam em premiações, acumulam ganhos de bilheterias com blockbusters, e figuram as colunas de fofoca.

No último ano, esse formato de filme metalinguístico, que indaga e examina a si mesmo, quase como uma sessão de psicanálise, teve grande adesão e destacam-se três obras, todas estreladas por hollywoodianos: “Mapa para as estrelas” (Maps to the stars, de David Cronenberg), “Acima das Nuvens” (Clouds of Sils Maria, de Olivier Assayas) e “Birdman” (Birdman, de Alejandro González Iñárritu).

“Mapa para as estrelas” e o que há de mais sombrio em Hollywood

MTTS_01158.NEF HAND OUT PRESS PHOTOGRAP / FILM STILL FROM THE MOVIE MAPS TO THE STARS. PROVIDED BY Billy Gordon-Orr

Em Mapa para as estrelas, Cronenberg, que, convenhamos, nunca foi lá muito normal, reúne um elenco de estrelas de alto escalão para uma sátira nem um pouco engraçada sobre os tipos presentes no star system. Julianne Moore (que estrela blockbusters e filmes cults, é uma atriz multiuso, competente em todos os trabalhos e por isso está sempre em alta), por exemplo, é Havana Segrand, uma atriz decadente que precisa aprender a lidar com a queda da fama e o envelhecimento do corpo; Robert Pattinson (que conquistou fama após ser o vampiro Edward da saga Crepúsculo), por sua vez, é um motorista de celebridades que almeja tornar-se um roteirista em Los Angeles e usa do seu trabalho para aproximar-se das pessoas certas; Mia Wasikowska (você deve lembrar-se dela em “Os Descendentes” e no último “Alice no País das Maravilhas”) é uma problemática e misteriosa garota que se torna assistente pessoal de Havana a fim de alcançar suas metas pessoais; outro personagem interessante é Benjie Weiss, interpretado por Evan Bird, um mimado, ambicioso e inconsequente jovem ator.

O elenco de peso e os personagens interessantes que só poderiam sair da cabeça inquieta de Cronenberg nos entregam um drama com ares de suspense tenso, numa atmosfera pesada que incita a pensar o quão a pena vale ser parte daquele meio. Mapa para as estrelas cumpre com seu papel de expor o lado mais negro do star system, que manipula, é repleto de oportunismos, elege seus melhores e descarta os que são considerados inúteis para as novas configurações de mercado.

“Acima das Nuvens” e a desmistificação do glamour

Acima das Nuves, por sua vez, embora falado em grande parte em inglês, é uma co-produção entre Alemanha, França e Suíça, mas que busca em Hollywood as suas protagonistas. Maria Enders é uma atriz ainda respeitada mas que se recusa a aceitar as novas configurações do mundo das celebridades: abomina ficções científicas gravadas  em chroma key, recusa-se a acompanhar notícias na internet, e não suporta a ideia de expor-se em uma conta de mídia social. A atriz é leal aos seus princípios e, para aceitar um papel, precisa identificar-se com a personagem, recusando-se a entrar em projetos por dinheiro ou visibilidade. Contudo, paralelo a isso, Maria questiona sua autoconfiança profissional e pessoal. Enders é interpretada por Juliette Binoche, atriz que construiu boa parte de sua carreira na Europa, mas com algumas passagens pelo cinema americano.

Kristen Stewart (também popularizada por protagonizar a saga Crepúsculo) interpreta Valentine, a esforçada assistente pessoal de Maria que está sempre tentando convencê-la a olhar diferentemente para o sistema no qual está inserida. Já Chloë Grace Moretz, conhecida principalmente por suas participações em filmes americanos infanto-juvenis, interpreta Jo-Ann Ellis, uma impulsiva e polêmica jovem atriz, que tenta conciliar as participações em blockbusters com peças de teatro para não ser consumida pelas consequências que surgem com a fama das telonas, talvez uma metáfora para a própria Chloë Moretz, cujo talento se destaca e as escolhas de papeis eventualmente surpreendem.

Clouds of Sils Maria ironiza personas, questiona os novos sistemas de difusão de informação, satiriza receitas prontas para atrair o público e é o retrato da complexidade que reside numa profissão que, olhando por fora, parece apenas luxo, sombra e água fresca. No filme, presenciamos as dúvidas de uma atriz que não sabe qual caminho escolher quando atinge a meia idade, os diálogos entre diretores e elenco, discussões filosóficas sobre um texto que muitas vezes chega ao público de forma tão rasa que não nos permitimos pensar o que existe nas entrelinhas dele. Um interessante ângulo para se observar, de forma metalinguística, a criação do cinema (ou do teatro), por ele mesmo.

“Birdman” e o carma da popularidade

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) talvez seja o mais irônico dos três filmes aqui citados, desde o formato adotado para a peça até a escolha dos atores escalados. Ele vai mais além ao colocar em xeque não apenas o star system, mas todo o universo que o rodeia, como as opiniões dos críticos e os meios de popularização de celebridades, cujo prestígio não é mais medido por seu talento, mas pela capacidade de se tornar um trending topic no Twitter.

Michael Keaton interpreta Riggan Thomson, um ator atormentado pela memória de Batman Birdman, personagem de quadrinhos adaptado para o cinema o qual ele interpretou em uma trilogia que o consagrou enquanto celebridade do cinema americano. Contudo, o que Riggan busca é o prestígio enquanto ator, além de sua interpretação em uma trilogia “arrasa quarteirões”, e para isso arrisca um orçamento em uma peça escrita, dirigida e estrelada por ele na Broadway.  Assim como em “Acima das Nuvens”, Birdman também traz o teatro como uma fuga do star system e uma forma de se autoafirmar enquanto artista num meio de celebridades.

Birdman aborda em sua proposta a crença do ator nele mesmo, os limítrofes entre a arte e o entretenimento, a popularidade e a competência profissional, e a difícil opção de buscar trabalhos que agradem o artista e não os blockbusters milionários que apenas divertem o público. Apoiado por um constante e dinâmico plano sequência, uma edição admirável e uma trilha sonora audaciosa, com elementos de som que se tornam marcos no filme, Birdman fala de cinema com humor e seriedade ao mesmo tempo, em um filme com diálogos interessantes e um elenco competente.

Sobre o(a) autor(a)

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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