Homem-Aranha: Longe de Casa – Epílogo, estrutura narrativa e uma ideia

Os filmes da Marvel são conhecidos por suas cenas pós-créditos. Elas têm como função primordial ligar o filme em questão ao universo cinematográfico e deixar ganchos para sequências. Ganchos são uma tática vital da narrativa clássica de Hollywood, funcionam como prenúncio do que vai acontecer, é aquela linha de diálogo no final da cena que liga diretamente a próxima ação vista à algo que irá acontecer bem mais a frente, “plantar e colher”, consolidando uma narrativa mais complexa.

A cena pós-créditos de Homem-Aranha: Longe de Casa é uma das melhores que já vi, tão boa que me fez questionar o por que de não fazer parte da narrativa como um dos conflitos principais. Nela o Homem-Aranha é acusado de matar Mysterio, tem sua identidade revelada ao mundo todo e ainda temos a volta de JK Simmons na pele do JJ Jameson. Os efeitos no público são imediatos, causando surpresa e suspense, o que uma boa narrativa pede, todavia ficou para o próximo filme, e é sobre isso que quero discutir. 

Primeiramente vamos identificar os conflitos principais e a estrutura da trama, aqui usarei a estrutura de quatro atos de Kristin Thompson. Peter quer se declarar para Mary Jane e coisas entraram no seu caminho, seja o carismático Brad, a inabilidade de se expressar, ou a aparição dos elementais e o chamado de Nick Fury. Todos esses elementos fazem parte do primeiro ato, Set Up. No segundo ato, Complication Action, geralmente o protagonista recebe novas metas, aqui Peter deve lidar com as novas circunstâncias postas por Fury, e seu objetivo inicial é adiado, no caso de se declarar a MJ, ele agora deve se aliar a Mysterio para derrotar os elementais, tudo contra sua vontade, esse ato funciona muitas vezes como um contra-setup. 

A resolução desse ato é dos motivos para esse texto, temos a derrota do elemental do fogo e a revelação de que na verdade Mysterio era o vilão e tudo não passava de uma farsa. Aqui podemos assumir duas posturas, a do público que não conhece os vilões do Homem-Aranha (talvez a revelação funcione) e a do público que conhece, tornando-se óbvia a tal revelação, “Mysterio é um vilão”. Em um universo compartilhado baseado em referências ao mundo das HQs, torna-se ingênuo a utilização desse plot-twist, somasse o fato que o resto do filme irá se desenrolar dele. 

Hello, Spider

O terceiro ato, Development, é geralmente o mais estático do filme, enfatizando sub-tramas, sabemos mais de Mysterio e os cientistas aliados, mais uma vez os objetivos iniciais são frustrados, a declaração de amor a MJ é substituída pela descoberta de quem Peter é, e atrasos na narrativas, apenas aqui Peter descobre a verdade sobre Mysterio, enquanto a narração já havia informado ao público, e Mysterio descobre que Peter sabe, o esperado confronto é apenas atrasado. O ato finaliza com uma grande cena de ação, de fato uma das melhores e visualmente sofisticadas do filme, levando Peter a crise, é momento mais baixo do herói numa história, embora não dure muito tempo, o humor rapidamente toma conta. Temos finalmente o quarto ato, o clímax, onde Mysterio é derrotado e Peter conquista MJ, então temos a cena pós-créditos já mencionada, o epílogo. 

E lá vamos nós…

Como disse antes, é uma história que mostra que o vilão era o vilão, tal revelação só terá impacto ao protagonista e seus amigos perto do fim do terceiro ato. O que quero argumentar aqui é que os conflitos do epílogo são de longe bem mais interessantes que os do filme inteiro e que, se usados no dentro da narrativa, teriam maior impacto no público. Agora entro num curto exercício de reestruturação do filme na tentativa de melhorar o arco dramático.

Mysterio e seus elementais, assim como a trama de comédia romântica adolescente, carregam uma cafonice proposital em seus elementos, eles poderiam funcionar muito bem condensados em um único ato. A revelação da identidade do Homem-Aranha e a acusação do crime como parte do plano do Mysterio funcionaria como elemento complicador do segundo ato, iriam de encontro a um dos temas do filme, Peter tentando conciliar a vida normal com a de herói, agora tudo estaria pior. Tais complicações levariam Peter a amadurecer, o garoto que só queria se declarar agora deve encarar maiores consequências.

O atual clímax que não muda praticamente nada em Peter, vilão derrotado e garota conquistada. Com as mudanças o final poderia agora ter mais peso, Peter precisaria provar ao mundo sua inocência, revelando ao mundo a farsa de Mysterio, todavia sua identidade secreta não teria solução, seriam as consequências que Peter levaria consigo para o resto da vida, teríamos ao fim um herói realmente modificado. É também um dos temas mais interessantes da trilogia original, a relação do Aranha com a sociedade e a imprensa, que resolveram trazer de volta – só que no lugar errado, fizeram um filme-trailer, em vez de uma narrativa mais densa.

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Jonathan De Assis
Acredita piamente que o Pink Floyd é a maior banda de todos os tempos e que ninguém canta melhor que o Robert Plant. Tem o Scorsese como ídolo máximo e sabe que ele transformará o DiCaprio no novo DeNiro. Com Goodfellas aprendeu as duas coisas mais importantes da vida: Nunca dedure seus amigos e mantenha a boca sempre fechada.
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Jonathan De Assis

Acredita piamente que o Pink Floyd é a maior banda de todos os tempos e que ninguém canta melhor que o Robert Plant. Tem o Scorsese como ídolo máximo e sabe que ele transformará o DiCaprio no novo DeNiro. Com Goodfellas aprendeu as duas coisas mais importantes da vida: Nunca dedure seus amigos e mantenha a boca sempre fechada.

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