Imagina que louco você encarar o momento de alimentar-se como um ritual… é o momento do dia em que você se liberta pois terá a oportunidade de escolher o que fazer: optar por um restaurante, seja ele já conhecido ou não, desbravar o cardápio em busca do alimento perfeito e depois saborear, no auge da sua libertação espiritual dos compromissos e obrigações do dia, o inusitado sabor da comida escolhida. Parece estranho maximizar uma ação que, em geral, é meramente tida como uma necessidade do corpo? Bem, pode até ser, mas não para mim. E nem para Goro Inogashira, o protagonista de “Gourmet”, mangá japonês assinado pela dupla Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi.

varias 11-02-13_034

Confesso que não tenho muita afinidade nem conhecimento acerca dos mangás. Ainda estou engatinhando nos estudos e aprendizados acerca dos quadrinhos e, para ser sincera, “Gourmet” foi o primeiro mangá que li por completo. Uma experiência interessante, principalmente por sairmos da perspectiva literária a que estamos acostumados (sempre da esquerda para direita, enquanto os mangás são lidos da direita para a esquerda). Mas, no fim das contas, ao menos em Gourmet, tirando esse “detalhe” (a cuja adaptação pode demorar um pouco), não há muita diferença dos quadrinhos e graphic novels ocidentais no que diz respeito a organização gráfica e de roteiro.

Capa do livro

E por falar em roteiro, é exatamente nesse aspecto que vou me centrar em minha resenha sobre “Gourmet”. Talvez eu nunca tivesse me interessado pelo livro, não fosse por tê-lo recebido de presente de alguém que disse que “havia lembrado de mim” pela descrição. Logo entendi o motivo: o protagonista parece ter o mesmo cuidado e paixão pelos rituais de refeições que eu. As quase duzentas páginas do livro não carregam uma narrativa linear, com uma história corrente. Na verdade os dezoito capítulos não são continuações, mas momento diferentes das andanças de Goro, cuja única semelhança é falar sobre uma determinada experiência do protagonista com comida, seja em um restaurante, em casa, ou em um trailer de esquina.

No início do quadrinho, até mais ou menos a terceira refeição, me perguntei qual era mesmo o sentido de vida daquele mangá. Achei meio obtusa a ideia escrever um quadrinho unicamente para criticar de forma literária e criativamente as experiências culinárias a que Goro se submetia pelo Japão, pois até aí, era tudo o que o livro se propunha a fazer, para mim. Contudo, a partir mais ou menos do quarto capítulo, “Gourmet” vai ficando mais sensível (ou eu finalmente peguei o ritmo dele). Começo a identificar mais que descrições de lugares e comidas e um Goro desesperado por “repor as energias”. O foco não parece mais ser a comida (e esta se torna apenas um elo entre os capítulos), e direciona-se para as pessoas, as lembranças de Goro e a personalidade dele, que o leitor vai desvendando pouco a pouco. Em suma, a experiência e o percurso vai sendo melhor trabalhado e acaba sobressaindo à finalidade de Goro de alimentar-se.

Verdade que em vários momentos, mais parece que o livro faz “merchan” dos lugares por onde o personagem passa, visto que na maioria dos capítulos, Goro sai realizado e satisfeito após as refeições. Como se não bastante, a comida ainda é destrinchada, fala-se sobre os ingredientes, a forma como são servidos, feitos, e em vários momento até mesmo o preço é anunciado. Mas, em um capítulo, por exemplo, a tão ansiada comida só aparece na última página, intensificando a ideia de que o principal foi mesmo o percurso para chegar até ela. Em outro momento, Goro perde a fome por se incomodar com um caso de assédio moral do proprietário para com o funcionário. Em alguns momento, frustra-se ou surpreende-se com a comida.

A comida é descrita em diversos momento em que Goro a degusta

“Gourmet” acaba sendo um relato divertido e bastante agradável sobre as cidades japonesas (em sua maioria, distritos de Tóquio), os lugares nos quais Goro busca a si mesmo, quando procura um lugar em que “se encaixe”, e a própria culinária do país. Pessoas que não conhecem muito a cultura japonesa (como eu) podem vir a se confundir em alguns momentos, e por esse motivo o livro vem com um glossário e algumas notas de roda-pé explicativas e bastantes úteis no decorrer da história.

No fim das contas, “Gourmet” não é um grande livro por não ter sido escrito, verdadeiramente, para o público que o leria. Após ler o posfácio do autor, principalmente, verificamos que Goro é quase um alter-ego dele e de suas próprias aventuras culinárias pelo Japão. Acabamos criando uma simpatia tanto pelo criador como pela criatura e se você é capaz de entender esse “ritual” das refeições em torno do qual o livro gira, é bem mais fácil acabar achando “Gourmet”, no mínimo, bastante agradável e sincero.

2 Responses

  1. Diego Falabella

    Gostei da análise. Li esse mangá há algum tempo atrás. Peguei ele na biblioteca de livros infanto-juvenis de BH. Ele tem um formato bem legal para leitura despropositada. Penso em registrar minhas refeições nesse próximo mês de alguma forma, talvez um tumblr…. acho a experiência interessante. Pretendo relê-lo.

    Responder

Deixe um comentário

Your email address will not be published.