“Minha mãe é uma peça” e o humor genuíno de Paulo Gustavo

Não é de hoje que admiro o trabalho de Paulo Gustavo. Há tempos bradava que o Brasil é carente de humor genuíno e inteligente. Aí você me ataca, caro leitor, sem nem me deixar findar a explicação: “Ora, e o Porta dos Fundos? E Os Trapalhões, que por anos fizeram a alegria das crianças? E o Zorra Total? E o Felipe Neto? E aquele cara do canal do YouTube? E aquele outro cara da Multishow? E as centenas de humoristas remanescentes do Ceará?” Sim, conheço todos, amigo leitor, mas defendo a teoria de que nenhum desses nomes consegue unir as duas qualidades em seus roteiros: genuinidade e inteligência. Quando consegue ser inteligente, é apelativo – para não dizer ofensivo; e quando é genuíno, geralmente é tão bobo que  não me arranca mais risos.

Paulo Gustavo não. Eu o havia visto algumas vezes zapeando televisões alheias, e sempre alguém me falava: “Ah, o 220 Voltz, esse programa é massa!” e eu sorria desinteressada para em seguida continuar procurando algo que me parecesse mais interessante que um programa de humor formatado. Ledo erro! O mesmo aconteceu em 2012, quando o espetáculo “Minha Mãe é uma Peça” veio a Natal pela primeira vez. Alguma alma esperançosa comentou: “Vamos, é legal!” Olhei para o cartaz sem dar muita credibilidade e acabei deixando para lá. Foi preciso que Paulo Gustavo invadisse a minha mídia favorita para que eu, enfim, lhe desse atenção: no ano passado, quando  “Minha Mãe é uma Peça – O Filme” estreou, eu não tinha tantas expectativas para a obra. Fui assistir muito mais por desencargo de consciência que por ansiedade. E que filme!

Foto: Andressa Vieira

Foto: Andressa Vieira

O que mais me chamou atenção não foi o enredo simplista, mas a graça natural de Paulo Gustavo. O ator consegue ser engraçado em um movimento, em um gesto, em uma expressão facial, e de quebra ainda tem um roteiro que não apela para o lugar comum – piadas com minorias e com situações das quais todos já riem naturalmente – e que consegue ser original, sem ser ofensivo em nenhum momento. Dona Hermínia, a protagonista, talvez se torne ainda mais engraçada por conseguirmos enxergar nela mães da vida real – por exemplo, a minha.

O ator Paulo Gustavo

O ator Paulo Gustavo

Foi o reconhecimento e o respeito adquirido pelo trabalho de Paulo Gustavo que me fizeram comprar o ingresso para o espetáculo “Minha Mãe é uma Peça” – que retornou à Natal sábado passado, dia 25 – tão logo fiquei sabendo do evento, com mais ou menos um mês de antecedência.

Às 21h33, três minutos depois do horário marcado para o início da peça, eu ocupava meu lugar no Teatro Riachuelo. Naquele momento, Paulo Gustavo ainda não estava no palco, mas o show já havia começado, ao menos para o público, que saboreava divertido algumas cenas dos programas do ator no canal Multishow – 220 Voltz e Paulo Gustavo na Estrada. Quem via a concentração com que o público assistia aos vídeos e as gargalhadas que eles provocavam, diria que Dona Hermínia já estava aprontando das suas no palco.  Mas ela só foi entrar exatamente às 21h46, e foi recebida com muita empolgação pela plateia.

“Olha só, eu queria dizer que eu não apresento esse espetáculo há dois anos, então se eu esquecer o texto, fiquem na sua!”, começou o humorista que depois de se apresentar, alertou: “E para quem for tirar foto, o momento é agora, porque se no meio do show eu vir essa luz amarela, eu dou um chute na sua cara”. E então saiu atravessando todo o teatro para facilitar o contato com as câmeras ansiosas. No caminho de volta, alguém levantou e tentou abraçá-lo, então o ator, bem-humorado, se desvencilhou e soltou um “Senta o rabo aí!”. Em seguida, voltou para trás das cortinas para logo depois encarnar de fato Dona Hermínia, em seu cenário de sala de estar de uma casa de família classe média.

Para quem assistiu ao filme, são poucas as surpresas, por mais que a adaptação tenha seguido o caminho inverso (dos palcos para as telas). Muitas piadas são as mesmas, e o roteiro também assemelha-se – salvas as proporções e o limites de uma mídia e outra. Dona Hermínia é uma mulher de meia idade, separada e com dois filhos. É uma mãe preocupada, cuidadosa e um tanto neurótica. Na peça, realiza um monólogo – engraçadíssimo – sobre sua vida enquanto dona de casa, vizinha, mãe, ex-esposa e mulher.

Foto: Andressa Vieira

Foto: Andressa Vieira

Nessa apresentação em questão, o ator realmente pareceu perder-se em alguns momentos, como bem alertou no início. Por vezes a memória vacilava e tornava-se nítido o esforço para retomar o texto, acarretando repetições desnecessárias. Mas nem mesmo nessas situações, Paulo Gustavo deixou de ser cativante e engraçado. Isso porque o seu verdadeiro humor reside não meramente em seu texto, mas na forma como incorpora o personagem, fazendo com que até mesmo sentada, segurando uma vassoura, sem emitir uma palavra, Dona Hermínia seja uma figura divertida.

O espetáculo de uma hora é um deleite para aqueles que admiram o humor de boa qualidade. É também um parto para o ator, que sustenta sozinho o público por todo esse tempo, mas Paulo Gustavo prova ter competência e talento para tanto. Vê-lo em palco serviu para constatar que minha teoria é mesmo certeira: o humorista de maior sucesso da TV fechada atualmente é o que temos de melhor em humor no Brasil. Ao lado de Tatá Werneck, forma minha dupla favorita do atual momento da comédia nacional. Isso porque são autenticamente engraçados, aquele tipo de artista que parece ter nascido para provocar risos – isso tudo sem precisar de um visual estranho, de piadas infames, apelar para as mazelas sociais, ou ofender gratuitamente midiáticos em alta.

Obs: Peço desculpas a Paulo Gustavo pelas duas fotos que ilustram essa matéria. Em minha defesa, foram captadas sem flash e bem no início da peça, já que o instinto jornalista falou mais alto. Garanto que passei todo o restante do espetáculo longe da câmera fotográfica.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.