Cinegrafistas freelancers dividem espaço na noite de L.A.

“O Abutre” é impecável até mesmo em seu título brasileiro

Quando cinema de qualidade se faz porta-voz, sem deixar de lado sua força de entretenimento, fica difícil ignorar uma mensagem que ecoa de forma madura e lúdica. Nesse sentido, O Abutre (Nightcrawler, 2014), consegue elevar sua voz e encontrar caminhos para ser ouvido, mesmo que alguns até tentem ignorá-lo, como o Oscar ou os cinemas de Natal.

Na trama, Louis Bloom (Jake Gyllenhaal de O Homem Duplicado) tem grande visão empreendedora, mas leva a vida cometendo pequenos golpes para se sustentar. Após assistir o cinegrafista freelancer Joe Loder (Bill Paxton de No Limite do Amanhã) cobrir um acidente de trânsito para, em seguida, vender as imagens a TV que pagar mais, Bloom decide dedicar tempo e esforço para entrar no ramo do “jornalismo”.

O primeiro grande acerto do filme vem de seu título brasileiro. Comumente empregado para definir quem tira vantagem de pessoas em momentos difíceis, o termo “abutre” ganha força em cada nova cena de Gyllenhaal, possivelmente na melhor atuação de sua carreira. Com frieza cênica, obstinação e um caráter nauseante, o protagonista se mostra desprezível ao mesmo tempo que exala uma força atrativa sobre o público.

O discurso do ótimo roteiro de Dan Gilroy (O Legado Bourne), que estreia na direção, encontra eco na persona de sua personagem central para ferir a falsa ética jornalística das TVs estadunidenses. Enquanto gostamos de criticar a programação da TV brasileira pela superexposição do sofrimento alheio e dos banhos de violência, O Abutre nos mostra quanto a TV dos Estados Unidos usa dos mesmos artifícios para atrair sempre o público, mesmo que o jornalismo seja deixado em algum lugar pelo caminho.

A cada nova desgraça cotidiana, o cinegrafista desenvolve mais sua técnica. Paralela à evolução, sua busca pelo lucro cresce ao ponto de desrespeitar cada vez mais a individualidade das vítimas e, muitas vezes, distorcer cenas de crimes para que seus enquadramentos tenham mais impacto. E se isso acontece é porque as TVs apoiam profissionais desse tipo, como vemos através de Nina Romina (Rene Russo de Thor – O Mundo Sombrio).

Sempre preocupada com seu emprego e em causar choque, a experiente editora de um telejornal matinal não se incomoda em servir chacinas e cadáveres no café da manhã de seus espectadores. A nociva relação entre Bloom e Nina acaba por jogar no lixo qualquer responsabilidade que o verdadeiro jornalismo deve ter com a sociedade, além de por em análise as posturas dos comunicadores, ele como um empreendedor que faz notícia e ela como uma refém das necessidades mercadológicas.

A técnica do filme também chama atenção por sua direção precisa e esteticamente bela. Gilroy não só sabe onde colocar sua câmera como também movimentá-la naturalmente de forma criativa e fluida. O clima soturno permeia toda a película e toma proporções de tensão à partir de seu ato final. A fotografia de Robert Elswit (Sangue Negro) é extremamente primorosa, principalmente pela produção ser repleta de cenas noturnas e superar problemas de iluminação. A trilha de James Newton Howard (Malévola) é simples, elegante e eficiente, ambientando bem a história.

Não entendo como o Oscar tenha concedido apenas a indicação de Melhor Roteiro Original para O Abutre, assim como não entendo o porque dos cinemas natalenses o terem ignorado. Uma obra tão bem elaborada e tão séria merece mais credibilidade e mais respeito, assim como os amantes do cinema. E parabéns ao Netflix por disponibilizar a produção pouco tempo após a cerimônia do prêmio “mais importante” do cinema mundial.