Não é difícil perceber quando um filme é feito com honestidade. A maneira como o tema da história é conduzido, a construção cuidadosa dos personagens, a forma como se expressam e interagem ao longo da narrativa, são fatores importantes que corroboram minha afirmativa. “O Balconista”, do diretor Kevin Smith, é esse tipo de trabalho. Mas antes de adentrarmos propriamente no filme, é válido escrever algumas linhas sobre seu diretor.

Kevin Smith nasceu em New Jersey e passou a maior parte da sua infância e adolescência tragando tudo aquilo que a cultura pop tinha a oferecer: quadrinhos, filmes, séries, música.  Um nerd; mas não aquele arquétipo tolo, idiota e caricatural, que ilustra a atual tendência pseudo-nerd. Bazzinga!

Smith, durante adolescência, foi relegado à condição de loser, algo bem recorrente tratando-se de indivíduos que apresentem o mínimo de unicidade no mundinho Glee dos colégios americanos. No limiar de sua idade adulta, ele vestiu os trajes do inconformismo e passou a avaliar os temas e anseios recorrentes a todo e qualquer jovem: sexo, trabalho, amizade. Com os lucros da venda de sua coleção de quadrinhos e a ajuda de amigos da vizinhança, Kevin conseguiu concretizar “O Balconista”, seu primeiro longa-metragem, filmado em 1994 e, na opinião deste que vos escreve, o melhor filme independente da década de 90.

Acompanhamos um dia na vida de Dante Hicks (Brian O’Halloran), um balconista de uma loja de conveniência que lida com clientes estranhos, sua exigente namorada e o atendente da vídeo-locadora vizinha, Randal Graves (Jeff Anderson). O que vemos durante a projeção é um desfile de tipos alienados, medíocres e engraçados – a representação de uma fatia da classe média baixa americana. Todo o filme se passa na loja de conveniência, do qual o próprio Kevin Smith era funcionário!

O roteiro constrói de forma sutil e inteligente uma sintaxe verborrágica, que aborda de forma bastante peculiar temas que vão desde sexo oral a Star Wars. O sexo, em especial, é o mote de boa parte dos diálogos e situações apresentados no longa. Em uma das melhores cenas, Dante insiste que sua namorada, Veronica (Marilyn Ghigliotti), lhe dê o número exato da quantidade de homens em que já praticou felação:

 Dante: “Quantos paus você chupou?! Quantos paus você chupou?!”

Veronica: “36”

Dante: “Contando comigo?”

Veronica: “37…”

Dante : “37 paus! Meu Deus, acho que vou vomitar!!”

O lado cômico do filme tem como pilar a dupla Jay (Jason Mewes) e Silent Bob, interpretado pelo próprio Kevin Smith. O primeiro é um sujeito totalmente despudorado, cínico e falastrão; o segundo – com o perdão do trocadilho – é quase totalmente silente.

De forma bastante sincera e iconoclasta, os personagens explanam desapontamentos, e frustrações acerca das concepções que conflagraram os embates entre o status quo vingente e a chamada “geração X”; uma manada de garotos desprovidos de perspectivas, não pela falta de oportunidades, mas porque estavam nutridos por uma espécie de letargia que acometeu a juventude americana durante boa parte dos anos 90 (vide a forma como Dante e Randal filosofam sobre seus empregos).

No início do texto, afirmei que “O Balconista” é o melhor filme independente dos anos 90. Leia-se “independente” não apenas no quesito comercial, mas ideológico também, pois é difícil e perigoso se desvencilhar das amarras do pudor e tratar de forma divertida e sincera alguns temas que tanto – em nossos pedestais de hipocrisia e moralidade – costumamos ignorar ou reprochar. Taí mais que um filme.

O Balconista; um singelo manifesto sobre os anos 90.

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