O Homem de Aço: adaptação investe em tom mais realista, mas tropeça na invulnerabilidade de seu protagonista

Nunca fui fã do Super-Homem. A ideia de um ser “quase perfeito” me soa arrogante. Outros super-heróis também demonstram características sobre-humanas, mas nenhum deles é tão “super” quando o herói em questão.

Buscando público de várias idades, as adaptações de quadrinhos vêm investindo em filmes mais sérios e sóbrios. Foi assim com Batman, de Tim Burton, Homem-Aranha, de Sam Raimi, com os filmes da Marvel, apesar do excesso de piadinhas, e chegando ao seu ápice com a trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida por Christopher Nolan. Nesse contexto, surge o Homem de Aço.

 

Na sexta adaptação do Super-Homem para o cinema, Krypton está à beira de uma catástrofe quando Jor-El (Russell Crowe, de Os Miseráveis) envia seu filho recém-nascido à Terra na esperança que este impeça a extinção de sua raça. Isso porque o jovem Kal-El foi o único bebê nascido pelos métodos tradicionais nos últimos séculos. Anos mais tarde, Kal-El, batizado por seus pais adotivos de Clark Kent (Henry Cavill, de Imortais), precisa defender a Terra da invasão do General Zod (Michael Shannon, de Boardwalk Empire), que busca um artefato raro para um plano audacioso.

Como dito anteriormente, nunca fui fã de Clark Kent devido a sua “quase perfeição”. Porém, com as presenças de Christopher Nolan na produção e no argumento, de David S. Goyer (Trilogia O Cavaleiro das Trevas) no roteiro e de Zack Snyder (Watchmen – O Filme) na direção, o filme prometia ser diferente. E realmente foi, até seu segundo ato.

Jor-El e Lara tentam salvar o seu pequeno filho, Kal-El

O roteiro de Goyer é muito feliz ao dedicar sua maior parte à definição do personagem central. Utilizando flash backs, o filme pontua momentos na vida de Clark, acompanha os dias atuais do protagonista e foge da igualdade narrativa de Batman Begins, limitando as semelhanças entre os filmes ao fato de tratarem de apresentações sóbrias de seus respectivos heróis.

O ponto alto do filme é a crise que Clark Kent sofre até se encontrar enquanto pessoa. Por quase toda a película, o vemos questionar seus superpoderes e o fato de esconder quem realmente é. O principal diálogo do Homem de Aço é após Clark salvar um ônibus escolar. O adolescente ouve de seu pai dizer que talvez devesse ter deixado aquelas crianças morrerem porque o mundo ainda não está preparado para entendê-lo. Diálogo que remete à frase “não é o que você é por dentro, mas o que você faz que te define”, dita por Rachel Dawes (Kate Holmes) em Batman Begins e que ecoa durante toda a trilogia do homem-morcego.

General Zod

Infelizmente, o roteiro não se mantem coeso até seu fim. Se os dois primeiros atos fluem de forma mais subjetiva e pessoal para o protagonista, o terceiro parece ter sido privado de qualquer fiapo de história. O que vemos na etapa final da película é só pancadaria em sua forma mais exagerada. E se essa falha prejudica o conjunto da obra, a culpa não deve ser posta somente na conta de Goyer, mas também na do diretor da trama.

A influência de Nolan é visível na concepção do projeto, mas a identidade visual e a assinatura na direção são mesmo de Zack Snyder. O diretor conseguiu um curioso resultado em sua versão do Super-Homem, acertando no que propôs de diferente e errando ao exagerar no uso de efeitos especiais, justamente onde é tão prático.

Clarke Kent e sua mãe adotiva, Martha, interpretada por Diane Lane

O apuro técnico de Snyder continua afiado. No Homem de Aço, o diretor consegue dialogar de forma eloquente com o roteiro de Goyer ao se valer de belos planos subjetivos e de uma paleta de cores dessaturada. A coloração do filme ajuda demais na ambientação da história num mundo real e os planos diferenciados do diretor, principalmente nos Flash Backs, corroboram com a fragilidade de Clark durante sua busca por si.

A esperada pancadaria restou aos momentos finais. O filme dispõe de efeitos especiais impressionantes, mas em determinadas cenas fica visível a artificialidade, principalmente naquelas em que a câmera acompanha os atores durante as lutas aéreas. Com os atores em foco, coube ao cenário mostrar que a pancadaria acontecia em alta velocidade. Fica evidente o uso do fundo verde para compor os prédios que ficavam para trás a cada soco ou investida dos personagens, dando a impressão de que víamos um jogo de vídeo game.

 

Snyder exagera demais nas sequências de luta. Primeiro numa cena absurdamente demorada onde o Super-Homem enfrenta uma nave com tentáculos (?). A cena simplesmente conseguiu quebrar o ritmo da película e dar a sensação de que seu fim é bem mais longo que o restante. Depois, todo o confronto entre o homem de aço e a trupe de Zod teve proporções nucleares, capaz de deixar a produção de Os Vingadores com vergonha por ter “poupado” Nova Iorque.

Dentre os problemas do filme, o mais sério é a fidelidade excessiva com os atributos do herói. Não é coerente mostrar alguém com fragilidades psicológicas humanas e, no momento crucial da trama, elevá-lo ao patamar de um Deus soberano. Com tudo que acontece na batalha final, seria demais pedir que Clark mostrasse alguma deficiência física? Sangrar faria a sua mística ser perdida? Durante anos ouvi espectadores criticarem a franquia de 007 pelo fato de James Bond nunca sangrar. Hoje, a série cinematográfica se reinventou ao trazer um agente secreto que sangra, sofre e se suja. Claro que não podemos ver Bond e Clark da mesma forma, mas é difícil acreditar, por exemplo, que outros Kryptonianos sangrem ou tenham cicatrizes enquanto Kal-El/Clark Kent seja incapaz de perder o gel no cabelo após ficar preso entre um cofre de banco e um trem que lhe fora arremessado no peito!

Quem faz mais um trabalho competente é o compositor Hans Zimmer (A Origem). A trilha para este longa tem méritos louváveis. Também responsável pela trilha da trilogia Batman, Zimmer conseguiu entregar um material bem diferente do entregue nos filmes do homem-morcego. As trilhas não se misturam em momento algum. O uso das frequentes batidas fortes e do recurso de voz feminina, como já usado por ele em Gladiador, dão às cenas seus significados mais puros, sendo impactante quando preciso e tocante nos momentos mais íntimos.

Henry Cavill e Amy Adams, como a jornalista Lois Lane

O trabalho de Zimmer em nada se assemelha ao de John Williams (Lincoln) em Superman – O Filme (1978). Porém, os fãs mais exigentes podem reclamar a falta de um tema marcante. Se Williams criou um tema que perpetua até hoje, Zimmer dedica sua obra por completo à sua função dentro do filme, não reprisando outros trabalhos seus que marcaram, como nos quatro Piratas do Caribe e nos filmes de Sherlock Holmes, dirigidos por Guy Ritchie.

O elenco não fugiu muito ao esperado. Michael Shannon mostrou força e loucura em doses perfeitas com seu General Zod, pena que o roteiro o privou de mais interpretação em detrimento das vilanias. Com trabalhos discretos, Diane Lane (Noites de Tormenta), Russell Crowe e Laurence Fishburne (Contágio) conseguiram dar conta dos respectivos papeis de Martha Kent, Jor-El e Perry White apenas com suas personas cinematográficas. Destaque positivo para Kevin Costner (Hatfields & McCoys) como Jonathan Kent, que conseguiu se destacar com maturidade e presença de cena, mesmo com um pequeno papel. Os destaques negativos ficam para Antje Trauer (Pandorum), interprete de Faora-Ul, e para Ayelet Zurer (Anjos e Demônios), interprete de Lara Lor-Van. A primeira é apenas um papagaio de pirata sem expressão, enquanto a segunda não é mesmo uma boa atriz.

 

Cavill conferiu ao Kal-El/Clark Kent/Super-Homem credibilidade, embora o papel não exigisse tanto dele. O ator britânico conseguiu reproduzir as inseguranças propostas pelo roteiro e ainda dispôs de charme quando necessário, escorregando apenas em uma cena crucial quase ao fim do filme. Já Amy Adams (O Vencedor) parecia estar no piloto automático. A competente atriz deu mais vida e energia a uma Lois Lane mais participativa na ação, mas não foi exigida em momento algum.

Isoladamente, os dois atores deram conta de seus trabalhos, o problema se deu quando estavam juntos. A falta de química do casal prejudicou a credibilidade do romance que, aliás, foi muito mal desenvolvido na trama. A falta de um histórico do casal fez com que o amor gerado em poucos encontros casuais, quando não emergenciais, soasse mais falso que amor de novela das seis. E essa culpa deve ser posta também no roteiro, que apenas deduziu que o público saberia a importância de Lois para Clark. Destaque negativo para uma piadinha sem graça e totalmente fora de hora após o primeiro beijo dos dois.

O Homem de Aço tem méritos interessantes e até é um filme bacana. Porém, também tenho culpa nessa experiência por esquecer, em alguns momentos, se tratar de um filme sobre uma ideia que não me agrada, um anticlímax. Afinal, os momentos de desfecho do filme foram incapazes de me fazer crer que o Super-Homem poderia fraquejar, pois se tratava de um ser “quase perfeito”.

OBS: Toda crítica de filme se respalda em questões técnicas. Porém, a experiência e os gostos de quem escreve interferem diretamente no produto final. Caso contrário, todos os críticos teriam as mesmas opiniões sobre todos os filmes. Portanto, leitor, você pode concordar ou discordar do que irá ler, mas a crítica jamais substituirá a sua experiência ao assistir um filme. Se eu fosse fã do Superman, provavelmente essa critica seria diferente.

Nota: 7/10

FICHA TÉCNICA:

O Homem de Aço (Man of Steel)

Gênero: Ação

Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer, Kurt Johnstad

Elenco: Amy Adams, Antje Traue, Ayelet Zurer, Bridgett Newton, Cjhristopher Meloni, Dan Aho, Diane Lane, Harry Lennix, Henry Cavill, Kevin Costner, Laurence Fishburne, Michael Cerveris, Michael Clarke Duncan, Michael Kelly,Michael Shannon, Roberta Chung, Russell Crowe, SallyElting

Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Deborah Snyder, Emma Thomas

Fotografia: Amir M. Mokri

 

Por João Victor Wanderley, especial para o blog O Chaplin