Há algumas semanas um rapaz chamado Matheus Peleteiro entrou em contato comigo via Facebook. Se apresentou, falou que tinha 19 anos, acabava de lançar o seu primeiro livro, “Mundo Cão” (Novo Século Editora, 2015), e que gostaria de falar um pouco sobre seu rebento comigo. Ele disse que escreveu tentando retratar a realidade social presente no Brasil e na Bahia, sobre a música alternativa atual – que para ele não é valorizada -, além dos anseios, os medos de um futuro trágico e as dificuldades que todos temos durante a vida. Falou também que tenta mostrar na obra, sob sua ótica, o período de decadência do brasileiro, e que para isto criou Pedro Contino, um jovem rapaz, morador da favela Roda Vida, na periferia de Salvador (BA). Um personagem que quer ser bom, apesar dos dias trágicos, ainda que tudo lhe chame para as escolhas erradas.

Na música de Chico Buarque, a “Roda Viva“, que nunca para de girar, retrata a vida de quem se sente preso na Ditadura; no livro, a roda muda de significado, passa não só a retratar um lugar fictício, como também é um reflexo de todas as favelas brasileiras que existem, prisioneiras dentro de um ciclo contínuo de crimes e segregações. Eu poderia listar aqui todas as favelas que conheço na minha cidade, que se assemelham em detalhes a tudo descrito na obra: as vidas perdidas nos morros que passam constantemente nas televisões, a juventude transviada para a marginalidade, a lástima alternativa desta mesma juventude de compensar suas carências e desejos através do roubo e do tráfico de drogas. Já começo a afunilar aqui as semelhanças entre Natal (RN), minha cidade, e Salvador, cidade natal do autor. Começo também a ver o quão assustadoramente real é a ficção de Peleteiro.

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Nos dias em que se sucederam minhas leitura, uma pergunta me perturbava: como é que o autor tem alguma conclusão sobre as realidades do Brasil, enquanto eu me sentia perdido só em meios as diferenças da minha própria cidade? As desigualdades sociais no Brasil são gritantes e, muitas vezes, brutais. E eu não iria perdoar o livro de alguém que se diz apresentar estas diferentes realidades se não escrevesse uma história igualmente brutal. Felizmente me vi enganado, pois em 166 páginas aprendi muito mais do que em alguns livros de sociologia que já li na vida.

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O escritor Matheus Peleteiro | Foto: Renato Lima

Mundo Cão é um obra crua, tão visceral como a fome, tão alarmante quanto a cede. E quando eu digo crua, de forma alguma eu quero que você entenda que este livro não tem tempero, o que eu quero dizer é que ele não precisa de tais artifícios para que o leitor se prenda a sua narrativa, que se identifique com os personagens nele descritos, que em algum momento diga “puta que pariu, isso já aconteceu comigo!”. A vida é dura, não aceita amadores nesse jogo. E eu lia, lia, lia… E quanto mais páginas eu passava, mais eu me via refletido naquela história e mais eu via a Roda Viva se assemelhando ao Morro de Mãe Luiza, aqui em Natal; mais eu via o bairro do Rio Vermelho, no livro, parecido com a Ribeira, bairro boêmio da minha cidade, o centro cultural e de todas as tribos; mais eu reconhecia o Pedro em mim e em alguns amigos que bebem, fumam, cheiram e perdem completamente o juízo perante belas e loucas mulheres.

A literatura tem um papel também fundamental no contexto da obra, mostrando o quão transformadora ela pode ser, te libertando das fronteiras impostas e lhe apresentando a um universo de conhecimento. Conhecimento é liberdade. Pedro, que cresceu em meio à violência, viu na oportunidade oferecida pelo seu vizinho, Luiz, a chance de fugir da guerra urbana através dos livros. Mudou de vida, arranjou emprego, transou com muitas mulheres, amou algumas outras, principalmente a Carol. Mas a vida sempre bate na porta, te puxa pelo braço para o presente e, uma hora ou outra, é ela que te põe de quatro e te devora. A vida realmente é um cão raivoso.

Também é importante esclarecer aqui dois parâmetros na obra, um musical e outro de estilo literário, que conduzem a narrativa. No primeiro, o autor estabelece uma crítica ao atual cenário musical, citando bandas como o Legião Urbana, Racionais MC’s, Engenheiros do Hawaii, entre outras, para cadenciar sua história e argumentar o quão precário estamos de bandas que retratem nossas necessidades, que nos enxerguem com um olhar mais humano e menos mercadológico.  No segundo, dentro dos cenários da obra, é clara as referências que o escritor tem pelos estilos dos antagônicos Charles Bukowski e do Fiódor Dostoiévski.

Por fim, termino esse texto na véspera do vigésimo aniversário do autor, com a esperança de logo mais ter em mãos um novo livro dele, de falar pessoalmente sobre a mordida que o seu cão deixou em mim, sangrando lascivamente essas ideias. Quero relatar também sobre todas as comparações que fiz entre nossos mundos, de que eu tenho um pouquinho do Pedro, do Luiz, da Carol.  Só quero dizer que sua obra, Matheus, é grande, com dentes e garras bem afiadas.

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