O conflito armado árabe-israelense, localizado na região que compreende a Cisjordânia e o Estado de Israel, já se arrasta há mais de um século. Durante todo o século XX, e até hoje, a região foi/é palco de diversos embates entre dois povos; de um lado judeus israelitas, e de outro, muçulmanos palestinos. A guerra pelo território já ceifou milhares de vidas, de ambos os lados.

Esse pequena introdução histórica se faz necessária para que se discorra sobre Paradise Now (2005), filme palestino dirigido por Hany Abu-Assad, que trata sobre o conflito supracitado. No entanto, a história lança na tela um viés diferente do qual estamos acostumados a ter notícia.

 

O enredo gira em torno de Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), dois amigos que moram em Nablus, importante cidade palestina, sitiada e controlada por tropas de Israel. Os amigos são escolhidos pelo grupo de resistência à ocupação israelense do qual fazem parte para servirem de mártires pela causa, em um ataque suicida à Tel Aviv. Orgulhosos de morrer por sua gente, e tendo certeza de que encontrarão Alá no paraíso. Ambos estão decididos a findar seus dias como homens-bomba.

No entanto, a certeza de Said e Khaled começa a ser testada com o decorrer do filme. Said conhece Suha, uma bonita mulher pela qual tem atração. Uma noite antes da operação que acabaria com a vida dos dois protagonistas, o casal tem uma discussão sobre a guerra entre os dois povos e o mal que o conflito trás às pessoas. A moça é contra os atentados terroristas. Porém, Said continua com o plano.

 

Após serem vestidos com coletes repletos de explosivos, os companheiros partem para sua jornada final. Mas um evento acaba por fazer com que a missão seja abortada. Said e Khaled se separam e o destino da operação muda radicalmente.

O roteiro do filme é todo construído de opostos, a idéia de vingança contra a busca por outro meio de entendimento entre os lados, a certeza de Khaled e a indecisão de Said, a riqueza de Israel e a pobreza na Faixa de Gaza. Elementos envoltos em uma atmosfera sufocante e tensa, onde o calor e falta de vida dos cenários contribui para imersão do espectador naquele contexto.

Interessante é a humanização da figura do “terrorista”. No filme, os homens-bomba são mostrados como pessoas como qualquer outra, que tem uma vida normal, amigos, família. Buscam por uma justiça pelo modo como aprenderam durante a vida, são produto de seus costumes e religião. Quem assiste à obra é levado à empatia com os suicidas. No entanto, Abu-Assad vai mais além, e insere o discurso por uma saída diferente para a guerra, uma longínqua paz.

Paradise Now aborda vários temas ligados ao contexto árabe-israelense, como já citado. O teor religioso é bastante explorado. Como o título sugere, os mártires procurariam o paraíso para fugir do inferno, a condição de miséria e violência em que vivem aqui na Terra. Até nesse ponto o roteiro tenta convencer de que a morte não é a resposta para a guerra.

 

 

Tecnicamente o filme é muito bem executado, a fotografia lança mão de planos e movimentos que não são inovadores, mas funcionam perfeitamente. A cor, puxada para o marrom e amarelo, ressalta poeira das ruas e a ideia de calor, que influem no clima de tensão aplicado.

A qualidade deste filme é inegável, não à toa recebeu indicações ao Oscar e ao Urso de Ouro, e venceu o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme de Língua Estrangeira.

O que é de se estranhar é que às vezes alguns diálogos soam como mecânicos, enfáticos até demais, como quisesse gritar “Olha, essa é a ideia que queremos passar!”. Também um trecho em que se sucede uma conversa sobre cinema fica um pouco forçado. No entanto, há belas falas e interações entre os personagens, principalmente entre Sayd e o chefe do grupo de resistência.

 

Paradise Now, além de encharcar nossos olhos e mente com um novo ponto de vista sobre um sangrento confronto, é também uma obra de arte, cinema de primeira.

One Response

Deixe um comentário

Your email address will not be published.