Dentre um universo de séries de TV elogiadas, algumas me atraem pela sua qualidade estética e outras por seu conteúdo. Quando tive notícias de uma nova série britânica de época, pensei que se tratava de mais uma das tantas produções sobre alguma dinastia real, com direito a castelo e intrigas de poder. No entanto, Downton Abbey tem todos esses elementos que citei, mas sem castelos. A série mostra o cotidiano de uma aristocrática família inglesa na virada do século passado, na década de 1910. A obra de Julian Fellowes está no ar desde 2010 e até agora têm três temporadas.

A esquerda os nobre e a direita os empregados da propriedade de Downton

Caso você, leitor, seja tão pé atrás com séries badalas como eu, te garanto, essa vale toda a propaganda. O enredo fala sobre pessoas que vivem na propriedade conhecida como Downton, em Yorkshire, na Inglaterra, ambientada durante o reinado de George V. A trama se inicia com a notícia do naufrágio do Titanic, no qual o Conde de Robert Grantham (Hugh Bonneville), patriarca dos Crawley, perde seu sobrinho e herdeiro. Com o ocorrido, o conde vive a expectativa de perder toda sua fortuna e propriedades para um parente distante, o futuro herdeiro, que vive longe dos costumes e pompas aristocratas, Matthew Crawley (Dan Stevens).

A família é composta por Robert Grantham (Hugh Bonneville), sua esposa, condessa Cora Crawley (Elizabeth McGovern); as suas três filhas: Mary (Michelle Dockery), Edith (Laura Carmichael) e Sybil (Jessica Brown Findlay); e a mãe de Robert, Violet Crawley (Maggie Smith). Com a chegada do herdeiro mais próximo, entram em cena Matthew Crawley (Dan Stevens) e sua mãe Isobel Crawley (Penelope Wilton). A família vive tempos de transição, as tradições se mantêm, no entanto, o mundo passa a viver novos ares, a corte e a realeza não têm mais a mesma pompa e imponência que nos tempos “edwardianos”.

Lady Edith (Laura Carmichael), Lady Sybil (Jessica Brown Findlay) e Mary (Michelle Dockery)

A vida na propriedade pode ser extremamente entediante para as três belas filhas do conde aumentando as tensões entre Lady Mary e Lady Edith que rivalizam em quase tudo. Com a chegada do primo distante, Matthew, até o amor do rapaz é posto na roda. A mais velha, Mary, é bela, ardilosa e dissimulada, Edith não possui a mesma beleza, se sente insegura por não ser a primogênita, porém é mais inteligente. À parte do mundo de intriga das irmãs, está Sybil, a filha mais nova, sensível, sonhadora, genuína e sem dúvidas a mais corajosa das três.

Cora Crawley (Elizabeth McGovern) e Violet Crawley (Maggie Smith)

O eterno amor de Robert De Niro em “Era Uma Vez na América”, Elizabeth McGovern, faz a charmosa, bondosa e sensível rica americana, Cora, que se encantou pelas tradições e gentileza do nobre britânico falido, Robert Grantham, e cedeu sua fortuna para salvar a propriedade e a família. Sua atuação é um dos destaques do núcleo nobre, ao lado da sempre excelente Maggie Smith que empresta todo o seu talento e senso de humor à tradicionalíssima condessa Violet, que sempre tem uma tirada na ponta da língua.

O núcleo de empregados da primeira temporada

Existem dois núcleos bem distintos na série: os nobres e aqueles que mantêm a propriedade impecável e os servem, os empregados. Para manter Downton sempre em ordem, o conde conta com a ajuda de seu mordomo, Sr. Carlson (Jim Carter), a governanta Sra. Hughes (Phyllis Logan) para comandar camareiras, cozinheiras, lacaios e motoristas. Aceitando a condição de inferiores na escala social, os funcionários moram no andar de baixo da propriedade, sempre atentos aos sinos para atender a todos sem cometer erros. Confesso que esse núcleo é o mais rico em conteúdo na trama; lá se vê um lacaio vingativo e mal caráter, Thomas (Rob James-Collier), que conta com a ajuda de uma camareira pouco confiável, Sarah O’Brien (Siobhan Finneran) para fazer do lugar um pouco mais animado. Dentre os criados, tenho de destacar a camareira Anna Smith (Joanne Froggatt) que ao lado do lacaio John Bates (Brendan Coyle) vive um dos romances ao estilo Jane Austen.

Na segunda temporada os personagens de Downton enfrentaram a I Guerra Mundial

A série passa por momentos cruciais na história europeia e mundial: a Primeira Guerra Mundial, a febre espanhola, as proeminentes lutas de classe e a ascensão do socialismo com a revolução russa e a queda da bolsa de valores. A evolução da história e os conflitos dos personagens, que por sinal, são extremamente bem construídos, são de uma beleza na reconstituição histórica, desde o figurino até as cenas realistas de guerra. De maneira tênue, é possível perceber a pressão que a modernidade do século 20 exerce sobre aquele mundo já um tanto decadente. Feminismo, totalitarismo, novas tecnologias, está tudo ali. Sem falar na guerra que se avizinha na Europa.

A criadora Julian Fellowes tem como seu ponto alto os diálogos e tensões entre empregados e patrões, o que já denuncia a decadência de valores que veríamos nas duas classes nos anos seguintes. Downton Abbey é uma obra de arte, uma das melhores séries que já tive o prazer de assistir, sem dúvidas entrou para minha lista das dez melhores de todos os tempos. Àqueles acostumados com séries extremamente dinâmicas e cheias de reviravoltas, podem estranhar o ritmo próprio da série, mas recomendo a todos que assistam ao menos ao piloto e tirem suas conclusões.

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