E eis que se abriram os portões do céu das séries de TV e deu-se início ao retorno dos nossos programas seriados favoritos, com novas temporadas, novidades, nossos atores e personagens preferidos. Com elas, alguns novos títulos, e essa é a minha parte favorita: ficar catando dentre todos os episódios pilotos que surgem qual o enredo que me agrada e que pode se tornar uma alternativa potencial para um novo vício. Semana passada, identifiquei duas novas séries que podem vir a figurar na minha pasta fixa no computador para séries em acompanhamento. Já assisti ao primeiro episódio de uma delas e resolvi falar sobre minhas impressões iniciais aqui no blog.

 

“The Blacklist”, da NBC, é estrelada pelo experiente ator James Spader (Lincoln e Stargate), que interpreta Raymond “Red” Reddington, um criminoso sagaz procurado pelo FBI e, no início do primeiro episódio, praticamente entrega-se às autoridades da segurança nacional sem um motivo aparente. Contracenando com ele temos Megan Boone, uma atriz sem muitos trabalhos relevantes, que interpreta a jovem agente especial do FBI Elizabeth Keen, recém saída da escola preparatória para o seu cargo de profiler (especialista em traçar perfis de criminosos e psicopatas para prever suas motivações e capturá-los).

James Spader como Red Reddington

A relação entre os dois personagens se dá ao melhor estilo “O Silêncio dos Inocentes”, só que menos sutil. É óbvio, e isso não é segredo para ninguém, que desde a obra de arte do suspense policial estrelada por Anthony Hopkins e Jodie Foster várias outras produções (para o cinema, ou séries) se inspiraram ou prestaram homenagens ao filme. Um exemplo corrente, podemos citar, é a série Criminal Minds, que bebeu da fonte de Hannibal Lecter e de Clarice para compor o argumento de vários de seus personagens e até mesmo o enredo de uma boa quantidade de episódios. Mas até então, eu nunca vi uma “homenagem”, “referência” ou “plágio”, intitulem como lhes convir, de forma tão escrachada quanto na nova série NBC, que estreou semana passada nos Estados Unidos.

Para que entendam do que falo, preciso narrar alguns momentos do primeiro episódio. Tentarei não ultrapassar os limites permitidos do spoiler, mas para os mais apegados a surpresas, recomendo pular os dois próximos parágrafos. Logo no início do episódio, quando Red Reddington é capturado, e a polícia precisa de informações que ele detém, a exigência é clara: “Só falarei com Elizabeth Keen”. A mesma frase é repetida ao fim do piloto, com um sorriso desdenhoso, ao melhor estilo Dr. Lecter e sua fixação por Clarice Starling. As semelhanças entre os dois criminosos não param por aí. Apesar de James Spader ter categoria para conseguir fazer um personagem seu, é notável o esforço do ator para imitar a atuação de Anthony Hopkins no papel do psicopata canibal. A calma irritante, o sorriso irônico que parece desnudar quem vê, a forma de sentar (calmamente, com as mãos sobre as pernas) e até os bons modos e a elegância foram imitadas. Quem já assistiu a “O Silêncio dos Inocentes” sabe que Hannibal é um gentleman, apesar de sua ficha criminal. Assim também é Red. No campo das aparências, o chapéu estilo panamá, utilizado por Hannibal quando livre, também é adotado por James na composição de seu personagem.

Megan Boone como Elizabeth Keen

Já Elizabeth não é tão próxima assim de Clarice, com exceção do fato de ser uma jovem agente que se torna, por algum motivo, objeto de simpatia (ou obsessão) de um criminoso. Elizabeth também é corajosa e forte, tal como a personagem de Jodie Foster, mas as semelhanças param por aí. A série promete que a agente Keen terá uma personalidade mais bem trabalhada que a de Clarice, e muitos segredos envolvendo a sua vida, que o espectador conhecerá com o tempo. Contudo, além das semelhanças entre os personagens, “The Blacklist” chega a copiar cenas e até mesmo o roteiro do filme. O contato inicial do criminoso com a agente, bem como alguns diálogos (“Você me conta algo, e eu conto algo a você”) são cópias despudoradas. Para não citar o fato de que, assim como no filme, em “The Blacklist” a função do contato entre criminoso e agente é descobrir informações sobre o sequestro da filha de um nome importante para o país (no filme, um político, na série, um honroso militar).

O showrunner da série, John Eisendrath, alega que a série “sente-se honrada” com a comparação com o clássico dos cinemas, mas afirma que tal relação não se aplica pelos motivos de que “Red não é um serial killer e Elizabeth Keen esconde um lado obscuro que será revelado ao longo dos episódios”. Ok, depois de tudo o que citei, acho que o mais decente para a série seria admitir a “inspiração” e seguir adiante.

Cartaz da série

No mais, não sobram muitas novidades em “The Blacklist”. Ao fim do piloto, é revelada uma motivação especial de Red para seu contato com a polícia: ele possui uma “lista negra” (blacklist) de assassinos, bandidos e criminosos da pior espécie, e que deseja capturar. Para isso, almeja unir esforços com as autoridades, ou mais especificamente, com Elizabeth, a pessoa que ele exige ser o seu único contato. A partir daí, o que esperamos é um pouco mais de inovação nos episódios seguintes, que prometem ser embasados pela captura de cada nome da lista negra de Red.

Cena inicial do seriado, captura de Red Reddington

Copiado ou não, é indiscutível que o argumento é bastante empolgante. Contudo, ao menos em um primeiro episódio, a produção deixou a desejar em vários quesitos. Faltou tensão, ação e inteligência para uma série que promete ter essas características como mote. Não é suficiente, entretanto, para essa apresentação ter sido considerada ruim. Para mim, foi o suficiente para me estimular a ver o segundo capítulo, na esperança de que melhore, e inove.

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