'3%' é a série que condiz com a realidade brasileira atual
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3%, a primeira produção da Netflix 100% brasileira, estreou na última sexta-feira (25/11). Sem dúvidas, foi uma das produções mais demoradas do canal de streaming, e deixou os fãs da plataforma, principalmente os brasileiros, com corações ansiosos. Mas valeu a pena a espera.

Quando os jovens da sociedade abordada na série completam 20 anos, eles estão capacitados para entrar para o Processo, no qual passam por diversas provas para medir força física e percepções lógicas. Dentre 1000 jovens inscritos, apenas 3% deles – por isso o nome da série – são capacitados a terem melhores condições de sobrevivência em outro lugar. No entanto, são obrigados a abdicar totalmente da vida anterior, incluindo os laços familiares. Nesta sociedade, existem pessoas que não concordam com essa separação social e acham a metodologia de escolha de jovens errada. Então, elas criam uma milícia contra o Processo, a Causa. Este é o emblema que, indubitavelmente, dá o desenvolvimento da história.

No decorrer dos episódios, somos apresentados a personagens, dentre os quais os principais são Joana (Vaneza Oliveira), Michele (Bianca Comparato), Rafael (Rodolfo Valente) e Fernando (Michel Gomes), que são alguns dos jovens que participam da seleção. No lado de quem seleciona, o principal nome é Ezequiel (João Miguel), chefe do Processo, acusado de lidar – por seus colegas de trabalho – com essa seleção com um pouco de sadismo. Apesar da desconfiança velada, o telespectador vai descobrir que existem motivos, independente do juízo de valor, para Ezequiel fazer o que tem de fazer.

Em seus pouquíssimos 8 episódios, 3% se mostra uma série totalmente crítica à sociedade brasileira. Assim como no nosso país, a instituição que controla a sociedade da série é completamente corrupta e se vale de discursos ideológicos, como a meritocracia, para manter o status quo. Até o cenário é propositadamente construído para fazer uma crítica à sociedade: há um abismo, uma depressão mesmo, que separa o Pavilhão onde ocorre o Processo do restante de pessoas, o que é uma referência à pirâmide de classes brasileira, na qual os mais pobres, mais numerosos, constituem a base, e os mais ricos, em menor quantidade, ficam no topo.

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A série tem muitos pontos positivos e, entre eles, estão questões técnicas como fotografia, figurino e trilha sonora, responsáveis por tornar aquele universo, ao mesmo tempo, autônomo e com a cara do Brasil. As cores utilizadas são bem vivas, mesmo em se tratando de uma distopia, e também servem para contar a história. Um exemplo disso consiste no forte contraste de cores que envolvem o local mais pobre, onde há também uma bagunça de estampas; já o que seria harmonioso fica no MarAlto – local onde os 3% vão após passarem pelo Processo: todos vestem cores claras como branco e tons de azul e verde mais fracos.

Quanto à trilha sonora, houve algumas milhares de decepções nas redes sociais, nas quais se afirmava que a série havia se tornado “um filme nordestino” e “não cabe uma música dessa num visual futurista”. Para mim, este é um tipo de julgamento totalmente raso e preconceituoso, uma vez que, analisando a trilha, as músicas selecionadas encaixam-se com maestria aos dramas dos personagens.

Apesar de ser uma série totalmente produzida por brasileiros, o enredo e seu desenrolar trazem questões já abordadas em outros filmes de Hollywood, como Jogos Vorazes e a série Divergente. Assim como nos filmes estadunidense citados anteriormente, em 3%, algumas pessoas que vivem no lugar chamado de “Do lado de cá” lidam com o Processo como se fosse uma divindade, crendo que um dia isso irá salvá-los da extrema pobreza que circunda aquele povo. Além disso, como 3% também é uma distopia, a série não consegue se desviar do mar clichês que acompanham o gênero, o que prejudica a série. Algumas poucas reviravoltas, todavia, garantem um mínimo de interesse.

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Portanto, 3% tem seus defeitos e seus acertos. É possível aperfeiçoá-la ainda mais, e uma dessas formas seria contar a história de outros personagens, uma vez que esse tipo de seleção está longe de terminar. Vale à pena investir um tempo – é possível maratoná-la em apenas 1 dia – e reflexão nas críticas sociais da nossa realidade que sua experiência vai ser bem mais enriquecedora.

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