5 livros para conhecer o estilo de José Saramago

José Saramago foi um dos grandes nomes da literatura portuguesa, o brilhante escritor é considerado um dos principais romancistas do século XX. Em seus mais de sessenta anos de carreira, Saramago publicou diversos romances, peças, contos, crônicas e poesias. Tendo atingido sucesso mundial com seus famigerados romances no qual ele abordava temas muitas vezes polêmicos, de forma bastante característica. O autor ganhou o prêmio Nobel da Literatura em 1998.

“Que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.

Em junho de 2010, o escritor faleceu vítima de uma leucemia, aos 87 anos, deixando um imensurável legado à literatura. O CHAPLIN homenageia esse ícone com cinco obras para se conhecer o trabalho de José Saramago:

  • 1. Memorial do Convento (1982)

Nessa obra, que foi o primeiro grande sucesso do autor, Saramago estabelece uma ligação que se torna sua marca registrada: a ligação entre a realidade e a ficção. O romance, que se passa no século XVIII, durante a inquisição portuguesa, conta a história de Baltazar, um operário da construção do convento de Mafra.

Uma importante característica presente na obra é o senso crítico apurado do escritor, que em “Memorial do Convento” faz críticas à exploração, corrupção e conflitos, tudo isso envolto em um estilo irônico e pessoal que torna o livro bastante interessante.

No romance, temos inúmeros personagens históricos, como o rei de Portugal D. João V, ou o padre brasileiro Bartolomeu Lourenço. Essa presença de personagens reais e concretos ajudaram a costurar o enredo do livro, expandindo a ficção e encorpando o conteúdo. Saramago também utilizou o simbolismo, tanto para expressar ideias, quanto para aprofundar alguns personagens.

  • 2. O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

José Saramago resolveu contar a história de um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa – Ricardo Reis. Saramago foi caprichoso, respondeu a uma dúvida que ficou na cabeça de muitas pessoas: em que ano morreu Ricardo Reis? Só lendo o livro para saber. Novamente temos um elo entre a história e a ficção, que é tão bem desenvolvido, que chegamos mesmo a acreditar que tudo aquilo realmente aconteceu.

Até o Fernando Pessoa entrou no enredo, e Saramago imaginou uma relação interessante entre Fernando e Ricardo. Novamente temos críticas no romance, que dessa vez voltam-se ao fascismo que envolveu Portugal em meados da primeira metade do século XX; não poderia faltar a refinada ironia que faz parte do estilo literário de José Saramago.

  • 3. História do Cerco de Lisboa (1989)

Uma obra simplesmente inovadora, que praticamente não possui pontos finais, apenas vírgulas (essa é outra importante característica de José Saramago, ele brincava com as palavras e com a pontuação). Já imaginou o quão complicado e desafiador seria ler um texto que evitasse o uso de pontos finais? Porém, Saramago não fez isso por fazer, pelo contrário, dessa forma ele tecnicamente nunca iria concluir uma ideia, sempre estaria acrescentando mais informações a uma tese, e isso acabou enriquecendo a história do livro. O autor usava a pontuação apenas para fins de pausas e ritmos. Ou seja, o estilo dele é uma oratória construtiva, onde ele valoriza mais a forma com que o leitor lê ou compreende certa palavra ou frase do que a forma correta de acordo com as normas.

Sobre o enredo, mais uma vez eu cito os elementos presentes: o elo entre a ficção e a realidade, a ironia e as críticas. Todavia, dessa vez temos algo a mais. O personagem principal, Raimundo Silva, é um homem simples que trabalha como revisor de textos, até que em um belo dia ele tenta simplesmente mudar a história do cerco de Lisboa. Em meio disso, temos a introdução de questionamentos, reflexões e de diversos outros cercos. Tudo isso, devido a uma pequena e simples palavra: “não”.

  • 4. O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991)

Saramago

Um dos mais famosos romances do autor, traz no próprio título uma polêmica. Saramago, que sempre foi um crítico das religiões, em especial a católica, teve uma das mais ambiciosas e interessantes ideias: retratar um Jesus humanizado, e que a história desse Jesus fosse escrita através de uma perspectiva mais próxima do próprio “filho de Deus” (Mel Gibson também teve essa ideia, anos depois).

O livro é um romance, e não um evangelho, como o título sugere, entretanto, muitas pessoas se sentiram ofendidas e irritadas pela visão que Saramago tinha de Jesus. Levando em consideração as posições do autor, é muito provável que essa irritação tenha sido o objetivo dele. O escritor gostava de provocar o leitor, de fazê-lo refletir e pensar sobre determinado assunto. Em “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, a crítica se dirige à religião e à forma como Jesus é apresentado.

Geralmente os travessões antecedem a fala de algum personagem em diálogos ou textos do tipo. (In)Felizmente, os travessões não foram apresentados à José Saramago. Ele não os utilizava para indicar falas em seus romances, com a finalidade de causar uma desordem.

Saramago, em entrevista ao semanário Expresso, explicou sua posição em relação à pontuação: “Era como se eu lhes tivesse a contar a eles a história que eles me tinham contado. E, como você sabe, quando falamos, não usamos sinais de pontuação. Temos pausas [de respiração] e até, como eu digo nos meus livros, os dois únicos sinais de pontuação, o ponto e a vírgula, não são sinais de pontuação, são uma pausa, uma pausa breve e uma pausa longa. No fundo, como também digo muitas vezes, falar é fazer música”.

  • 5. Ensaio sobre a cegueira (1995)

Saramago
Nas palavras do próprio escritor:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

Ao longo desse post, pudemos conhecer um pouco do estilo de José Saramago, então, peço que imaginem, e mesclem o simbolismo do item 1; o capricho do item 2; a inovação do item 3 e a crítica do item 4. Pronto, temos um Saramago inspirado a fazer uma obra consideravelmente importante para a sua carreira e legado.

Terra de ninguém? Os personagens anônimos, identificados somente pelas suas características, sofrem de uma contagiosa cegueira, e ai entra um importante questionamento para o entendimento da mensagem que o livro pretendia passar – o que é a cegueira? Saramago usou diversas metáforas associadas ao que poderia ser essa cegueira que atordoa à todos. Cabe ao leitor decidir e interpretar. Cada caso é um caso.

“O Ensaio sobre a Cegueira” teve uma adaptação cinematográfica homônima, em 2006. O filme, que conta com Julianne Moore, Mark Ruffalo e Danny Glover nos papéis principais, foi dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (diretor de “Cidade de Deus”). O próprio Saramago afirmou ter gostado do filme e que estava muito feliz por ter visto a adaptação.

José Saramago será sempre lembrado pela sua enorme contribuição para a literatura, pela sua autenticidade e por sua imaginação. Seus livros são caminhos para um universo dividido entre história e ficção, um universo rico em conhecimento, e belo em conteúdo.

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Myqueas Bruce Wyllys
Myqueas Bruce Wyllys (e isso dispensa apelidos) gosta de cinema, música e literatura. Um bardo com o coração divido entre Hitchcock, Kubrick e Chaplin, que tem um otimismo um tanto pessimista, causado por leitura excessiva de Charles Dickens e possui interesse por tudo e por todos. Nas horas vagas, gosta de ver filmes, convencer amigos a verem filmes e debater filmes.
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Myqueas Bruce Wyllys

Myqueas Bruce Wyllys (e isso dispensa apelidos) gosta de cinema, música e literatura. Um bardo com o coração divido entre Hitchcock, Kubrick e Chaplin, que tem um otimismo um tanto pessimista, causado por leitura excessiva de Charles Dickens e possui interesse por tudo e por todos. Nas horas vagas, gosta de ver filmes, convencer amigos a verem filmes e debater filmes.

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