A Bela e a Adormecida: um conto de fadas que passa no teste de Bechdel
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O Teste de Bechdel é comumente utilizado para determinar o nível de participação feminina em uma narrativa. Uma história consegue ser bem sucedida quando submetida ao Teste de Bechdel se possui mais de duas mulheres que dialogam entre si sobre qualquer coisa que não sejam homens. Convenhamos que essa não é uma realidade frequente em contos de fadas, quando os fins ou os meios de uma princesa sempre coincidem com a figura do Príncipe Encantado, e assim condiciona-se uma geração de meninas a acreditarem que o objetivo de suas vidas deve ser um príncipe – ou no mínimo, só será alcançado com a ajuda dele. Felizmente, não é isso que acontece em A Bela e a Adormecida, adaptação escrita por Neil Gaiman e ilustrada por Chris Riddell dos famosos contos Branca de Neve e os Sete Anões e A Bela Adormecida.

O nome de Gaiman em uma história sempre empolga. Contudo, recentemente tive a oportunidade de ler sua adaptação do conto João e Maria e fiquei particularmente frustrada pelo fato de nada de novo ou excepcional ser inserido na narrativa. Portanto, por mais que a proposta de “A Bela e a Adormecida” me tivesse cativado, mantive as expectativas moderadas dessa vez. Isso possibilitou inúmeras surpresas e um deleite ainda maior no decorrer das 70 lindíssimas páginas do livro.

Apesar de ser curta, essa é uma obra para se apreciar com tempo. Nada de apressar-se e ceder à curiosidade de chegar ao final imediatamente. A edição brasileira preparada pela Editora Rocco é admirável! O zelo começa pela belíssima capa dura com uma das ilustrações de Chris Riddell. O desenhista possui um traço apurado, detalhado e, nesse caso em particular, com um tom sombrio que casou perfeitamente com a proposta da narrativa de Gaiman. Os desenhos, em preto e branco, não vêm aqui meramente para ilustrar a narrativa, mas têm papel tão importante quanto ela. Vale destinar alguns minutos para as páginas que carregam o trabalho de Riddell, uma obra de arte à parte.

O destaque, no entanto, é seguramente o texto de Gaiman. Não apenas pela qualidade de sua escrita, que torna a experiência ainda mais prazerosa, mas pela nova roupagem que o autor deu à fusão das duas histórias: aqui príncipes não são meios nem fins, nem mesmo importantes; os anões não protegem a rainha guerreira Branca de Neve, mas a seguem lealmente em seus objetivos;  não é necessário um homem para acordar a Adormecida, apenas a ousadia e a coragem de uma rainha; princesas não são necessariamente jovens, belas e indefesas e bruxas malvadas não são essencialmente feias e velhas. Falar qualquer coisa a mais que isso configuraria spoiler. Gaiman consegue não apenas reformular as histórias e padrões aos quais estamos acostumados, como também consegue surpreender e empolgar com um plot primário conhecido há mais de cem anos.

“A Bela e a Adormecida” é um daqueles livros para se ter na estante e deixar de herança para os filhos, sobrinhos e netos a fim de conceder-lhes uma saudável quebra de estereótipos das prateleiras tão homogêneas dos contos clássicos infantis.

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