A controversa trajetória de Tupac Shakur, interrompida há 21 anos

Only God can judge me foi a primeira música através da qual tive contato com rapper americano Tupac Shakur. Com um beat envolvente e uma letra visceral e real, acabei me envolvendo, e entrei de cabeça no universo do cantor e compositor. Mais tarde, envolvi-me com a versão militante e revoltada do artista, cujo nome passou a ser estilizado: 2Pac.

Humilde, militante e genial são as palavras que o definem. Nesta quarta-feira, 13/09, completam-se 21 anos sem o artista. É a mesma data também de um crime que nunca foi solucionado pela polícia americana. A história tomou proporções gigantescas e já ganhou diversas teorias da conspiração, incluindo a que aponta o seu principal rival, Notorius B.I.G como mandante do homicídio. Contudo, nada foi comprovado até hoje.

Only God can judge me, that right?

Durante sua vida, Tupac mudou-se diversas vezes, mas acabou crescendo artisticamente em Baltimore, na costa leste norte-americana, onde desenvolveu habilidades de poesia, atuação e balé. Nessa cidade, também onde conheceu sua grande amiga Jada Pinkett, que é atualmente a esposa de Will Smith. Mas foi na California, do outro lado dos Estados Unidos, onde começou a fazer sucesso, com o grupo de rap Digital Underground. Lá compôs suas primeiras letras e desenvolveu ainda mais sua habilidade com as palavras.

Em 1991, Pac lança seu primeiro álbum, 2Pacalypse Now, que não emplacou nenhuma música nas paradas de sucesso. Apenas em 1993, com o seu segundo álbum chamado Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z, que alguns top hits estouraram. No final do ano, Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z foi certificado como disco de ouro, o que impulsou ainda mais suas músicas nas paradas de sucesso.

Demetrius Shipp Jr. interpreta Tupac na cinebiografia “All Eyez On Me”

Além do sucesso, o rapper também foi extremamente debatido pela sociedade americana por diversos motivos, como a legitimação ou não do rap como parte integrante da cultura dos EUA e, principalmente, o modo de vida que levava. Um exemplo desse intenso debate foi ter sido citado pelo vice-presidente americano à epoca, Al Gore. Quanto ao seu modo de vida, ele não foi nenhum santo. Tupac foi preso diversas vezes por diferentes crimes, incluindo tráfico de drogas, porte de arma e estupro. Como a polícia americana é racista, alguns desses crimes, obviamente, foram tipificados erroneamente, resultando em sentenças de prisão arbitrárias. O cantor também falava o que pensava por meio de um vocabulário carregado de palavrões, e o “Thug Life” era seu estilo.

Mas há quem discorde que Pac foi um representante importantíssimo do movimento negro dos anos 90.  A trajetória familiar, no entanto, está ao lado de Pac, uma vez que a militância está presente em sua vida desde a infância, já que sua mãe, Afeni Shakur, foi membro dos Panteras Negras e durante sua vida inteira lutou em prol da comunidade. O rapper também foi enteado de Mutulu Shakur, conhecido militante que foi caçado diversas vezes pela polícia norte-americana. A canção Dear Mama, onde narra a relação que possuía com sua genitora, é uma forte evidência da inspiração em sua mãe na militância e na composição de suas músicas.

Outra polêmica na breve vida do rapper foi um relacionamento também breve com a rainha do pop, Madonna. Somente neste ano que o público em geral tomou conhecimento, em uma carta leiloada em julho, do motivo pelo qual o relacionamento havia terminado. Na carta, Pac disse que, caso ela seja vista com um homem negro, ninguém irá julgá-la, mas se se ele for visto com uma mulher branca, a coisa muda de figura e a própria comunidade negra se decepcionaria com a situação. Apesar desse registro ter acontecido há 21 anos, casos semelhantes – nos quais rappers negros que se envolvem com mulheres brancas são repudiados – ainda são registrados hoje em dia, como o ocorrido com rapper Emicida, que foi muito criticado nas redes sociais.

Apesar da sua trajetória conturbada, Tupac ainda é considerado um dos grandes representantes da comunidade negra do mundo inteiro e referência de tantos outros artistas que vieram posteriormente nos EUA, no Brasil e em outros cantos do mundo. Tão importante que foi o primeiro artista a servir de teste para a tecnologia do holograma, posteriormente testado com Michael Jackson. Como ele mesmo disse e como citado no início desse texto: “Apenas Deus pode me julgar, não é mesmo?” foi o que ele quis dizer pro mundo em seu último álbum em vida. Preparei uma playlist no Spotify pra quem nunca escutou Tupac Shakur, então é a oportunidade de ouvir minhas músicas favoritas do cantor, além de ser uma porta de entrada para o universo do hip-hop.

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Vinícius Cerqueira
Jornalista em formação, fluente em baianês e musicalmente conduzido no dia a dia
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