Antes da PEC 37 estar no centro das discussões no Brasil, há alguns meses uma outra proposta de emenda à Constituição amplamente debatida foi a PEC das Domésticas. Não sou um verdadeiro entendedor dos benefícios a essa classe, mas não foi difícil perceber que a dimensão da aprovação desse texto era grande: a PEC fez com que o setor de distribuição brasileiro corresse para colocar em cartaz o filme chileno “A Criada” (La Nana), do diretor Sebastián Silva. O filme é de 2009, ganhou vários prêmios pelo mundo ao longo desses anos e, segundo Marcelo Janot, crítico de cinema do Jornal O Globo, chegou até ser exibido pelo Telecine Cult. Mas, nos cinemas mesmo, o filme só começou a ser exibido no oportuno ano de 2013. 

 

Heranças da colonização: Raquel (Catalina Saavedra) deve fazer as refeições separada da família com que trabalha há 20 anos.

Logo no início, o filme toca numa questão social: às empregadas domésticas cabe dormir em quartos minúsculos próximos à cozinha – que é seu locus de trabalho -,  privar-se de vida social e amorosa, usar uniforme – o que identifica sua condição diante dos demais, dentre outras heranças do sistema colonial. É interessante como as mesmas heranças podem ser vislumbradas em produções brasileiras, como é o caso do premiadíssimo “O Som ao Redor”, mesmo que sejam utilizadas linguagens diferentes nas duas produções. No filme brasileiro, é frequente o uso da metáfora, enquanto que em “A Criada” as denúncias são mostradas com maior sensibilidade: a direção de Sebástian Silva, que é excelente, dedica um bom tempo aos detalhes: a cena que mostra o banho de Raquel, a empregada protagonista, num apertado box; a compra de uma camisa igual a da patroa; os afazeres domésticos no dia do aniversário de Raquel; as fotos dos seus parentes guardadas num diário. 

Tal sensibilidade pode ser observada também no roteiro. Com diálogos contundentes, ele é muito bem conduzido de forma a ultrapassar o maniqueísmo, que é o que frequentemente acontece ao se trazer uma perspectiva crítica das relações sociais para o cinema. O cartaz de divulgação do filme resume bem o que, para Janot, é a ideia central do filme: “o que a presença daquele ser tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante da vida da família significa tanto para a empregada quanto para os patrões”. 

“Ela é mais ou menos da família”: essa é a ideia central do filme chileno “A Criada”.

 Continuando na história, de tanto ser ignorada afetivamente por seus patrões, mesmo trabalhando há mais de 20 anos na casa, Raquel começa a desenvolver distúrbios de ordem psicológica. E aí que começa a “segunda fase” do filme: a família decide contratar ajudantes mais novas. Por ciúme das recém-chegadas, a empregada protagoniza situações bem engraçadas, trancando as colegas de trabalho do lado de fora da casa ou se livrando do gato da família e culpando as ajudantes. Nesse sentido, pode-se afirmar que uma personagem como Raquel, meio engraçada, mas sem perder a lucidez, é bastante complexa. O desafio foi encarado pela atriz Catalina Saavedra, numa atuação fantástica, dando as nuances necessárias à personagem em questão. 

A impressão que “A Criada” dá aos espectadores é que o filme é uma sensata homenagem à classe doméstica, agradável como poucos filmes sociais conseguem ser e levando as discussões sobre essas trabalhadoras muito mais além das questões trabalhistas.  

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