Desde o início de 2012 que Marc Cherry perde noites de sono pensando em qual seria a sua próxima série emplacada para substituir a aclamada “Desperate Housewives”, que já se desdobrava mais que o necessário em sua oitava temporada. Inspirou-se em uma série de tv mexicana (e tenho quase certeza que em “Cheias de Charme”) e montou-a conforme a sua receita já testada e aprovada pelo público norte-americano. Surge então Devious Maids, que poderia facilmente passar-se por Desperate Housewives de Lynette Scavo, Bree Van de Kamp, Gabrielle Solis, Susan Delfino e Mary Alice Young fossem empregadas domésticas, e não donas de casa. A nova série, inclusive, vem com o investimento de sua pupila latina Eva Longoria (uma das  estrelas de Desperate Housewives e produtora de Devious Maids).

Atrizes principais, Marc Cherry e Eva Longoria (à direita) no lançamento da série

O show começa com o assassinato de Flora (Paula Garcés). Minutos antes, há a revelação de que ela estava tendo um caso com seu patrão. Não se sabe, contudo, quem a matou. Mas já no primeiro capítulo, Marc Cherry amarra a história e apresenta de fato ao espectador o enredo pelo qual sua série vai transitar. Marisol Duarte (Ana Ortiz) é uma recém-contratada para a casa de Taylor Stappord (Brianna Brown), que, a princípio, desconfia da empregada por ser muito inteligente e não ter sotaque latino. Aos poucos, Marisol ganha a confiança dos patrões e aproxima-se das outras empregadas da rua, todas latinas. Mas durante todo o primeiro episódio, mantem-se a tensão sobre qual de fato é o papel de Marisol naquele grupo. Marc Cherry não sustenta o suspense por muito tempo e já ao fim do episódio nos revela e deixa a chama de curiosidade acesa, não porque queremos entender algo que não foi explicado, mas porque sabemos que a história será interessante.

Além de Marisol, temos no núcleo principal das empregadas, Rosie Falta (Dania Ramirez), que precisou deixar o filho pequeno na América Latina para ganhar dinheiro nos Estados Unidos; Carmen Luna (Roselyn Sánchez), uma cantora em busca da sua primeira oportunidade e, por isso, empregada na casa de um astro norte-americano; e Valentina e Zoila Del Barrio, mãe e filha que trabalham na casa de uma dondona em crise de meia idade.

A principal característica de Devious Maids (e penso que seja também a de Marc Cherry), é o humor negro. Cherry faz piadas que poderiam ser impensáveis e moralmente condenáveis, mas que acabam ganhando um tom de crítica social pelo autor. Em sua série, há o tabu de que empregada que é empregada tem que ser latina e sem formação, são tratadas como objetos, a ponto de serem “negociadas” em caso da separação do casal, e não podem ter ambição. Contudo, Devious Maids apresenta isso de forma a percebermos que a burrice está na cabeça de quem pensa dessa forma, ou seja, os patrões, todos estereótipos exagerados da sociedade norte-americana.

O criador já mostra a que veio nos cinco primeiros minutos de série, logo após a morte de Flora, quando sua patroa, Evelyn Powell (Rebecca Wisocky),  chora descontroladamente. O espectador imagina que seja pelo nervosismo de um assassinato acontecer dentro da sua casa, ou talvez por ter alguma afeição à personagem morta, até que Evelyn solta um histérico: “A empregada está morta, quem vai limpar essa bagunça?”.

A níveis técnicos, Devious Maids é impecável. A fotografia é bonita e algumas cenas são tão cuidadosamente planejadas que sua estética se torna um espetáculo a parte. As interpretações são coerentes com a proposta do roteiro, mesmo as mais exageradas, como é o caso de Susan Lucci como a destemperada Genevieve Delatour.

A receita de Devious Maids é um daqueles bolos que, por ter todos os ingredientes que todo mundo ama, você come mil vezes e sempre vai acabar repetindo. Marc Cherry decididamente sabe como unir doses certas de humor, ironia, drama, ação e mistério em um só pacote. A excelência técnica e as atuações corroboram para um produto final pouco original, é verdade, mas bastante afável a nível de entretenimento.

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