Dia desses utilizei-me do raro luxo de uma tarde de meio de semana livre para ir à livraria. Há uns dois anos, quando trabalhar oito horas por dia todos os dias não era ainda uma realidade na minha vida, tinha essa prática como um hábito frequente.

Em minha passagem pela livraria naquela tarde, nenhum livreiro aproximou-se conversando sobre o último prêmio Pulitzer que estava em promoção, ou indicando um título local que eu precisava conhecer, nem mesmo me convidando a ver a mais nova impressão daquele clássico inesquecível. Quando precisei de ajuda para encontrar uma edição de “As Mil e Uma Noites” que, só por curiosidade, buscava, pedi a um livreiro que me indicasse aonde ela estava, ao que ele respondeu: “Estão aqui dois volumes, mas acho que está incompleta, faltam os outros dois.”

Eram dois livros bem grossos e eu, que já tinha lido uma edição semelhante em tamanho e largura, retruquei: “Mas existem edições com dois volumes apenas, tipo aquela em tons de amarelo queimado, com apresentação do Malba Tahan”. “Ah, não, mas essa da Editora Nova Fronteira eu acho que ainda vão chegar os outros dois livros.” O livreiro em questão contentou-se com o achismo, eu lhe agradeci a gentileza e me dei ao rápido trabalho de consultar o índice e a última página do segundo volume. Foi o suficiente para ter a certeza de que aquela edição estava completa com seus dois volumes. Apesar do meu interesse, o livreiro também não me informou que o box estava com 30% de desconto, fator primordial na minha decisão de levar a bela edição para casa.

Na minha espera na fila do caixa, lembrei que há poucas semanas voltara à mesma livraria em busca de um livro de um escritor relativamente conhecido. Tive que soletrar o nome do autor no mínimo três vezes, visto que o livreiro não sabia de quem se tratava. Em outra ocasião, um terceiro livreiro não fora capaz de me informar, sem consultar o estoque, se haviam livros de Fernando Pessoa, Florbela Espanca ou Cecília Meireles.

Concordo que fui mal acostumada. Quando cheguei a Natal, logo fui introduzida a um grande livreiro, que em sua experiência conversava sobre os mais variados temas, indicava títulos para presentes de acordo com a personalidade do presenteado, me introduzia aos mais garimpados títulos que valiam à pena em meio a essa nova leva de tanta literatura superficial, e a cereja do bolo: conseguia descontos simbólicos para aqueles clientes que ele sabia serem fiéis, e assim garantia que a fidelidade perdurasse, bem como os intercâmbios literários travestidos de atendimentos em tardes de meio de semana, que chegavam a durar perto de uma hora. Para a minha tristeza, descobri há alguns meses que após mais de uma década de prestação de serviço naquela função, o sujeito fora demitido pelo triste argumento de que era necessário cortar gastos na empresa – uma das maiores do ramo no Brasil, convém dizer.

Esse livreiro não fora o único. Com o tempo, logo deixei de ver nesta mesma livraria um cara simpático e parrudo, gente boa, que era sempre a minha referência quando o assunto era a seção de histórias em quadrinhos. Ou a caixa de longa data que automaticamente já me dava o desconto fidelidade sempre que me via apontando da fila.

Em troca foram aparecendo rostos novos, jovens, que parecem não estar muito engajados naquilo tudo – é provável que seja um bico até terminar a faculdade – que me pedem para soletrar Tolkien ou ignoram a existência de João Ubaldo Ribeiro. A crise levou embora os meus livreiros e me entregou vendedores, por acaso, de livros.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.