Entre as muitas pessoas com quem eu gostaria de conversar e saber um pouco mais, uma delas com certeza é a Ana Larousse. Descobri essa jovem curitibana enquanto vasculhava os discos disponibilizados pela Musicoteca, e dentre tantos talentos, aquela voz suave, fina e não menos poderosa e profunda, em muito me chamou atenção. Ana é dessa safra nova, e já muito experiente, de cantores brasileiros, que cheios das mais variadas referências (e falo isso pulando para além do mundo musical), transforma ideias em experimentos sonoros únicos.

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Uma frase que muito bem descreve a música da cantora foi dita por André Felipe de Medeiros, repórter do Monkeybuzz, que falou assim: “Como se abrisse seu diário ou caderno de rabiscos e rascunhos íntimos, Ana Larousse narra sentimentos e sensações como em uma poética conversa entre amigos”. E é bem isso, pois ao ouvir o disco Tudo Começou Aqui (2013), você se sente íntimo da Ana, desabando e ouvindo confissões de um coração cheio de histórias para ganharem vida.

Conversamos com a cantora sobre carreira, inspirações, parcerias e muito mais. Confira a entrevista:

O CHAPLIN: Você já tem um percurso profissional bem ativo, com uma parceria bem identificada com o também cantor Leo Fressato, mas só em 2013 você lançou o seu primeiro disco. O que aconteceu nesse ano pra você se sentir confortável para lançar o seu trabalho?

Ana Larousse: Foi um processo bem longo, na verdade. Eu escrevo e componho desde bem nova. Comecei a compor canções que conversam com meu universo atual aos 19, algumas delas ainda toco quando em vez em shows por considerá-las bonitas e por algum saudosismo também. Mas sempre tive um imenso problema com minha voz, por achá-la muito pequena e também bastante dificuldade de ser o centro das atenções, de estar em foco, exposta. Compunha canções e só tinha coragem de mostrar para alguém num momento muito íntimo e com bastante vinho no sangue (risos). O Leo foi uma pessoa crucial nesse processo. Ele sempre me incentivou muito a mostrar meu trabalho e a ter coragem de expor meu canto. Foi acontecendo aos poucos o desenvolvimento do gosto que tenho hoje pelo palco como cantora também.

Me forcei muito a conseguir isso ao longo dos anos porque sentia, por alguma razão, que eu devia isso ao mundo. Meio que como uma retribuição por ter o dom ou talento ou facilidade (ou como quiser chamar) de compor canções. Em 2010 quando voltei de Paris tive o impulso e desejo de gravar o disco. Em 2011, depois do boom do clipe de Oração, fui meio que jogada na estrada com o Leo e acabei me aproximando cada vez mais dos palcos e fui incluindo canções minhas no nosso repertório aos poucos. No início era tão difícil a ponto de eu chorar após o show por ter me sentido quase violentada por expor algo tão íntimo! (risos) Foi só depois que lancei o disco que fiz meu primeiro show solo. Apenas eu segurando o microfone, a voz e a autoria do repertório. Quase morri!!! Mas durante o show acabei sentindo que eu era apenas uma ferramenta que as canções usavam pra chegar às pessoas. Meu ego ficava de fora. E chegar nesse lugar foi o que me fez não apenas não me sentir exposta como também me sentir capaz de criar algo lindo que me emociona muito também. Hoje eu amo o palco, amo cantar, me dou bem com minha voz e não tenho nem frio na barriga de nervoso. Fico ansiosa pro show começar logo! E que dure a vida inteira!

Ana Larousse e Leo Fressato

Ana Larousse e Leo Fressato

O Chaplin: E ao longo desses quase dois anos de lançamento, ‘Tudo Começou Aqui’ é ainda o mesmo disco ou você foi descobrindo em shows e demais apresentações que ele era muito mais do que imaginava?

Ana Larousse: Na verdade ele foi ficando obsoleto pra mim. Já estou bastante cansada dele e das canções que tem nele, tanto que em shows tenho tocado quase somente músicas inéditas. Estou pra lançar meu segundo disco e está muito diferente mesmo do primeiro. Meu público vai estranhar! (risos) Acho que é um processo normal. Tenho um baita orgulho do trabalho do primeiro disco, acho ele lindo. Mas já tenho tanta coisa nova escrita e a sensação de ouvir ele é como a de olhar uma foto antiga. Tipo “é legal, mas eu estou muito diferente e melhor agora”, sabe?

O Chaplin: Já tem previsão para um novo disco?

Ana Larousse: Sim!! Antes de julho vai estar disponível pra download e vai ter mais surpresas junto com ele!

O Chaplin: Nós achamos o clipe “Vai, menina” tão lindo! A estética, o modo de filmagem, até a liberdade que o teu corpo proporciona ao vídeo. Como surgiu a ideia para o clipe? E como foi, pra você, se despir da suas roupas e vestir literalmente as letras das suas músicas?

Ana Larousse: Foi uma experiência linda! E também extremamente terapêutica. Foi redentor e mudou muita coisa em mim. Sonhei com esse clipe e, junto com o diretor Bernardo Rocha, elaborei o roteiro baseado nesse sonho. Acho que eu me lavei de uma estética literária e musical minha e me preparei pra outra que, naquela época, ainda não sabia qual era. Durante a gravação, para aquele momento em que meio que danço, ouvi canções da Janis, do Hendrix, do Pink Floyd, do Bowie, do Nirvana, etc Mas nenhuma minha. E engraçado é que meu próximo trabalho se aproxima dessas referências sonoras, mas moderno, claro. Me lavei de tristezas antigas, de anseios antigos. Não sei explicar direito. Mas fiquei muito à vontade durante a gravação e foi divertido demais e muito leve fazer isso. Principalmente tendo sido feito ao lado de amigos tão queridos!

O Chaplin: Quais as suas principais referência?

Ana Larousse: Tudo! O que ouço, o que leio, o que vejo, o que sinto, o que vivo… Eu seria boba se desse nomes de banda. Quando escrevo canções ou penso em arranjos, não são apenas músicas que me vêm à cabeça quando bate inspiração. São cenas de filmes, diálogos que ouvi na rua, angústias minhas ou de amigos, cores, peças de teatro, viagens. E também nunca me apeguei a referências musicais para criar canções ou arranjos. É tudo muito natural. Tão natural que o tipo de canção que escrevo é bastante diferente do tipo que ouço. (risos)

O Chaplin: Temos um público ativo de leitores e puxando para este assunto, queremos saber, o que você anda lendo ultimamente?

Ana Larousse: Leio muito livros de história, sociologia ou antropologia. Desde sempre. Mais do que romances ou poesias. Principalmente sobre guerras, revoluções ou questões sociais atuais como a ocupação israelense na Palestina (um de meus temas preferidos), o feminismo e a imigração árabe na Europa. Mas nesse momento estou lendo “O Professor”, do Cristóvão Tezza, que é, para mim, o melhor escritor nacional. Sou fã de carteirinha dele e leito tudo que ele escreve e não tem o que eu não goste. E por estar terminando meu primeiro livro de poesias, tenho me aventurado a ler poemas, algo que nunca foi muito um costume meu. Alberto Caeiro, Quintana, Drummond, Baudelaire, Manoel de Barros, Neruda, Ginsberg, Leonard Cohen… nada de muito original. Conheço pouco, confesso, do universo da poesia. E livros de amigos escritores também têm me inspirado muito, tipo o grande Alexandre França, o Zéfere e o Luiz Felipe Leprevost.

O Chaplin: E por fim, também não podemos deixar de perguntar, quem anda chamando sua atenção no atual cenário da música brasileira e porquê?

Ana Larousse: Ai… Eu sempre pulo essa pergunta em entrevistas. É tanta coisa e eu sou meio bicho do mato, não sou consumidora voraz de bandas. Vou curtindo coisas novas bem aos poucos. Não consigo ouvir muita coisa nova ao mesmo tempo senão não absorvo bem e fico meio agitada demais. Mas vou pincelar o que tenho sentido das canções novas. Sinto muita falta de bons letristas e de compositoras mulheres. Vejo poucas bandas com arranjos criativos, mas elas existem e eu amo, como o Apanhador Só, A Banda Mais Bonita da Cidade, Lemoskine, Baleia… Mas repetindo: não ouço muita coisa, vou descobrindo aos poucos. Deve ter muita coisa do caralho que eu ainda não chegou a mim! Mas bons letristas… Sinto falta mesmo. Tem coisa demais, fico tonta e não consigo acompanhar!