A estética de ‘O Bandido da Luz Vermelha’

“O Bandido da Luz Vermelha” encontra-se no panteão dos maiores clássicos do cinema nacional, e não é à toa. O filme foi inspirado em João Acácio Pereira, mais conhecido como bandido da luz vermelha, que na década de 60 aterrorizou a sociedade paulista com uma onda de latrocínios e estupros. Na fita, Sganzerla narra a trajetória do bandido em forma de crônica policial, pontuando os seus principais crimes, que tinham características peculiares, como longos diálogos com as vítimas e fugas ousadas.

Quando nos atentamos a estudar a obra fílmica “O Bandido da Luz Vermelha”, de 1969 e dirigido por Rogerio Sganzerla, nos deparamos com uma redefinição dos moldes estéticos e narrativos até então empregados no cinema. Percebemos uma obra descompromissada com a construção tradicional da coerência narrativa, onde o espectador é guiado através de recortes jornalísticos e uma locução radiofônica.

“O novo cinema deverá ser imoral na forma, para ganhar coerência nas idéias, porque, diante desta realidade insuportável, somos antiestéticos para sermos éticos. Fiz O Bandido da Luz Vermelha porque todos os cineastas que admiro fizeram filmes policiais, mas no meio do projeto percebi que não poderia parar que tinha de incorporar outros estilos sem sair da poesia noturna do policial classe B.” (Sganzerla, 1969) [1]

Tais princípios, fazem o filme se desprender do lirismo e enveredar pelo deboche. O “herói” é justamente um bandido que reclamava dos problemas da vida, mas que não obstante, tinha uma carga intelectual de valor e peso incomensuráveis se comparado a um cidadão banal.

Essas características nos fazem atentar para um fator importante que se desenvolve com o decorrer do filme, as instâncias narradoras, que se encarregam por uma parte da narrativa do filme, desenvolvendo uma crítica sócio-política através de narradores “peridiegéticos”. Elemento esse que é representado no filme através de recortes sensacionalistas e radiofônicos.

Sganzerla tinha apenas 22 anos quando concebeu o filme, e foi ousado ao acompanhar um protagonista sádico e debochado, mas que em contrapartida, tinha uma carga intelectual de valor e peso significativos, se comparado a um cidadão comum.

Sganzerla exercita na obra suas influências do cinema noir americano, da nouvelle vague francesa e o neo-realismo europeu. Tanto, que “O bandido da luz vermelha”, foi descrito na época como um “faroeste do terceiro mundo”, um raro filme de imagens e significância simbólicas, e que merece ser redescoberto.


[1] Citação tirada da revista online contracampo: http://www.contracampo.com.br/58/sganzatacadebandido.htm