‘A Fita Branca’ e o ovo da serpente

Na minha odisseia diária pelo sistema de transporte público, tomei constatação de algo bastante corriqueiro: as pessoas já não oferecem o assento aos passageiros preferenciais, como idosos, grávidas e deficientes. Eu disse “pessoas”? Bem, leia-se “jovens”. É incrível denotar que esse tipo de indiferença venha justamente daqueles, que na teoria, deveriam ser o sustentáculo futuro de nossa sociedade.

 

 

Depois de matutar por algum tempo, agrupei minhas reflexões e afunilei-as para então chegar a uma indagação: de quem é a culpa? Bem, acho que uma miríade de variáveis pode explicar esse véu de indiferença que acomete a juventude: uma educação pautada no individualismo, o enaltecimento do supérfluo, a celebração da idiotia em detrimento do pensar, a coisificação do outro. 

 

Esse é o nosso grande *Zeitgeist! Nos pequenos gestos cotidianos é que  se materializam o caráter de um povo; daí seria muito difícil profetizar que tipo de futuro teremos daqui a algumas décadas? Vejam o ovo da serpente, a casca do mesmo é tão fino, que podemos observar todos os estágios da formação da espécie, até seu inevitável nascer. O réptil já está se formando em nossa sociedade, e paulatinamente ele irá se libertar da fina crosta que o aprisiona. Quando as coisas começarem a desandar de maneira insustentável, haverá a retórica do “quem culpar?”.

 

A Alemanha após a II Guerra culpou Hitler e sua gangue; porém o filme “A Fita Branca”, de Michael Haneke, nos apresenta a perspectiva de que as origens desse mal não está vinculado apenas à crença cega em uma ideologia, mas talvez em algo próximo e comum ao indivíduo: a família e as nossas relações mais próximas.

 

 

 

Filmado em um preto e branco digno de Sven Nykvist, a trama apresenta uma pacata vila alemã, as vésperas da I Guerra Mundial, acometida de estranhos acontecimentos. O médico, ao ir para casa montado em seu cavalo, tropeça em um arame cuidadosamente colocado para este fim; um galpão é incendiado; uma criança é raptada e brutalmente espancada; de quem é a culpa? 

 

Todo um clima de opressão e desconfiança circunda o cotidiano dos personagens. Temos o barão local, proprietário de todos os meios de produção, e seus vassalos, os camponeses; temos as crianças, que para se verem purgadas de suas transgressões são obrigadas a usar uma fita branca, uma insígnia de pureza e redenção, uma correspondência direta com a estrela de Davi usada pelos judeus na Alemanha nazista. 

 

 

A grande questão é que por vezes uma geração carrega o peso e a culpa de sua antecessora, e isso se manifesta em atos muito aquém da maldade e indiferença. Como um regime a exemplo do nazismo foi possível? Algum sociólogo pode responder melhor; minha flecha aponta para a indiferença e um profundo viés individualista, tal como na atualidade; oxalá eu esteja errado…

 

*O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

 

Diretor: Michael Haneke

Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaußner, Steffi Kühnert, Josef Bierbichler

Produção: Michael Katz

Roteiro: Michael Haneke

Fotografia: Christian Berger

Duração: 144 min.

Ano: 2009

País: Alemanha/Áustria/França/Itália

Gênero: Drama

Cor: Preto e Branco

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Fernando Lins
Abandonou a escola logo cedo porque não conseguia aprender nada. Cursou História na UFRN, para mais uma vez descobrir que as instituições de ensino são “gulags” que destroem todo e qualquer sentido genuíno de saber. Hoje, exilado em Campina Grande-PB, dedica-se ao anarquismo espiritual.
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Fernando Lins

Abandonou a escola logo cedo porque não conseguia aprender nada. Cursou História na UFRN, para mais uma vez descobrir que as instituições de ensino são "gulags" que destroem todo e qualquer sentido genuíno de saber. Hoje, exilado em Campina Grande-PB, dedica-se ao anarquismo espiritual.

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