“O lado bom da vida” (Silver Linings Playbook) é um exemplo daqueles filmes que nos fazem indagar o quão difícil é generalizar – no sentido de classificar um gênero – as produções, atualmente. O filme poderia ser uma comédia romântica, mas parece um pouco sério e sensível demais para isso. Poderia também ser um drama – mas tem amenidades em excesso para ostentar esse título. Prefiro, então, na necessidade de uma classificação, chamá-lo de “comédia romântica dramática”, penso que seja o que mais se aproxima de o que é o filme, de fato.

Jennifer Lawrence (Tiffany) e Bradley Cooper (Pat) formam um casal problemático e pouco convencional

A produção tem seus méritos e falhas. “O Lado Bom da Vida” não é o primeiro filho de David O. Russell, mas talvez seja o seu prodígio, ultrapassando inclusive as sete indicações ao Oscar de “The Fighter” (O Vencedor, 2010). Não sabemos, contudo, se as oito indicações do caçula de Russell – dentre as quais seis são os principais prêmios da Academia – serão suficientes para arrecadar ao menos os dois Oscars recebidos por “O Vencedor”. Mas pelo que tenho visto por aí, acho bem improvável.

 

“O lado bom da vida” trata do drama de Pat Solitano Jr., diagnosticado com bipolaridade, recém saído de uma clínica para doentes mentais, obrigado a morar com os pais após perder o trabalho, a esposa e a casa. Embora um pouco eufórico, Pat comporta-se quase normalmente, com exceção de alguns momentos em que “explode”, geralmente, ao pensar em sua (ex)esposa. No andar da carruagem, acaba esbarrando com Tiffany (Jennifer Lawrence) uma mulher que consegue ser ainda mais pirada e problemática – embora não diagnosticada – que ele. A relação que se constrói entre os dois é baseada no imprevisível, impulsivo e na sinceridade sentimental escrachada que mantêm desde o primeiro encontro.


Jacki Weaver e Robert De Niro como Sra. e Sr. Solitano

Apesar de trazer personagens pouco trabalhados e aprofundados (e aqui falo não apenas dos protagonistas, mas de todo o restante do elenco), o filmena maior parte do tempo, sustenta um roteiro criativo e pouco clichê. Não tem grandes atuações, ao contrário do que se tem dito por aí, mas o elenco funciona bem. A produção lida com uma temática densa, tal como distúrbios mentais, de uma forma leve e engraçada, e talvez o seu mérito esteja nisso. O conceito do filme, na verdade, trata de superar momentos e situações e do aprender a lidar com as surpresas da vida.

Há um esforço para manter o foco no roteiro. Nenhum dos outros elementos do filme abusam – a trilha sonora é contida, surge na medida e nos momentos certos, contribuindo para o ritmo que o filme assume; a edição é nada mais que eficiente e não existem exageros de câmeras. Alguns momentos são dignos de pontuação, como por exemplo, a cena da competição, uma das finais do filme. É uma das cenas mais criativas que já vi em filmes de comédia romântica. Enquanto todos os dançarinos compadecem-se da nota alcançada pelos protagonistas em uma competição de dança, eles e todos os conhecidos comemoram com a emoção de quem acabou de vencer a competição.

Bradley Cooper e Robert De Niro são filho e pai no filme

Jennifer Lawrence, que substituiu Anne Hathaway no papel de Tiffany e, pelo feliz acaso, acabou como uma das concorrentes ao Oscar de Melhor Atriz, não deixa a desejar para veteranos como Robert de Niro (Pat Sr.), que, à propósito, não faz jus à sua indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme. Ele cumpre o papel com dignidade, mas sem grandes méritos. Bradley Cooper foge ao seu normal, vestindo a carapuça de um “bom ator”, o que só vi na série de TV “Alias” – talvez por gostar muito do argumento de J.J. Abrams. Pelo grande feito, Cooper também foi premiado com uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Contudo, quando o colocamos lado a lado com seu concorrente Daniel Day-Lewis (Lincoln), parece bastante utópico que o humilde Cooper possa vencer o prêmio.

“O lado bom da vida” acaba sendo um filme agradável, divertido e despretensioso. Tinha tudo para entrar no ranking dos melhores filmes de sua categoria, onde posiciono, por exemplo “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”. E talvez até entre, apesar do final do filme – que nos faz ter certeza de que a produção se trata mesmo de uma derivação legítima das conhecidas comédias românticas – quando todos os clichês dos quais o filme consegue fugir por quase duas horas são retomados e carimbados com um bonito e previsível final feliz.

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