A Forma da Água: poesia moderna

Guillermo del Toro é um apaixonado por fantasia, horror e monstros, frequentemente juntando tudo isso em seus trabalhos. Responsável pelas duas adaptações de Hellboy (2004 e 2008) e pelo “porradeiro” Círculo de Fogo (2013), o diretor também é capaz de criar obras sensíveis como o espetacular O Labirinto do Fauno (2006). Seguindo uma linha próxima deste, o mexicano entrega sua mais recente produção, unindo tudo o que gosta através de um olhar poético.

A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) acompanha Elisa Esposito (Sally Hawkins), faxineira de um órgão secreto do Governo. É nesse ambiente que ela acaba mantendo uma relação de afeto com uma criatura (Doug Jones), um homem-anfíbio mantido aprisionado e mal tratado pelo temível Richard Strickland (Michael Shannon).

Como sugere a sinopse, o filme trata de uma fábula. A similaridade temática com a magnifica animação A Bela e a Fera (1991) é um ótimo ponto de partida para a compreensão e aceitação desta história, já que ambas se constroem à partir da relação afetiva entre uma mulher e um “monstro”. Como toda fábula, a moral por trás da trama é o verdadeiro foco narrativo, e aqui entra o belo roteiro escrito pelo próprio del Toro, em parceria com Vanessa Taylor.

Reparem como as interações de Elisa com os demais personagens representam alguma pauta atual. Ao lado da criatura, o respeito entre espécies, entre raças. Por maiores que sejam nossas diferenças, são as semelhanças que nos aproximam. O filme ilustra isso muito bem quando o homem-anfíbio aprende a se comunicar através da linguagem de sinais e a apreciar música e cinema.

Junto aos amigos, simboliza a aceitação social. Muda, a protagonista não se encaixa no padrão de normalidade. Algo parecido acontece com Giles (Richard Jenkins), que precisa esconder ser homossexual – a peruca usada para sair de casa é uma boa metáfora. Já ao lado da amiga Zelda (Octavia Spencer), negra, temos a representação da mulher na sociedade. Ambas realizam serviços comumente destinados a mulheres, negros e imigrantes.

Por fim, ainda tem as interações com Strickland. Ele é a personificação do preconceito, mostrado quando indaga sobre Zelda ser filha única e quando tenta explicar ser a imagem e semelhança de Deus; e o autoritarismo machista, visto no discurso sobre lavar a mão na ida ao banheiro, quando ele tem relação sexual com a esposa ou na forma abusiva como trata Elisa.

E se temos todas essas discussões nas entrelinhas da produção, a camada mais superficial apresenta uma das histórias de amor mais honestas e sensíveis da atualidade, pautada na essência de seus protagonistas. Ambos ignoram preceitos estéticos, apenas preocupados com suas personalidades. Para isso, a direção de del Toro é primordial para não deixar o filme cair no ridículo ou no caricato.

Além disso, ainda consegue ser uma bela homenagem à sétima arte ao trazer clássicos na TV, um cinema de bairro, esboçar um sapateado desajeitado, entregar uma cena de dança digna de Fred Astaire – momento inspirado do Diretor de Fotografia Dan Laustsen – ou mesmo remeter aos primórdios do cinema através da mudez da protagonista – por que não?

O Design de Produção assinado Paul D. Austerberry confere um visual belíssimo, ambientando a história nos Estados Undos da Guerra Fria. Ao lado de Laustsen, emprega cores muito bem definidas. O verde predominante serve para criar tanto uma sensação de conformismo na protagonista – seu local de trabalho, suas roupas e sua casa contemplam inúmeras peças da cor, como se ela já estivesse totalmente inserida nessa realidade – como de identificação com o seu par, uma dádiva da natureza.

À medida que o casal se aproxima, o vermelho passa a ser mais presente na vestimenta de Elisa. Começando pelos pés, chegando à cabeça e findando numa total vermelhidão apaixonada. Vale chamar atenção também para o amarelo da casa de Strickland que, junto ao seu burocrático terno preto, destoam do resto dos cenários mostrando como ele está deslocado.

A presença da água é muito forte em cena. Seja ligada à personalidade de Elisa, mostrando em seus banhos matinais o quanto se sente à vontade na banheira; ao seu dia-a-dia, no preparo dos ovos cozidos ou nas tarefas do trabalho; ou mesmo em passagens simbólicas, como em transições ou quando duas gotas dançam na janela do ônibus. Destaque para a lindíssima cena do banheiro alagado, de uma delicadeza impressionante.

O elenco é soberbo, repleto de atuações competentes. Sally Hawkins domina a tela com propriedade. Utilizando a linguagem de sinais de forma convincente, a atriz tem a difícil missão de passar sentimentos sem proferir uma única palavra. E consegue! Suas expressões são perfeitas, recorrendo sempre ao olhar e ao sorriso. Michael Shannon se mostra imponente e ameaçador em mais um ótimo desempenho; Richard Jenkins faz de Giles uma figura doce e agradável; e Doug Jones é dono de uma fisicalidade impressionante.

O versátil Michael Stuhlbarg, que interpreta o Dr. Robert Hoffstetler, está em um ano sublime, com participações em outros dois indicados ao Oscar de Melhor Filme: Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e The Post – A Guerra Secreta (2017). Octavia Spencer é puro carisma e um ótimo alívio cômico, mas não entrega nada diferente do que costuma fazer.

A Forma da Água é belo, sensível e bastante atual. Tecnicamente impecável, é o tipo de obra que vem carregada de competência e alma. Confesso que faltou um pouquinho, bem pouco mesmo, para me arrebatar por completo, assim como fizeram comigo La La Land – Cantando Estações (2016) recentemente, ou mesmo o já citado O Labirinto do Fauno, algo mais relacionado a identificação. Mas isso não diminui em nada sua grandiosidade!