“Lady Bird – A Hora de Voar” é uma ode ao cotidiano

Crescer é inerente ao ser humano. As transições da infância para a adolescência e desta para a vida adulta representam consideráveis mudanças de personalidade. Certezas viram dúvidas inquietantes, mudam nossos gostos e também a forma de pensar. Por isso, enquanto crescemos, estamos nos redescobrindo e tentando traçar o melhor caminho para seguir.

Escrito e dirigido por Greta Gerwig, Lady Bird – A Hora de Voar (Lady Bird, 2017) acompanha o difícil processo de amadurecimento de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem em seu último ano de ensino médio que acredita precisar sair de sua cidade natal, Sacramento, para poder construir o próprio futuro.

O roteiro de Gerwig é uma preciosidade, daqueles que não falam sobre nada particular, mas abordam uma infinidade de temas derivados do cotidiano. Sexualidade, identificação, amizades, relacionamento familiar e amadurecimento são algumas das pautas levantadas aqui. O texto é de uma honestidade brilhante, sem falas forçadas ou deslocadas.

Também chama atenção como os assuntos são abordados. Apesar de trazer um olhar feminino, os dilemas da obra são universais, como a relação entre pais e filhos; o desejo de ser competente no que quer que faça; a ânsia por ser notado; e, é claro, a necessidade de criar nossa liberdade e poder voar! Pautas que ultrapassam a barreira do gênero e provoca identificação com quem já passou por essa fase da vida.

No centro de tudo está a dura dinâmica entre a protagonista e sua mãe, duas mulheres de temperamentos similarmente intempestivos. Lady Bird tem sua difícil personalidade construída com qualidade dentro da narrativa, bem ilustrada no fato dela exigir ser chamada pelo nome que ela própria se deu ou mesmo na cena em que salta do carro em movimento por causa de uma argumentação.

Do outro lado dessa equação, Marion (Laurie Metcalf) demonstra o desejo de compreender a filha, ao passo que se sente perdida por não conseguir. Duas singelas cenas representam muito bem essa relação: quando uma discussão morre repentinamente após ambas se depararem com um vestido numa loja e quando conversam sobre a filha encontrar a sua melhor versão. Momentos simples, mas de uma riqueza cotidiana belíssima. Existe muito amor sob as duras ofensas trocadas constantemente.

Das cinco indicações de Lady Bird ao Oscar 2018, chamam atenção as de Melhor Filme e Melhor Direção. A primeira me parece exagerada, já que o filme é bom, mas não o suficiente. Já a segunda é histórica. Greta Gerwig é, apenas, a quinta mulher à concorrer ao prêmio de direção em 90 anos de cerimônia. Dentre elas, Kathryn Bigelow foi a única que conseguiu levar a estatueta por Guerra ao Terror.

O trabalho da “novata” – segundo da carreira, primeiro solo – não é tão impressionante quando avaliado friamente. Sem ousar com movimentos de câmera ou perspectivas mais desafiadoras, ela opta por enquadrar tudo de forma simples. O que não é nenhum demérito, já que sua história pede isso.

Greta Gerwig dirige o longa e recebeu uma indicação histórica a melhor direção

Um fator que deve ter pesado em seu favor é o trabalho com o elenco, arrancando atuações excelentes. Outro, é o momento atual de mudança que Hollywood vem passando. Desde os escândalos de assédio, as mulheres têm tido mais voz por direitos iguais, provavelmente se refletido nas indicações do Oscar.

Outras produções que estão nesta edição da competição tiveram direções mais efetivas e foram ignoradas. As que me vêm na cabeça são Martin McDonagh, por Três Anúncios Para Um Crime, Steven Spielberg, por The Post – A Guerra Secreta – embora venha sendo contestada – e, o verdadeiro injustiçado, Denis Villeneuve por Blade Runner 2049.

De qualquer forma, ver uma mulher nesta categoria é uma felicidade enorme. É o tipo de coisa que precisa mudar a rotina dos grandes estúdios, que devem dar espaço em suas produções. Outras profissionais podem se sentir motivadas a lutar. Diretoras talentosas existem, basta olhar para as séries de TV que veremos nomes como Michelle MacLaren (Breaking Bad), Lesli Linka Glatter (Homeland) e Patty Jenkins (The Killing). Inclusive Jenkins é a responsável pelo ótimo Mulher-Maravilha, melhor adaptação da DC em seu novo universo cinematográfico.

Pareado com o roteiro, o elenco mostra um trabalho impecável e se faz uma grande força da obra. Saoirse Ronan e Laurie Metcalf são as maiores expoentes. A química e a entrega de ambas chegam a ser palpáveis. A primeira, transforma uma adolescente irritante numa pessoa carismática, enquanto a segunda carrega o peso da responsabilidade nos ombros e nos raros sorrisos.

Gerwig e Ronan no set

Além delas, Tracy Letts, na pele do pai Larry é um bem-vindo contraponto na relação das duas. Doce e amistoso, Larry é o equilíbrio de um lar tão verdadeiro.

Lady Bird – A Hora de Voar não é a obra mais original do ano e nem mesmo a mais ousada. Sua semelhança com a vida real até deixa um gostinho de clichê. Mas não se engane, o que vemos aqui é uma representação muito fiel do que é a vida e das nuances da transição definitiva de personalidade. Um filme bem escrito e de um ritmo constante, sem grandes momentos dramáticos, mas que é, acima de tudo, honesto.