A fotografia como fonte histórica

Desde os primórdios, o ser humano sempre teve uma grande necessidade de registrar de alguma forma o seu cotidiano. Para alguns estudiosos essa necessidade decorria da vontade de oficializar a sua existência, enquanto para outros a mesma estava ligada à tentativa de representar algum ato considerado divino. Mesmo sem ter uma clara definição do intuito desses registros, fortes evidências mostram que esta necessidade gerada no ser humano iniciou-se nas civilizações antigas através das pinturas rupestres encontradas em cavernas nos diversos pontos do mundo.

Com o desenvolvimento das civilizações e do progresso intelectual do ser humano, novas formas de registros começaram a ser desenvolvidas com o objetivo de deixá-los mais compreensíveis para nossa interpretação, surgindo assim aparelhos ópticos que produziam retratos e paisagens com extraordinária riqueza de detalhes, desenvolvendo as imagens fotográficas.

Construção da Torre Eiffel (1888)
Construção da Torre Eiffel (1888)

Essa nova forma de registro de imagem trazia consigo um encargo bastante comum em outras manifestações artísticas, que era o seu valor como documento histórico. Vale lembrar que arte pode ser definida como fruto da criação do homem e de seus valores junto a sociedade, reconstruindo parte da cultura de um determinado povo, e é capaz de ilustrar situações e condições sociais. Com isso as imagens fotográficas podem trazer consigo fatos que revelem certas dimensões de realidade difíceis de serem descritas por meio de palavras, elevando as imagens fotográfica como documentos de investigação histórica à qual se dá o nome de materialismo dialético e materialismo histórico.

12028337A história da arte está relacionada à cultura dos mais variados povos existentes. Ela atravessa os tempos, criando e contando o passado e recriando o presente. A arte está presente a nossa volta e com ela compomos a história de uma sociedade. (Gombrich, p.09, 2000)

Contudo as imagens fotográficas também trazem consigo um determinado valor sociocultural demonstrando uma intencionalidade do fotógrafo que determina e sugere olhares sobre os objetos a serem captados, pois a fotografia nada mais é que uma linguagem possuidora de signos e regras próprias de combinações desses signos, revelando uma estrutura possuidora de sua própria hierarquia que apresenta um novo ou um outro olhar sobre determinado objeto.

Um bom exemplo são as fotos da Guerra de Canudos, conflito que ocorreu no final do século XIX e que tinha como principal objetivo ressurgir a monarquia brasileira, cultuando e acreditando na volta de Dom Sebastião. Essa seita era comandada pela figura de Antônio Conselheiro. Durante o processo de repressão do movimento rebelde, o exército brasileiro se utilizou bastante do aspecto performático, com o intuito de demonstrar a população brasileira seu poderio bélico, sua inteligência estratégia além de passar para a população que o governo estava mantendo o controle da situação e que ninguém precisava se preocupar com os movimentos sebastianistas que eclodiam nos sertões nordestinos e abalavam a estrutura da nova democracia brasileira.

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Porém, uma foto que chama bastante atenção para demonstrar uma intencionalidade do fotografo em determinar um novo olhar sobre um objeto é a do corpo de Antônio Conselheiro, pois historicamente o exército brasileiro não capturou e nem mesmo matou o líder do movimento de Canudos, já que o mesmo morrera de desinteira três dias antes da invasão militar ao acampamento. Para evitar um vexame perante a sociedade, desenterraram o corpo de Conselheiro e fotografaram-no deitado como se tivesse sido abatido e publicaram na impressa, com o objetivo de demonstrar que o movimento fora abatido pelo exército e não pela morte prematura do líder da seita.

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