A poeta Marize Castro lança seu novo livro “A Mesma Fome” em Natal nesta quinta-feira, 8, pela editora Una, a partir das 19h, no salão e café Nalva Melo, (Av. Duque de Caxias, Ribeira).

Marize é autora de “Marrons Crepons Marfins”, “Rito”, “Poço, festim, mosaico”, “Esperado ouro”, “Lábios-espelhos” e “Habitar teu nome”. Sobre ela, Haroldo de Campos afirmou: ” Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia.”

Conversamos com a autora sobre sua poesia, processo criativo e o livro novo.

O CHAPLIN: Seu novo livro é dedicado a Zila Mamede, Dora Ferreira da Silva e Yona Wollach. De onde surgiu seu contato com elas?

A minha relação com Zila se deu nos anos 1980. Eu, uma jovem curiosa, escrevendo escondida no meu quarto, sem mostrar a ninguém, devorando livros e livros. Zila, uma poeta consagrada, respeitadíssima por todos, amiga de Drummond, Bandeira, João Cabral. Eu a conheci bem no início daquela década, quando participei, como aluna, do então Laboratório de Criatividade da UFRN, que tinha como objetivo incentivar e divulgar jovens poetas. Zila Mamede foi convidada para, numa manhã de sábado, no campus central da UFRN, falar sobre seu processo de criação. Lembro-me de sua vitalidade e de como ficamos excitados e felizes com sua presença. No final, ela saiu sozinha, no seu fusca de cor cinza, deixando conosco a certeza de que tínhamos estado diante de um ser com muita força e muito talento para a vida.

Quando eu ainda era estudante de jornalismo na UFRN, pude ainda ver Zila Mamede, pessoalmente, em duas ocasiões. A primeira, na entrega do título de doutor honoris causa ao poeta João Cabral de Melo Neto. Depois, em um seminário de semiótica, durante uma palestra do poeta Décio Pignatari, no auditório da hoje Biblioteca Central Zila Mamede. O ano era 1981 e lá estava ela com sua inseparável amiga, a também poeta Myriam Coeli.

Somente em 7 dezembro de 1984, durante o lançamento do seu último livro A Herança, fomos apresentadas. O poeta Nei Leandro de Castro, que estava retornando a Natal, depois de morar anos no Rio de Janeiro, apresentou-nos. Eu estava às vésperas de lançar o meu primeiro livro e os meus poemas já eram lidos nos jornais de Natal.

Diferente do que se dizia sobre Zila Mamede, “uma mulher inatingível, ” entre outras coisas, encontrei uma pessoa afetuosa, atenta aos novos escritores, aos jovens poetas daquela Natal da década de 1980, com um movimento literário constante. Foi naquela década, aliás, que se iniciaram, em Natal, as comemorações do 14 de março, o Dia Nacional da Poesia. Zila Mamede demonstrou conhecer a minha poesia e a de alguns outros poetas da chamada Poesia Marginal, ou seja, os poetas que nas décadas de 1970 e 1980, seguindo um movimento que acontecia em todo o país, publicavam os seus textos em mimeógrafos e os distribuíam nas mesas dos bares da cidade, no Festival de Arte de Natal ou nos muros da Galeria do Povo.

No meu exemplar de A Herança, Zila Mamede escreveu: “Marize: que dizer a uma jovem poeta – senão a própria poesia? Receba os meus melhores votos para uma grande carreira poética. Um beijo de Zila Mamede”.

Encontramo-nos uma semana depois. Dessa vez no lançamento de Marrons Crepons Marfins, o meu primeiro livro. Lá estava Zila Mamede, na sexta-feira de 14 de dezembro de 1984, nos jardins do Solar Bela Vista, no Centro de Natal, foi uma das primeiras pessoas a chegar, abraçou-me – eu ainda quase uma menina de camiseta e minissaia – e me desejou, novamente, boa sorte na minha carreira poética. A partir daí nossa amizade tem início.

A poesia de Rilke me levou a Dora Ferreira da Silva. Sempre fui leitora de Rilke, mas como não sei alemão, leio traduções. Então, quando se lê traduções, principalmente quando se trata de textos poéticos, é necessário estar atento na escolha dessas traduções. Li a tradução dela de “Elegias de Duíno” e me senti tão desamparada existencialmente quanto se sentiu Rilke quando escreveu as elegias no castelo de Duíno. Então, pensei: quem traduz assim poesia também é poeta. Desde então venho lendo sua poesia. Interessam-me suas abordagens sobre o fazer poético. A epígrafe de “A Mesma Fome” é de um livro póstumo dela chamado “Transpoema”.

Quem me apresentou a poesia da israelense Yona Wollach foi o poeta e professor de de literatura da USP, Moacir Amâncio. Ele me enviou o seu livro “Yona e o andrógino: notas sobre poesia e cabala”. E como ele imaginava, senti-me muito atraída pela poesia e pela personalidade de Yona. Ela era uma transgressora numa Tel Aviv superconservadora e conseguiu construir uma obra inchada de emoções, ironias, pornografia, delicadeza, brutalidade.

O CHAPLIN: Qual sua atual relação com Natal?

Acho que estou novamente namorando com a cidade. Querendo conhecer os novos caminhos que ela sugere. Para mim, importa o que é verdadeiro. Se Natal me mostra isso, entrego-me. Se não, fecho-me e a quase ninguém dou acesso. Chamo esse meu recuo interior de liberdade.

15283920_949630201847710_5900771174763853542_n CHAPLIN:  Como foi o processo de escrita dos poemas? 

Para mim são necessárias e insubstituíveis as palavras de todo poema que escrevo, então trazer à luz essas palavras me exige silêncio, entrega, é o momento em que jogo fora as possíveis armaduras.

O CHAPLIN:  Que poetas você tem lido?

Para mim, a poesia requer uma leitura diferenciada. Sou capaz de passar meses lendo um único livro de poemas com pouquíssimas páginas. Por esses meses tenho lido “Tempo de Voltar”, o novo e belo livro de Mariana Ianelli; as novas traduções de Augusto de Campos da poesia de Emily Dickinson, poeta que amo sem nenhuma restrição; “Auguries of inocence”, da Patti Smith e agora mesmo estou lendo “Matula” que chegou esta semana em minha casa pelo correio, enviado pelo poeta Moacir Amâncio. Ele é uma das minhas admirações no cenário da poesia brasileira.

O CHAPLIN: Por fim, o que há de novo no “A Mesma Fome”, diante dos seus outros livros publicados?

Não tenho a resposta. Talvez o possível leitor a tenha. Disse certa vez que não procuro temas e não busco o novo. “A Mesma Fome” ratifica minha relação com a palavra, revelo-me a mim mesma em cada poema escrito neste livro.

SERVIÇO

Lançamento do livro “A mesma fome”, de Marize Castro
Quinta, 08/12, 19h – 22h
Nalva Melo Café Salão

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