Mal havia me acomodado em meu assento, quando cheguei pontualmente às 21h ao Teatro Riachuelo, e ouvi o bombo do teatro: faltavam 10 minutos para o espetáculo começar. Pareceu-me bem menos que isso, na verdade, talvez por ter-me distraído com um dos elementos de palco que jazia lá antes mesmo dos atores entrarem em cena, como um convite à familiaridade para aqueles que já conheciam a obra do autointitulado “anjo pornográfico”, o jornalista escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. Tratava-se de um amontoado de tecido branco, pendurado no meio do palco. A referência imediata ao texto de “Delicado” foi inevitável e confirmada já na primeira cena do espetáculo.

A partir daí, o que pudemos ver na peça “A Paixão Segundo Nelson”, cuja primeira apresentação para o público aconteceu em Natal na última sexta-feira, 29/01, é uma quantidade de cenas enlaçadas, colagens adaptadas fielmente dos textos originalmente publicados por Nelson Rodrigues em diversos veículos entre os anos 50 e 70.

Roberto Cordovani como Myrna

Tem um quê de Woody Allen em Nelson Rodrigues (ou o contrário, quem sabe, se abandonarmos a nossa mania de sempre achar que o brasileiro é o inspirado, e não a fonte de inspiração). Assim como o cineasta e escritor americano, Nelson Rodrigues é sarcástico, objetivo e, em sua capacidade de falar sobre as pessoas comuns e suas rotinas, detinha a habilidade de transformar palavras em alfinetes, que sabiam exatamente o ponto certo de espetar. Assim, a classe média carioca dos anos 50 lia despudoramente nas folhas do jornal todos os aspectos que esforçava-se para esconder. Nelson Rodrigues desvelava traição, ciúmes, inveja, cinismo, famílias problemáticas e todos os extremos da sociedade brasileira daquela época.

Mas não nos enganemos. Se os textos de Nelson fossem deveras datados, não seriam adaptados para as mais diversas mídias há 60 anos. A TV já o exibiu em horário nobre. O rádio, veículo de maior identificação popular, também já encaixou Nelson em suas onda. O teatro é incansável nas adaptações de um dos maiores dramaturgos da história brasileira, e em 2016, conseguiu reunir com o fim de levar ao público os dilemas sociais expostos por ele, o roteiro de Zeca Baleiro, a direção da competente Débora Dubois, e a escalação de um talentoso elenco que inclui nomes como Helena Ranaldi, Vanessa Gerbelli, Rui Rezende e Roberto Cordovani.

É feliz a escolha do roteiro e direção ao optar pela personagem Myrna como elo de enlace entre as histórias em cena. Roberto Cordovani é um dos atores de teatro de maior sensibilidade que já vi em cena. Sua atuação é repleta de segurança e entrega. É sempre gratificante ver essa dedicação partindo de um ator, que nos presenteia com mais que uma interpretação, mas uma versão inesquecível de um personagem, que acaba se tornando uma associação inesquecível na memória do público.

Para mim, especificamente, foi uma experiência interessante ver tão próximos e em uma entrega tão verídica atores como Rui Rezende, Vanessa Gerbelli e Helena Ranaldi, os quais eu só conhecia por alguns bons trabalhos televisivos que permaneceram marcados em minha memória. O elenco completo de “A Paixão Segundo Nelson – Uma Farsa Musical Brasileira” estava em sintonia e demonstravam a cada cena dedicação em dar vida e brilho ao projeto. A emoção da equipe foi perceptível quando, ao fim da noite, o Teatro lotado ficou de pé para aplaudir o espetáculo.

Outro destaque é a música que acompanha constantemente o espetáculo, com canções de Zeca Baleiro interpretadas pelos atores em cena e ainda a ilustre presença dos multi-instrumentistas Adriano Magoo e Billy Magno, que, apesar da discreta presença no palco, não se deixam passar imperceptíveis e agregam talento à montagem.

“A Paixão Segundo Nelson” é, podemos dizer, um espetáculo um tanto uniforme em seu desenrolar. Temos um apanhado de causos que prestam muito mais uma homenagem à obra rodriguiana do que se propõem a qualquer novidade em cima do texto. Apesar da excelência da produção, o ritmo e o sentimento é muito semelhante à de outras montagens adaptadas dos textos de Nelson a que já tive a oportunidade de assistir, ou mesmo à adaptação televisiva “A Vida Como Ela É” (recomendo procurar vídeos, facilmente encontráveis, no YouTube).

Com seu figurino cuidadoso, composição de cenário impecável, e a combinação de tantos profissionais talentosos, assistir a “A Paixão Segundo Nelson” é uma experiência não só artística, mas de vida, inesquecível. É ver a vida real dramatizada, com seus percalços, peculiaridades e rotinas por vezes singelas, por vezes surpreendentes. A identificação inevitavelmente há de surgir. A última apresentação da temporada em Natal acontece neste domingo, 31/01, às 20h, no Teatro Riachuelo.

Saiba mais sobre o espetáculo A Paixão Segundo Nelson.

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