O trailer do novo filme do ator, produtor e diretor Ben Stiller se vende muito bem, convidativo, com ótima trilha sonora e imagens atrativas, mas na prática é um filme esteticamente belo e de conteúdo pouco interessante. Alguns mais espertos que eu devem ter atentado para o teor “autoajuda” do longa. Além da bela fotografia, que diga-se de passagem é um dos poucos pontos positivos da produção e a trilha sonora, pouca coisa agrada. Talvez alguns “losers” sonhadores assim como eu, possam se identificar vagamente com o personagem principal da trama, mas no fim das contas, como bem tem sido comentado na internet, o filme lembra uma corrente, dessas com slides de power point que circulam pelos e-mails da vida.

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Walter Mitty (Ben Stiller) é um funcionário da revista LIFE, sua função é um tanto quanto secundária frente aos repórteres e fotógrafos: ele é diretor da seção de negativos da revista. No período em questão, a revista passa um por um processo de transição de impresso para online, bem como tanta outras. Mitty é um desses caras com autoestima baixa, tacanho e simples que vive uma vida de poucas emoções, mas com uma imaginação intensa, sonha acordado mil aventuras mas não tem coragem de realizá-las, uma história como tantas outras de pessoas comuns, em situações comuns em meio a grande cidades.

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Walter Mitty (Ben Stiller) e o fotógrafo de vida natural, Sean O’Connell (Sean Penn)

Para a última edição impressa da revista, Mitty está incumbido de revelar o último rolo de fotos de um prestigiado fotógrafo, Sean O’Connell (Sean Penn), que em um telegrama alertou que a foto “25” seria sua melhor foto, digna da capa da última edição, o único problema é que a bendita foto não se encontra no rolo. O gerente de transição, Ted Hendricks (Adam Scott) incisivo, pressiona Mitty a encontrar a foto para enfim ter sua capa. Não dei spoiler algum, tudo que falei é visto no trailer, bastante interessante, do filme. Dito isto, eis que começa a jornada de autoconhecimento e fuga para, enfim, viver a vida, de Mitty, e também pela foto “25”.

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Walter (Ben Stiller) e Cheryl (Kristen Wiig)

O longa de Stiller é um remake adaptado para os dias de hoje de: “O Homem de Oito Vidas” (1947) e com inspirações no longa “Muito Além do Jardim” (1979). Diferente da primeira versão do filme, em que Walter Mitty sonha com as histórias que são publicadas na revista para fugir da sua vida comum e da mãe dominadora que deseja que ele case com uma mulher que não é de seu agrado, na adaptação de Stiller, Mitty se apaixona por uma colega de trabalho, Cheryl (Kristen Wigg), porém tímido e introvertido faz uso de umas dessas rede sociais de namoro online para se aproximar dela, mas é mal sucedido. Reprimido e um tanto quanto desiludido, a vida de Walter gira em torno de seu trabalho, sua mãe (Shirley MacLaine) e sua irmã Odessa (Kathryn Hahn) e seu mundo é de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Assim como Chance, personagem encantador de “Muito Além do Jardim” vivido pelo excelente Peter Sellers, Mitty sai de seu emprego para conhecer o mundo.

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A odisseia em busca do negativo “25” tira Walter da inércia e empurra-o para uma jornada de auto descoberta com perigos, desafios, provações e aventuras, como toda boa história deve ter. Esse tipo de história não é novidade na literatura, nem nos cinemas, vide o caso do best seller, “Comer, Rezar e Amar” da escritora Elizabeth Gilbert (que embora clichê, me agradou bastante). A questão não é ser clichê, afinal, mas sim como a história é contada e desenvolvida. Não há profundidade nos personagens nem carisma no protagonista, que outrora vi em Peter Sellers, em sua primorosa atuação do filme de 1979.

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A fotografia do filme é estupenda,  a ideia de fazer das fotografias o escape para as aventuras e sonhos de Mitty foi uma sacada interessante, até certo ponto. Quando legendas começam a surgir em meio a paisagens belíssimas com frases motivacionais, bem ai as coisas perdem a linha e passam a ser uma corrente de e-mails. Os créditos vão para Stuart Dryburgh, responsável pela direção de fotografia do filme. Outro aspecto interessante do filme é a trilha sonora assinada por Theodore Shapiro, e que inclui bandas e artistas de renome como David Bowie, passando por bandas indie canadense, Arcade Fire, até o cantor sueco, José González. A bela paisagem, as frases motivacionais e as músicas positivas acrescentaram ainda mais um ar de autoajuda ao longa.

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Uma das coisas que me chamaram atenção com relação ao filme foi a grande quantidade de patrocinadores de peso: a marca de eletrônicos, Dell; a revista LIFE; o site de relacionamentos online, E-Harmony; a rede de pizzaria norte-americana Papa John’s; a linha de filmes de foto, Kodak; além da publicidade turística de dois gélidos países: Groenlândia e Islândia, deram conta do gordo orçamento de US$ 90 milhões. Bem servido financeiramente, o longa contou com a poderosa produção da equipe do ótimo “As Aventuras de Pi” (2012).

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A sensação que eu tive ao final do filme é de bem estar, clima de final de ano, de pensamentos positivos, de fazer o bem ao próximo… o filme veio a calhar. Mas é fato que a falta de aprofundamento do personagem e de um o roteiro melhor elaborado deixaram a história, que poderia ser mais verdadeira e interessante, fraca e “powerpointizada”. Faltou um pouco mais de alma e entrega pra fazer de Walter Mitty encantador como Forrest Gump ou mesmo Chance de Muito Além do Jardim. Stiller perdeu uma ótima oportunidade de desenvolver algo grandioso. Da série, “ofender não vai”, assim é A Vida Secreta de Walter Mitty, mas o leitor também esteja ciente de que bom também não é.

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