Abraço de Maré: do asfalto ao mangue

Todos os dias, milhares de pessoas passam pela ponte de Igapó, seja para chegar a Zona Norte ou para sair dela em direção a outras regiões. De tanto as pessoas passarem por lá, muitas nem percebem que, às margens do Rio Potengi, se encontra uma ilhota, onde mora uma família em sua pequena casa de taipa. Esse contexto despertou a curiosidade de um jovem diretor, que viu ali a oportunidade de fazer seu primeiro filme, foi então que começou a surgir o “Abraço de Maré”.

Depois de participar de uma oficina de audiovisual na UFRN, ministrada pelo cineasta paraibano André Da Costa Pinto, foi sugerido que o grupo trouxesse uma ideia para uma produção audiovisual. Diante disso, surgiu a oportunidade de colocar em prática a curiosidade que se tinha em torno de quem morava lá, e ainda fazer a primeira produção. Começou então o processo de adaptação e sondagem dos moradores.

No começo apenas o diretor Victor Ciriaco e o produtor executivo Helio Ronyvon participaram do cotidiano da família, até que os outros integrantes da equipe também foram levados, e por fim travou-se confiança bastante para ligar a câmera pela primeira vez. As filmagens duraram dez dias, mas todo o processo chegou a três meses. O filme conta a história do casal Biluca e Ilton, e seus três filhos, que moram em uma casa pequena entre o mangue e o Rio Potengi, e aborda também o cotidiano dessa família, que mora lá há doze anos. Ilton é pedreiro, mas quando não está trabalhando nessa área, se torna pescador para poder sustentar a família.

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Cena de “Abraço de Maré”, que optou por uma estética em preto e branco

O produtor Helio Ronyvon, afirma que “a ideia era deixá-los bem a vontade, até porque a proposta era de mostrar o cotidiano”, até por isso, o filme acaba sendo mais tocante, provocando mais emoção e expressando mais realismo para quem assiste. O fato da montagem ter optado pelo preto e branco foi ideia da editora Pipa Dantas, como recurso para que fosse esteticamente amenizada a pobreza do lugar, a fim de que o público, quando assistisse, pudesse prestar mais atenção na história da família do que propriamente na pobreza do local,e percebesse detalhes de seu cotidiano como o cachorro brincando com um pedaço de corda, a menina juntando moedas para comprar um macarrão instantâneo, e depois a felicidade dela em comer aquilo, como se fosse a melhor comida que existe, Biluca cortando um frango, varrendo a casa, e demonstrando o quanto ela ama seu marido. Mesmo não estando em condições financeiras favoráveis, conseguem ser felizes, afinal não é qualquer um que tem o Rio Potengi em seu quintal.

As dificuldades foram muitas, primeiro pela inexperiência da maioria da equipe, o próprio Victor estava estreando como diretor de uma produção desse tipo. Ainda se contam algumas dificuldades técnicas, como filmar em cima de um barco, com todo aquele balanço; em alguns momentos a equipe precisou enfiar o pé na lama literalmente, e outros empecilhos dificultaram um pouco as filmagens. Mas graças também ao excelente trabalho da editora Pipa Dantas, o filme ficou bem melhor do que eles mesmos imaginavam, conseguindo até mesmo superar as expectativas, pois como Helio comentou: “o objetivo principal era não passar vergonha”.

Em termos de orçamento, a equipe conseguiu apoio de alguns empresários da Zona Norte, e quem não podia dar dinheiro, contribuía de outras formas, seja com vales de corte de cabelo até kit de sex shop para servirem como brindes de rifas, e eles conseguiram pagar desde a passagem até o lanche, praticamente todo com esse apoio. E olhem que ainda restam algumas coisas para vender.

Pipa Dantas, Helio Ronyvan e Victor Ciríaco, editora, produtor executivo e diretor, respectivamente, do "Abraço de Maré"

Pipa Dantas, Helio Ronyvon e Victor Ciriaco, editora, produtor executivo e diretor, respectivamente, do “Abraço de Maré” | Foto: Andressa Vieira

O filme já foi exibido em vários lugares, como a UFRN, IFRN, e também em alguns festivais, que inclusive lhes renderam vários prêmios. Só no curta Taquary, em Pernambuco, das cinco categorias em que concorreram, venceram em três (melhor roteiro, melhor direção e melhor filme), já no Goiamum Audiovisual, vieram mais três (melhor edição, melhor filme e melhor filme pelo júri popular), e como prêmio, ganharam um crédito em uma produtora maior, que ofereceu equipamentos e apoio técnico para uma nova filmagem, mas dessa vez está prevista uma ficção. Recentemente, venceram também o prêmio de melhor documentário da Mostra Nacional do 1° Curta Picuí.

Além de Victor Ciriaco (diretor), Helio Ronyvon (produtor executivo ), Pipa Dantas (editora), a equipe também conta com Beatriz Tanabe (direção de produção), Luara Schamó (direção de fotografia), Bárbara Neves (som direto), Ixion Fonteneles (produção), Pedras Leão (trilha sonora) e Eduardo Schamó (arte). O roteiro é assinado por Victor, Luara e Helio. Todos eram, na época de produção, alunos do curso de Rádio e TV da UFRN.

Quem já viu o filme provavelmente vai prestar bem mais atenção quando passar pela Ponte de Igapó algum dia, afinal o próprio Helio afirma “se eu não tivesse feito parte dos bastidores, ao ver o filme, gostaria de conhecer essas pessoas”. Para Pipa Dantas “as pessoas precisam perceber aquela casa, a naturalidade como eles vivem”. A equipe levou o material para que a família assistisse, e em alguns momentos eles riram, em outros ficaram mais sérios, praticamente os mesmos sentimentos de muitos que já assistiram ao documentário. “Abraço de Maré” traz uma reflexão sobre o quanto uma realidade que nos parece ser tão distinta , nos é, na verdade, tão próxima.

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