Amor só de mãe: terror nacional denso e asfixiante

Passado o dia das mães, venho falar sobre um curta metragem de terror do diretor Dennison Ramalho (Ninjas). Este filme não poderia estar na lista especial de dia das mães, pois não seria bem digerido, apesar de seu título.

“Amor só de mãe” (2002) conta a história de um pescador que vive em uma vila isolada e pobre, com um dilema entre sua genitora e seu amor. Filho (Everaldo Pontes), como é chamado por todo o filme, tem um relacionamento amoroso e carnal com Formosa (Débora Muniz). A mulher o pressiona para largar a mãe e ir embora do fim de mundo em que vivem, mas com as negativas de Filho, o casal se desentende. Seria uma história comum, não fossem os macabros acontecimentos que se seguem…

 

 

Após a briga, o personagem de Everaldo vai à casa de Formosa e a flagra transando com um homem enquanto outro se masturba assistindo à cena. Armado de facão, o protagonista coloca os dois sujeitos para correr e em um ato de desespero pede que a amada o mate, pois prefere morrer a vê-la partir e deixá-lo só. Nesse momento a mulher é possuída por uma entidade maligna, que no filme se denomina “gira” (de Pombagira). O espírito dá um ultimato ao homem e diz que se ele quer ter sua “filha”, deverá trazer o coração da mãe até o amanhecer.

A atmosfera criada por Ramalho é incrível, tudo é soturno e denso, mesmo à luz do dia. O clima de isolamento é constante e asfixia o espectador. A caracterização de Formosa, quando possuída, é realmente de dar medo e muito original, fugindo dos padrões de filmes de terror, talvez por ser algo da nossa cultura, e por não estarmos acostumados a ver tal imaginário usado para o horror no cinema. A todo momento fica claro que estamos dentro de um legítimo filme de terror.

 

“Amor só de mãe” é o segundo filme do diretor, antecessor a Ninjas, já tratado aqui, e sem dúvidas, é uma referência no que diz respeito ao gênero terror no Brasil. Dennison Ramalho acerta ao unir elementos mais próximos de nós quando quis criar um universo assustador para as telas. Assim como em Ninjas, elementos de religião são explorados durante a narrativa, algo que está bem presente na obra do diretor.

A título de curiosidade e suposição, o roteiro é assinado por Ramalho e Pai Alex, representante de uma tenda de umbanda, à época localizada dentro do presídio do Carandiru. Por certo, Dennison tomou algumas referências para escrever o filme enquanto filmava o documentário O Prisioneiro das Grades de Ferro, do qual foi assistente de direção. O longa foi rodado no começo da década passada e mostra o dia-a-dia de presos naquela, já extinta, casa de detenção.

 

 

No mais, este curta será muito apreciado por aqueles que gostam de um terror de verdade, que não desperta risos e sim sustos, é só o que precisa ser dito. Apertem o play e tirem crianças e hipertensos da frente do PC.