Capa de "Mate-me quando quiser"

Anita Deak ensina como começar bem uma carreira literária em “Mate-me quando quiser”

A Mulher tem 31 anos e é jornalista. A Mulher acaba de lançar o seu primeiro romance, “Mate-me quando quiser”, pela editora Gutenberg, e não poderia ter começado a sua carreira literária de forma melhor. A Mulher foi, inclusive, finalista do prêmio SESC de Literatura 2013, com esta obra.

Admito que meu sentimento com a literatura estava, ultimamente, tal como o da protagonista de “Mate-me quando quiser” com relação à vida: resumia-se a desestímulo. Até lia alguns livros, mas nenhum me provocava a empolgação de outrora, nenhum me fazia não querer parar de ler, nenhum, por curto que fosse, fora devorado em dois dias ou menos. Comecei a achar que o problema era eu. É, talvez eu não fosse mais uma leitora de verdade. Envergonhada, insistia em livros que deixava pela metade, trocava uma obra literária por quatro ou cinco filmes, julgando que, de alguma forma, estes compensariam a falta daquela. Até que recebo “Mate-me quando quiser”.

A autora de "Mate-me se quiser"
A autora de “Mate-me quando quiser”

A empatia foi instantânea (pelo título, talvez? a capa bonita? as páginas em pólen bold ou a diagramação feita com esmero e que agiliza a leitura, tornando-a menos cansativa?) e não me dei ao trabalho de ler mais que a contra-capa e a biografia da autora antes de começar a devorar o livro. O plot de Mate-me quando quiser não é complexo: trata-se de uma mulher na casa dos quarenta anos que, cansada de viver, contrata um matador de aluguel, Soares, para assassiná-la. O ato deveria ser realizado dentro do período de quatro meses, na cidade de Barcelona.

Capa de "Mate-me quando quiser"
Capa de “Mate-me quando quiser”

Cinco personagens compõem a obra e, a princípio, pouco sabemos de cada um deles. Esse é, contudo, um dos maiores acertos da Mulher. Não apostar na descrição e no excesso de explicações provoca a curiosidade do leitor, que devora cada capítulo na ânsia de descobrir mais sobre os personagens e a continuação da história que se desenrola tendo como fundo a cidade castelhana. Os capítulos, que variam entre uma e seis páginas, mostram visões dos fatos de pontos de vistas diferentes e passeiam pela cabeça de cada um dos personagens.

“Mate-me quando quiser” é um livro enxuto, em que apenas o essencial permanece. A Mulher abdica de rodeios, de discursos indiretos, os diálogos são concisos e objetivos, as ações que os acompanham ficam a cargo da criatividade do leitor. A propósito, pode-se dizer que o leitor tem muita participação nesta obra, uma vez que, através das dicas que a Mulher nos fornece, cabe a ele dar forma aos personagens, objetos, e a outros aspectos da história. A exemplo de Machado de Assis, o narrador por vezes também invoca diretamente o leitor, uma característica que nem todos os autores trabalham com maestria, mas a Mulher utiliza-se dela muito bem.

O livro também trabalha uma narrativa psicológica que permite ao leitor analisar os personagens além dos fatos narrados. É como se fôssemos convocados a avaliar os acontecimentos e não apenas recebê-los. Se você for um leitor imerso, acabará transformando “Mate-me quando quiser” numa sessão de terapia particular e talvez se vislumbre no papel de um dos personagens em algum momento da obra. O texto da mulher tem disso – aproxima a gente. E o resultado foi que, do prazo de quatro meses dado pela protagonista, eu a “matei” em dois dias. E ao matá-la durante a terapia que a Mulher me proporcionou, resolvi meus problemas com a literatura e comecei meu ano literário da melhor forma possível: com um livro instigante, dinâmico e inteligente.

Ah, a Mulher chama-se Anita Deak, e desde que terminei de ler “Mate-me quando quiser” já estou ansiosa pelo seu próximo livro. Não pare, Anita, não pare.