Às vezes me pego comparando a teledramaturgia brasileira com a de outros países, principalmente os EUA, que ainda é a grande referência. Embora vários padrões bons e ruins se repitam, existem muitas diferenças. Em diversos aspectos a TV americana está à frente da nossa e nem me refiro a questões de qualidade técnica. Um gênero específico tem essas diferenças atenuadas: as tramas teens. Enquanto muitas séries americanas, independente de seu estilo, se preocupam em abordar temáticas cada vez mais próximas de seu público, por aqui nossa série/novela de maior referência – a longeva Malhação – mais parece que estacionou lá pelo final dos anos 90, inicio dos 2000. Não se renova.

Atuais protagonistas de Malhação

Atuais protagonistas de Malhação – Vitor Novello, Pâmela Tomé, Marina Moschen, Nicolas Prattes

Por que será que, desde que a escola passou a ser o núcleo central da trama, é sempre uma instituição particular? (única exceção talvez para a atual temporada). E ao longo desses 21 anos, quantas temporadas verdadeiramente se propuseram a discutir a fundo temas tão em pauta como drogas, orientação sexual e questões de gênero? Será que em todos esses anos no universo de Malhação não poderia surgir personagens que tivessem curiosidade sobre fumar maconha, por exemplo? Ou que se sentissem atraídos por alguém do mesmo sexo? Ou que enfrentassem uma crise de identidade de gênero?

A falta de representatividade racial é outro problema. Por que todo protagonista é branco? Quantos negros, mulatos, índios, dentre outros, tiveram papéis de relevância? Neste caso, é um problema que se repete na TV americana, pois muitas de suas séries ainda não deram o devido espaço para tal discussão.

The Fosters

The Fosters

De qualquer forma, para efeito de comparação, a série da ABC Family, The Fosters, tem chamado atenção pelo destaque dado à homossexualidade. Apresentando uma família formada por um casal (inter-racial) de mulheres e cinco filhos adotivos (também de raças diferentes) sendo um deles, Jude, um adolescente de 13 anos que descobre sua sexualidade ao se apaixonar pelo amigo de escola. E sim, tem beijo. O cast de coadjuvantes da série também apresenta um personagem transgênero.

A coisa é ainda mais complicada se pensarmos na enorme polêmica que daria se do nada Malhação começasse a abordar todas essas novas temáticas, pois estamos falando de uma dramaturgia acostumada ao mais do mesmo, que quando ousa só o faz em um horário bem restrito. Pegando o exemplo mais batido, imagina um beijo gay no horário das 17 horas em uma emissora como a Globo?

E é aí que entra Pedro e Bianca, série da TV Cultura. A trama é protagonizada por dois gêmeos bivitelinos de 15 anos completamente diferentes um do outro. Bianca, a mais velha por três minutos, é negra; já Pedro, mais novo, é branco. No bairro, o nascimento deles virou sensação: era retratado como “o milagre” e até nos jornais foram parar como caso raro, “1 em 1 milhão”, dizia a manchete. E ao crescerem eles continuaram convivendo com o estranhamento das pessoas. Sempre que iam para uma nova escola, por exemplo, era a mesma coisa: primeiro o choque de todos e depois eles tinham que explicar a já exaustiva história do milagre.

A sacada dos gêmeos inter-raciais por si só já era o bastante para inovar e quebrar convenções, mas Pedro e Bianca vai além. Os irmãos pertencem ao que se convencionou chamar de classe C  e estudam em uma escola pública , o núcleo central de seus 51 episódios, abrigando personagens tão fascinantes quanto eles.

Ao longo da trama conhecemos Tuca, que se torna melhor amiga de Pedro. Ela gosta de se vestir como os garotos e sente atração por meninos e meninas. Conhecemos também a desinibida Luara, que fica com quem (e quantos caras) quiser, sem medo de julgamentos. Anderson, que acabou de sair da Fundação Casa, é inicialmente julgado na escola por sua condição. Os cadeirantes Raul e Xavier, o carismático e inconsequente Leonardo, as tímidas Ciça e Fafá. Além de tantos outros que entram mais pela frente e sou impedida de falar agora porque representam grandes spoilers.

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Em 2014 a série venceu o Emmy Kids Internacional de Melhor série infanto-juvenil

A trama fala sobre amor, amizade, drogas, sexualidade, violência nas periferias, preconceito de todos os tipos. O melhor é que tudo é feito sem firulas e sem vitimismo. Muitas vezes o mesmo personagem que é alvo de preconceito comete algo semelhante. Não existe heróis e vilões, são personagens imperfeitos que amam, sofrem, erram igual a qualquer um e nem mesmo os gêmeos estão isentos disso.

Com uma alma e um carisma tão únicos, Pedro e Bianca é para assistir, terminar, morrer de saudades e ver de novo várias e várias vezes. A série, que até agora só teve uma temporada entre novembro de 2012 e março 2014 (disponível no youtube), em pouco mais de um ano fez o que Malhação até hoje não conseguiu fazer: se aproximou de seu público, de fato tentando retratá-lo.

Curiosamente, a próxima temporada de Malhação terá roteiro de Cao Hamburger, o criador de Pedro e Bianca. Será que a série finalmente sairá da zona de conforto?

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