Conheci Beatriz Madruga, ou Bia, como costumava chamá-la, nas salas de aula de um curso de inglês. Na ocasião, eu era pouca coisa para mim mesma, e Bia também não me pareceu tanto assim. Não me entendam mal, leitores, eu era uma caloura no curso de Jornalismo, e este era o aspecto mais interessante que se podia tirar de mim mesma naquela época. Bia era – e talvez ainda seja – uma garota divertida, esguia, crítica, de sorriso bonito, e que muito frequentemente aparecia atrasada e com cara de sono nas aulas do sábado de manhã – como julgá-la?

Beatriz Madruga | Foto: Pedro Fiúza

Beatriz Madruga | Foto: Pedro Fiúza

Apenas alguns semestres mais tarde, Bia deixou de ser apenas minha colega de turma do curso de inglês. Foi quando comecei a segui-la no Twitter e nos tornamos “amigas” de Facebook que descobri os talentos literários de Bia, os quais eu sequer imaginava existirem. Eventualmente, ela publicava em seu blog. Quase sempre às divulgações de seus textos ela mencionava o fato de ter um ou dois leitores, ou mesmo nenhum. Bem, eu poderia seguramente ser inserida nesse restrito e felizardo grupo. Lia fielmente os textos de Bia sempre que divulgados em suas mídias sociais e todas as vezes me vinha à cabeça o mesmo pensamento: “Quanto jeito com as palavras Bia tem!”. Futuramente descobri que Bia descendia de um famoso escriba e jornalista potiguar e ao ato de defesa para aquele talento acrescentei alguns genes seguramente herdados de seu pai.

10806914_753271361413832_1157962805_nMas Bia é sensível. Ao ler seus textos é provável que por alguns minutos você esqueça as horas, os barulhos da cozinha, e talvez preste mais atenção nas sutis batidas do seu coração, ou no barulho quase imperceptível da sua respiração. Bia comove quando nos atinge com tamanha intimidade.

Recentemente Beatriz Madruga lançou, em formato de e-book, o livro “Aos pedaços, com tudo”, uma coletânea de prosas poéticas selecionadas de seu blog. Demorei mais do que deveria para começar a ler a obra, mas, ainda em tempo, eu o fiz. “Aos pedaços, com tudo”, é um livro para ser lido. E digerido. E reconhecido. Uma prosa por dia. “Aos pedaços” e depois “com tudo” (o livro é dividido em duas partes). Ou talvez tudo de uma vez, num fôlego, apenas para terminar arrebatado.

Ao ler Beatriz, não consegui tirar da cabeça a imagem de alguma filmagem contemporânea de Wim Wenders, aquele estilo de cinema moderno em que as imagens passam e a voz em off proclama um texto agradável, reflexivo, bonito, por vezes intrigante, e cuja impressão provocada é a de que nada poderia explicar melhor certos momentos (ou sensações) da sua vida. Durante toda a leitura de “Aos pedaços, com tudo”, ouvi uma voz em off (a minha, a de Bia, a da minha mãe, a de uma amiga, a de alguém que passou, a de outro alguém que ficou…) que acompanhava as ilustrações mentais sobre tudo o aquilo o que Bia escreveu – e que eu conheço (sinto) tão bem.

aos pedacos com tudo

Capa de “Aos pedaços, com tudo”

Algumas prosas serão identificação pura. Outras, nem tanto. A maioria provocará sorrisos reais – quando você percebe um trecho, ou uma palavra que te remete a qualquer coisa que você viveu. É capaz que outras poucas também convidem algumas lágrimas para a experiência – se ela for entranhada, como merece. Mas absolutamente todas deixam claro o talento literário de Beatriz Madruga, que vem acompanhado de uma maturidade já trabalhada, de uma rara sensibilidade e de coragem. Sim, coragem. Porque é necessário coragem para um desnudamento de si mesma ao nível do realizado por Bia. “Aos pedaços, com tudo” é também um atestado da vulnerabilidade da autora e da intrepidez que lhe é necessária para assumi-la.

O e-book “Aos pedaços, com tudo”, de Beatriz Madruga, pode ser baixado no site Apartamento 702. Aqueles dispostos a contribuir com o trabalho da moça poderão optar pelo link pago, que custa a irrisória quantia de R$ 5. Contudo, o site e a escritora também dão a opção de um link gratuito para aqueles que estão apertados no mês em questão, mas não querem deixar de ter acesso a esse belo e sensível trabalho.

Sobre o(a) autor(a)

Andressa Vieira

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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