Árido Movie: um filme que bem resume Pernambuco e o Nordeste

O filme “Tatuagem” arrebatou vários prêmios no Festival de Gramado – um dos maiores do Brasil – em 2013. A obra “O Som ao Redor” foi incluída na respeitada lista dos 10 melhores filmes de 2013, produzida pelo jornal The New York Times. O que as duas obras tem em comum, além do sucesso entre a crítica especializada? Todas elas foram produzidas em Pernambuco! O estado nordestino vem chamando atenção no contexto do cinema brasileiro contemporâneo e o diretor que deu o pontapé nessa história foi Lírio Ferreira, cuja consagração começou com o excelente Baile Perfumado (1997), minha próxima crítica. Dessa vez decidi optar por um filme que bem pode resumir as peculiaridades do Leão do Norte: “Árido Movie”, de 2004, que se encontra em exibição no Primeiro Festival de Cinema Pernambucano no Rio de Janeiro, comprovando a boa fase que o “cinema com sotaque” está.

O ator paranaense Guilherme Weber interpreta Jonas, repórter do tempo que volta a sua terra natal para enterrar o pai

“Árido Movie” traz a história do garoto do tempo Jonas (Guilherme Weber), um pernambucano que migrou para São Paulo quando criança. Num dia, ao sair da redação, recebe a notícia que seu pai fora assassinado na pacata Rocha, uma cidade-fictícia no meio do Sertão. Ao chegar ao pequeno município, o repórter tem o primeiro contato com seus parentes por parte de pai: sertanejos natos, sua avó e irmãos adotivos pedem que ele vingue a morte do seu progenitor. Citando essas características, já é evidente o contraditório existente entre o protagonista e sua família paterna. A vingança é uma tortura para Jonas. E foi para deixar evidente essa relação paradoxal que Guilherme Weber tenha sido escalado para o papel, uma vez que o ator apresenta o estereótipo físico ideal do rapaz do sudeste: é um loiro alto de olhos azuis e não-miscigenado.

Guilia Gam dá vida a Soledad, uma documentarista em busca dos mistérios
do Sertão Pernambucano

O filme apresenta outras tramas paralelas. Elas são muitas e, como a imbricação entre elas é bem fraca, esse excesso acaba tornando a produção demasiadamente recortada. Mas, diante das críticas negativas, eu as enxergo como uma proposta que resume (muito bem) as várias facetas do estado de Pernambuco, talvez de todo o Nordeste. Uma delas é a história colateral de Soledad (Guilia Gam), uma documentarista que vai ao Sertão para entrevistar o Sr. Meu Velho, uma figura religiosa que utiliza um discurso mítico para explicar a dominação da única reserva d’água da cidade. Ainda na questão das lendas, os índios, interpretados pelo ótimo José Dumont e por Suyane Moreira, ganham um papel fundamental na trama e trazem a crítica social para dentro da obra. Além dessas, o núcleo perdido cuja interpretação principal fica por conta de Selton Mello também diz muito sobre a região. “Os amigos de Jonas”, como os personagens são mais conhecidos, representam os jovens das classes média e alta, aqueles que tem a oportunidade de pensar o futuro do país, mas preferem desperdiçar a oportunidade com sexo, drogas e zoação. Se não fosse essa representação e o humor, esses personagens seriam completamente dispensáveis, pois em nada acrescentam à trama principal.

Selton Mello participa do núcleo dos jovens de classe média-alta: “os amigos de Jonas”

O filme ainda conta com a atuação de Renata Sorrah, a mãe de Jonas, e de Matheus Nachtergaele, como um dos irmãos adotivos do protagonista. Infelizmente, as personagens desses ótimos atores da dramaturgia nacional não crescem no decorrer da história, constituindo-se em mais uma das falhas do roteiro de Lírio Ferreira, além da ausência de conclusão da maioria das personagens. A fotografia assinada por Murilo Salles, que parte da diferença entre Nordeste (com riqueza de cores e luzes) e Sudeste (o acinzentado de São Paulo), é formidável. A trilha sonora também é um dos atributos, com destaque para a legendária canção atribuída a Glauber Rocha, “O Sertão vai virar mar”, embalada pelo grupo de manguebeat Nação Zumbi. “Árido Movie” certamente não é o melhor filme do aclamado cinema pernambucano, mas é interessante como ele pode se constituir como uma fácil ferramenta para quem quer entender essa terra de contradições que é o Nordeste brasileiro.

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Vinícius Vieira
Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.
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Vinícius Vieira

Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.

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