As Bem Armadas: atrizes mostram afinidade em comédia que brinca com o ridículo

Seria ingenuidade ir às salas de cinema ver o filme “As Bem Armadas”, dirigido por Paul Feig e estrelado pelas inconfundíveis Sandra Bullock e Melissa McCarthy, esperando uma produção com uma respeitável contextualização narrativa, ou momentos sutis. Se eu tivesse de dar um conselho inicial para o espectador, diria: esqueça o apego com o roteiro, e concentre-se na habilidade de fazer rir em que tanto Bullock quanto McCarthy são especialistas. A experiência pode passar de “decepcionante” para “divertida” se estivermos dispostos a encarar por essa perspectiva.

Melissa McCarthy (da série Mike e Molly e de Uma Ladra Sem Limites) já deixou claro que a seriedade não é mesmo a sua área. E ainda bem que não, pois tudo na atriz contribui para o seu irretocável trabalho enquanto comediante. Sandra Bullock vive em uma constante corda bamba. Em geral, cede a produções engraçadas e encara personagens caricatos que, na maioria das vezes, vêm a calhar com suas habilidades, o que faz com que a atriz caia no gosto do povo. Contudo, Bullock dá passos em falso até mesmo no âmbito da comédia e eventualmente assina seu nome em filmes como Maluca Paixão (2009), lançado, por ironia do destino, no mesmo ano de uma das melhores atuações da carreira da atriz, no drama Um Sonho Possível, que rendeu a ela o Oscar de Melhor Atriz do ano seguinte.

 

Mullins pratica bullying com a cinta usada por Ashburn

Isso constata que nem uma nem outra estão mesmo levando o trabalho “a sério” e querem mesmo é brincar em serviço. Felizmente, pois o carisma das duas protagonistas e a forma como se entendem mesmo diante de um emaranhado de cenas esquisitas, para não dizer estrambólicas, é a única coisa que faz com que “As Bem Armadas” valha à pena.

O enredo passa a impressão de que o filme será uma espécie de continuação da saga de Grace Hart, personagem de Sandra Bullock em Miss Simpatia. Mas, na verdade, Miss Simpatia ainda consegue imprimir mais respeito que “As Bem Armadas”. O filme conta a história de Ashburn (Sandra Bullock), que é uma agente especial do FBI extremamente competente, apesar de sua arrogância, o que acaba acarretando em problemas de relacionamento. Contando com uma promoção no trabalho, ela pede ao seu chefe que a encarregue da investigação de tráfico de drogas em Boston. Entretanto, para isso, Ashburn terá que trabalhar com Mullins (Melissa McCarthy), uma desbocada e inconveniente policial local que não aceita ordens de ninguém. Os primeiros momentos do encontro são complicados, mas ambas precisam encontrar uma forma de conviver e trabalhar juntas, o que termina em uma divertida amizade.

O nível de bizarrice abrange desde o linguajar de Mullins, sempre inconveniente, o que contrasta com a postura demasiadamente correta e burocrática de Ashburn, até as situações mais engraçadas, como danças em bares e boates, a quase morte de um personagem enquanto Sandra Bullock tenta salvá-lo de um engasgamento, perseguições, brigas de corpo, e Sandra Bullock arrastando-se pelo chão com uma arma na mão tentando salvar o dia.

A dupla em um dos momentos mais engraçados do filme

Sim, é bem verdade que “As Bem Armadas” não tem um roteiro que mereça qualquer estrela. É verdade também que não há qualquer esforço para que tudo o que acontece na tela se torne crível. É inegável que há vários aspectos técnicos que podem frustrar os mais aficionados (o que dizer se um personagem que passa dias vestindo a mesma roupa? ou de outra que, ao rasgar uma blusa, transforma a peça em outra completamente nova? para não falar do excesso de atuações caricatas e da construção mal feita de um punhado de cenas). Mas a realidade é que o intuito do filme em questão não é ser genial, mas ser cômico, fazendo uso explícito do ridículo e da capacidade de suas protagonistas de cativarem o público nas situações mais bizarras. E levando em conta essa modesta ambição, “As Bem Armadas” está muito bem, obrigada.