As metáforas visuais de ‘O Homem com uma Câmera’

Na minha postagem de estreia, resolvi analisar um filme que marcou minha vida cinéfila e me possibilitou compreender um pouco das metáforas visuais que vemos empregadas no cinema, que é “O homem com uma câmera”, de Dziga Vertov, lançado em 1929 na Rússia Soviética. Se faz necessário antes de debruçarmos sobre o filme entender um pouco da conjuntura politica da Rússia naquele período: O país acabava de realizar a Revolução de Outubro, e com a retirada de Kerensky da presidência, começa a passar por reformulações ideológicas, econômicas e politicas comandada pelo então “presidente” Vladimir Lenin. O mesmo percebeu no cinema uma forma de propagar as novas ideologias de uma maneira eficiente, nacionalizando assim o cinema e incumbindo ao mesmo uma missão didática.

 Com essa nacionalização, o cinema soviético começa a passar por transformações estéticas iniciadas por Lev Kuleshov (o propósito dessa reformulação cinematográfica era se opor aos Star System americanos), que em seus estudos propôs a ideia de terceira significação, dizendo que a essência do cinema era a montagem de duas imagens em justaposição, ou seja, uma imagem complementa o significado da outra. Apoiada nessa teoria, um diretor russo, Dziga Vertov, desenvolve um estudo que tinha como principal intuito filmar apenas a “verdadeira realidade” com a câmera representando o olho do homem, que ficou conhecida como Cinema Olho.

Uma das cenas do filme

Para lançar essa nova forma de fazer cinema, Vertov lança o filme já citado, cujo diretor se utiliza de dois recursos que ate então era novidade no cinema: as metáforas visuais e as metonímias visuais. O propósito principal de Vertov ao utilizar esses recursos era desenvolver uma obra onde ele não nos apresenta uma história, mas sim um personagem, “o homem com sua câmera”, buscando registrar de maneira realista as pessoas em seu cotidiano e em sua natureza.

A partir daí, toda a interpretação gerada pelo que foi filmado fica a cargo do espectador, que através das imagens, constrói sua própria “narrativa”. Seguindo ainda a linha de raciocínio onde colocamos a interpretação na capacidade do olhar no espectador, e junto disso a construção de uma narrativa, podemos ainda identificar essa ratificação em determinados momentos do filme onde Vertov o transforma em metalinguístico, mostrando a exibição do seu próprio filme, meio que nos dizendo: “Olhe, isso é a realidade, olhe, isso é cinema!”. São essas características que tornam o filme “O homem com uma câmera” uma obra tão espetacular e ainda atual. Vale lembrar também que esse filme ainda veio balizar grandes documentaristas, a exemplo do movimento Cinema pela Verdade, e ainda foi suporte para estudos sobre vídeo arte.