Donnie Darko: a destruição de um mundo

– Por que você está usando essa estúpida fantasia de coelho?
– Por que você está usando essa estúpida fantasia de homem?

Mesclando os gêneros de horror, drama e ficcção científica, Donnie Darko foi lançado em 2001 e dirigido por Richard Kelly, que na época era estreante. Nos anos que viriam, o filme não foi um sucesso absoluto de vendas de ingressos, mas é impossível negar sua notoriedade se nos basearmos nos 21 prêmios ao qual foi indicado, ganhando 11 deles e se consagrando como um clássico do cinema “cult”.

Final dos conturbados anos 80. Uma cidade aparentemente normal, mas com uma sutil atmosfera sombria que toma conta da rotina de cada morador, onde nada mais é empolgante. É como se todos os habitantes soubessem que andam em círculos e são apenas um bando de pessoas mergulhadas num mar de tédio, fadadas a dias eternamente iguais, silenciosos e tristes, mas ao invés de lutarem contra isso, tentam esquecer que essa é a vida real de cada um, disfarçando com sorrisos descartáveis, felicidade de redes sociais e aquela cortesia odiável e paga dos mordomos. Essa atmosfera é perfeitamente traduzida na música “Mad World”, na versão de Gary Jules e que está presente na trilha sonora do filme.

É nessa cidade onde vive Donnie Darko, rapaz um tanto excêntrico, brilhante e com traços de esquizofrenia, interpretado pelo talentoso Jake Gyllenhaal. Em mais uma noite igual às outras, Donnie vê uma pessoa fantasiada de coelho cinza, cuja máscara exibia um deformado sorriso de escárnio, atraindo-o para fora de casa dizendo que estava salvando sua vida para avisar que o mundo acabaria dentro de um mês. No outro dia, ao acordar na grama de um jardim longe de onde mora, o garoto não acredita em sua visão, achando que tudo não passou de um sonho e que talvez seja sonâmbulo, mas logo muda de opinião ao ver que na noite anterior, um motor de avião despencou e caiu exatamente em sua cama. A partir desse momento, ao poucos, Donnie vê a realidade se misturar às alucinações com o coelho, levando a consequências catastróficas.

Paralelo ao convívio de Donnie e seu amigo imaginário, mas de forma clara, o filme também aborda a física teórica como meio de tentar viajar através do tempo, algo muito desejado pelo personagem principal e por motivos que são revelando aos poucos pela trama, citando livros escritos por Stephen Hawking e Roberta Sparrow para expor as ideias de Donnie e tentar realizá-las. Além de mostrar seu mundo interior e seus desejos, o longa expõe também a rotina do garoto, que vivencia momentos típicos da vida de um adolescente, como o primeiro amor, festas e outras descobertas, mas como Donnie tem uma noção diferente do que é tido como normal em sua cidade, ele percebe tudo de forma distante e fria, e, com a “ajuda” do coelho, passa a se rebelar contra isso. Todas essas temáticas estão descritas separadamente aqui, mas no filme elas se entrelaçam e interagem simultaneamente, uma complementando a outra.

Jake Gyllenhaal fez um bom trabalho nesse papel por ter conseguido destacar muito bem a frieza e isolamento de Donnie, mas também o seu desejo de querer encontrar alguém que o entendesse um pouco. Mostra um rapaz silencioso, mas não tímido, sarcástico, com um sorriso doentio, olhos muito expressivos e preso entre dois mundos, o real e o particular. Uma das cenas mais marcantes do filme é quando Donnie está em uma consulta com sua psiquiatra e lhe revela que não quer ficar sozinho, mas até mesmo nessa frase e nesse momento íntimo é possível perceber quão longe da realidade ele está. Em algum lugar dentro de si, ele tem a certeza de que sempre estará sozinho, mas nutre a inocente esperança de que talvez esteja errado.

Além de um ótimo roteiro, o filme ainda nos presenteia com uma trilha sonora impecável, composta por músicas famosas dos anos 80 que se encaixaram perfeitamente no enredo do longa, explorando desde Tears for Fears, Echo & the Bunnymen, até Joy Division com o seu maior sucesso, “Love will tear us apart”, mas o maior destaque ficou para a já citada “Mad World”, canção criada pelos Tears for Fears e regravada por Gary Jules e Michael Andrews, que revelaram o lado belo e melancólico da música, fazendo toda a diferença na cena em que foi inserida. “Donnie Darko” faz com que prestemos mais atenção ao nosso interior e sentimentos,  nos fazendo pensar acerca do que é o mundo de verdade para cada um de nós e como seria viver sem máscaras.